sábado, 30 de maio de 2009

Ainda sobre os livros "didáticos" de São Paulo

Quando Serra e os seus afirmam não saber quem são os responsáveis pelo descaso nas escolhas dos livros do projeto Ler e Escrever, estão mentindo e omitindo informações. Do mesmo modo, quando falam sobre as “sindicâncias” para esclarecer os episódios. Há relações pessoais bastante complexas para que as apurações sejam de fato executadas e, como dizem, “os culpados sejam penalizados”. Certamente cabeças rolarão, porque a mídia e a sociedade estão alvoroçadas, mas é preciso saber se serão as cabeças dos reis ou dos peões. Vejamos por partes. Tratam-se de temas esclarecedores.

Apesar do site do tal projeto Ler e Escrever ser horrendo e sem qualidades apropriadas para algo desse porte - http://lereescrever.fde.sp.gov.br - e só funcionar com Explorer, apesar de não ter um “fale conosco” decente etc. e tal, se houver paciência de Jó pode-se ver o time dos responsáveis pela coisa no setor “Vídeos”: http://lereescrever.fde.sp.gov.br/site/Videos.aspx?idxVideo=1 (Ler e Escrever; Iara Prado) Está lá a professora Iara Glória Areias Prado e sua equipe (são 2 vídeos). Eis, portanto, os responsáveis, pra começar.

Agora, por favor, pergunte ao Serra quem é Iara Areias Prado, além de ela ser esposa do conhecidíssimo Antônio de Pádua Prado Júnior, o Paeco - http://www.appm.com.br/equipe.php?indicador=appm&a=2, cuja empresa APPM tem como clientes: http://www.appm.com.br/clientes.php?indicador=clientes

E aproveite para perguntar a ele, Serra, quem seria Ieda Maria Bottura Areias e onde ela trabalha, qual seu histórico na área, além de ser irmã de Iara Prado. Caso esteja muito curioso, o Diário Oficial de SP dá uma resposta simples, com foto atual: “Ieda Areias, secretária particular de José Serra” - http://www.imprensaoficial.com.br/PortalIO/DO/BuscaDO2001Documento_11_4.aspx?link=/2008/legislativo/maio/09/pag_0002.pdf&pagina=2&data=09/05/2008&caderno=Legislativo.

No mesmo DO, vê-se que Ieda Areias está na Casa Civil desde 2 de janeiro de 2007 (mas Serra e Ieda se conhecem de longa data e muitos negócios governamentais): http://www.imprensaoficial.com.br/PortalIO/DO/BuscaDO2001Documento_11_4.aspx?link=/2007/executivo%20secao%20ii/janeiro/03/pag_0001.pdf&pagina=1&data=03/01/2007&caderno=Executivo%20II

Entretanto, dirá o pesquisador mais aficionado ao voltar ao tema dos livros picantes, a professora Iara Prado foi exonerada do cargo de Secretária Adjunta da Educação em 10/abril/2009, juntamente com a antiga Secretária da Educação Maria Helena Guimarães Castro - http://www.imprensaoficial.com.br/PortalIO/DO/BuscaDO2001Documento_11_4.aspx?link=/2009/executivo%20secao%20ii/abril/10/pag_0001.pdf&pagina=1&data=10/04/2009&caderno=Executivo%20II -, então como ela poderia ser a responsável pela irresponsabilidade dos livros impróprios para alunos das escolas públicas de SP? Bem, ela continua firme e forte na Secretaria da Educação, bem como no Ler e Escrever - projeto que distribui tais livros para as escolas, sem revisão. Seria bom perguntar diretamente ao secretário Paulo Renato e ao Serra o que a professora Iara faz, exatamente, na Secretaria de Educação; sem dúvida eles sabem a resposta.

Daí, alguém pode perguntar: Mas Iara Prado está sozinha no projeto Ler e Escrever? Ela não está só; além dela, estas pessoas fazem parte da equipe, entre outras:
- Coordenadora de Estudos e Normas Pedagógicas - Valéria de Souza
- Coordenador de Ensino da Região Metropolitana da Grande São Paulo - José Benedito de Oliveira
- Coordenadora de Ensino do Interior - Aparecida Edna de Matos
- Presidente da Fundação para o Desenvolvimento da Educação - Fábio Bonini Simões de Lima
- Diretora de Projetos Especiais da FDE - Claudia Rosenberg Aratangy
- FONTE: último slide da apresentação, em: http://www.lge.org.br/upload/evento_lindoia/Claudia%20Aratanji.ppt , e vídeos citados acima.

Estas não foram REALMENTE as primeiras reclamações quanto a materiais impróprios para alunos. E não estou falando do caso dos mapas… Ontem, 28 de maio de 2009, por acaso, saiu no Diário do Grande ABC, e em todo canto da WEB, mas a história é antiga nos interiores da Educação, já que o livro foi distribuído em final de 2008, conforme notícia no DO - http://www.imprensaoficial.com.br/PortalIO/DO/BuscaDO2001Documento_11_4.aspx?link=/2008/executivo%20secao%20i/novembro/25/pagnot_0003.pdf&pagina=III&data=25/11/2008&caderno=Executivo%20I .
A manchete do Diário do Grande ABC, por exemplo: “Outro livro polêmico constrange alunos da rede estadual” http://setecidades.dgabc.com.br/default.asp?pt=secao&pg=detalhe&c=1&id=5746897&titulo=Outro+livro+polemico+%3Cbr%3Econstrange+alunos+do+Estado . Trata-se de “Memórias Inventadas”, de Manoel de Barros, entregue para a 6a série, alunos com 11-12 anos.

Mais uma vez o DO, de 23 de agosto de 2008, nos esclarece: “Declarando inexigível (…) Ato Ratificado pelo Presidente da FDE nos termos do Art. nº 26 da referida Lei; a licitação de acordo com o Art. 25 inciso I, da Lei nº 8666/93, e suas atualizações, o processo 15/1092/08/04 por ser inviável, eis que trata-se de aquisição de Obra Literária, sendo 463.088 exemplares do Livro - Título “MEMÓRIAS INVENTADAS - a Infância de Manoel de Barros”, destinados aos alunos da 5ª a 8ª séries do Ensino Fundamental II, conforme solicitação da CENP – Coordenadoria de Estudos e Normas Pedagógicas – “Projeto Básico Apoio ao Saber” a ser fornecido pela “EDITORA PLANETA DO BRASIL LTDA” fornecedora exclusiva, conforme declaração da CBL – Câmara Brasileira do Livro. Ato Ratificado pelo Presidente da FDE nos termos do Art.” http://www.imprensaoficial.com.br/PortalIO/DO/BuscaDO2001Documento_11_4.aspx?link=/2008/executivo%20secao%20i/agosto/23/pag_0025.pdf&pagina=25&data=23/08/2008&caderno=Executivo%20I

A compra foi efetuada por R$ 2.315.440,00, conforme o DO de 5 de setembro de 2008: Contrato: 15/1092/08/04 - Empresa: Editora Planeta do Brasil Ltda. - Objeto: Aquisição de obra literária, 463.088 “Memórias Inventadas”, destinados aos alunos da 5ª a 8ª séries do Ens.Fund.II - Projeto Apoio ao Saber” - Prazo: 60 dias - Valor: R$ 2.315.440,00 - Data de Assinatura: 28/08/2008. http://www.imprensaoficial.com.br/PortalIO/DO/BuscaDO2001Documento_11_4.aspx?link=/2008/executivo%20secao%20i/setembro/05/pag_0017.pdf&pagina=17&data=05/09/2008&caderno=Executivo%20I

E agora os 463.088 exemplares terão de retornar à FDE? Piada. Eles não estão nas escolas, estes livros foram comprados para serem entregues aos alunos, para eles levarem para suas casas. Não há como recolher isso nunca mais. Exatamente por este motivo a mãe de um aluno o entregou ao SPTV. Caso eles fossem recolhidos, o que seria feito de todos esses livros com logotipo da FDE, do Governo do Estado etc.? E a dinheirama paga por eles, voltaria de alguma maneira? Como? As editoras topariam desfazer o negócio se não foi culpa delas a escolha?

Outras perguntas interessantes:

- Quem vai arcar com as despesas de retorno dos livros à FDE, que está sendo feita pelo Correio? (Nós, de novo? É claro.)

- Quanto vai custar esse retorno? (Aliás, é risível para não dizer trágico, o método que está sendo usado para que as escolas devolvam os livros, pergunte ao Paulo Renato e equipe quantos livros voltaram ao ninho, quantas escolas estão conseguindo realizar a façanha e tire suas conclusões.) Portanto, a declaração à Folha: “De acordo com o tucano, os exemplares foram rapidamente retirados e, por isso, os alunos “praticamente” não tiveram acesso aos livros” é outra mentira. Quem está numa escola sabe o esforço que a Secretaria ta fazendo para realizar essa tarefa e pelo jeito não está conseguindo.

- Quem assina as licitações e as compras “sem licitação” realizadas pela FDE? Ou seja, quem é o responsável pelas compras de livros sem a devida avaliação? Atualmente não seria a Sra. Claudia Aratangy, que também é do Projeto Ler e Escrever? E antes dela não teria sido a Iara Prado?

- Depois de ver o Paulo Renato no SPTV (28/maio/2009) - http://g1.globo.com/Noticias/Vestibular/0,,MUL1171208-5604,00.html -, percebe-se que ele deixa a culpa com a antiga Secretária de Educação. Oras, mas a equipe do Ler e Escrever não é a mesma? E não teria sido a mesma Iara Prado a responsável pelo Programa Nacional do Livro Didático (PNLD), à época do Paulo Renato no MEC (quando ela era a Secretária do Ensino Fundamental), portanto supostamente de total confiança do atual Secretário de Educação?

- Não foi a própria Iara Prado, no MEC, que disse em 2002: “Hoje o livro didático é reconhecido como mercadoria, com finalidade social, que forma brasileiros e o futuro do País; e que, portanto, precisa ser de excelente qualidade”. “Iara disse que o livro didático não é uma mercadoria qualquer que pode ser escolhida pelo próprio consumidor, porque tem um papel formador.”? http://mecsrv04.mec.gov.br/acs/asp/noticias/noticiasId.asp?Id=2912 Então há alguma diferença entre o antes e o agora? Ou os livros impróprios não podem ser considerados didáticos, mas apenas de “apoio pedagógico”? O que seriam então livros de apoio pedagógico nesta gestão?

- Não seria a mesma Iara Prado, que aparecia como consultora na empresa de Paulo Renato, a PRS Consultores (antiga Paulo Renato Souza Consultores) - http://www.prsconsultores.com.br/ -, juntamente com outros membros da SEE-SP: Maria Helena G. Castro, antiga secretária da educação, Maria Inês Fini, contratada pela Fundação Vanzolini (aliás, esta Fundação não é da Poli? E o que tem ela para ser contratada para agir na área pedagógica da Educação?) para trabalhar como coordenadora de projetos da SEE-SP? No site atual da PRS esses nomes não constam mais, mas ao entrar no E-Educador, pode-se vê-los abaixo da notícia copiada da Isto É, de 05.04.2009, “SP: Conflito na Educação”: http://e-educador.com/index.php/notas-mainmenu-98/4294-seesp08 (a notícia original na Isto É: http://www.terra.com.br/istoe/edicoes/2056/artigo130513-1.htm); ver esta interessante página também: http://e-educador.com/index.php/notas-mainmenu-98/645-correto-, cujo título é apropriado: “É correto?”

Em tempo: Serra “determinou mapeamento de nepotismo em SP”, vide: http://www1.folha.uol.com.br/folha/cotidiano/ult95u572607.shtml O decreto em si: Decreto Nº 54.376, de 26 de Maio de 2009: http://www.imprensaoficial.com.br/PortalIO/DO/BuscaDO2001Documento_11_4.aspx?link=/2009/executivo%20secao%20i/maio/27/pag_0004.pdf&pagina=4&data=27/05/2009&caderno=Executivo%20I

Em tempo 2: Não se trata de hipocrisia ou de saber que a novela das 8 tem mais temas afins do que nos livros e é vista pela criançada sem problemas ou censura familiar, nem de não saber como e sobre o que os jovens das escolas públicas falam nem, como já foi dito, serem alguns dos textos “irônicos”. O ato de ensinar a fina arte da ironia para pessoas tão jovens, através desse tipo de material, é errado. Se pessoas esclarecidas, que acompanham a Internet diariamente, que lêem bons materiais, têm certo pensamento crítico etc., ainda são incapazes de compreender um blog como o do Professor Hariovaldo Prado, imagine o que é uma criança de 9 anos entender as sutilezas irônicas do “Manual de Auto-Ajuda para Supervilões”… (vide imagem: http://2.bp.blogspot.com/_Pzi6Y7eU4AQ/Sh6rVuGDLDI/AAAAAAAAA7I/rfPmc-U6Urw/s1600-h/livro+inapropriado.jpg )

Resumindo: alguém acha que a Secretaria da Educação precisa fazer uma sindicância – ela mesma investigar-se a si própria – para descobrir quem é o culpado pelas escolhas erradas e, talvez o pior, pelo desperdício de dinheiro nesse compra, recolhe e faz-se lá o que ninguém sabe com os livros devolvidos. O governador não precisa ficar esperando que o Secretário descubra os culpados, eles estão muito próximos deles todos, são do conhecimento tanto de um como de outro. Se querem enrolar alguém podem esquecer, aqueles que sabem usar bem o mundo digital não precisam de muito tempo para mapear os rastros dessa gente. Aqui quase nada se apaga e tudo se propaga.

Nenhum comentário:

Postar um comentário