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segunda-feira, 27 de junho de 2011

O engodo da neve gaúcha

Todo inverno é a mesma coisa. Mal começa a estação e os noticiários de TV começam a dar chamadas e notícias de uma suposta nevasca no RS. Se engana quem quer, em geral a classe média deslumbrada, que sobe a Serra na vã esperança de ver o fenômeno climático. Pura demagogia para esquentar os lucros já absurdos de hoteleiros e abutres travestidos de indústria do turismo. O implacável Cristóvão Feil, como sempre, vai no fígado ao analisar a artimanha guasca em seu Diário Gauche:

 

O vento minuano e o mercado do frio no RS


Nos últimos anos, cada vez mais se fala em neve no Rio Grande do Sul, nos meses de inverno – de junho a agosto. Invoca-se o que é faltante - os flocos de neve, abundantes, cadentes, fartos e inexoráveis. Parece que há uma aliança comercial entre setores da imprensa, meteorologistas de espetáculo, hoteleiros oportunistas e área do turismo da Serra guasca. Objetivo: iludir e captar incautos de classe média para os seus estabelecimentos pega-ratão.


Por trás dessas ações publicitárias há a tentativa de criar um mercado do frio no estado mais meridional do Brasil. Esse mercado teria como suporte (palavra do jargão publicitário) o mito da neve, e se sustentaria na indução ao consumo de bens e serviços em torno de alimentação, bebidas, hotelaria e comércio de vestuário voltados para mitigar o rigor das baixas temperaturas.


A estratégia é pobre e se baseia no alarme semanal sobre a iminência de frio intenso e neve, mas como nada foi combinado com São Pedro, este frustra os alarmistas. De qualquer forma, pela insistência, acabam depositando expectativas positivas no incipiente imaginário da classe média ingênua. Criam-se assim justapostas camadas de material favorável para que um mito fique de pé, pelo menos enquanto durar o inverno.


Enquanto isso, os verdadeiros agentes do frio sulino, os ventos minuano e pampeiro permanecem no limbo do nosso esquecimento. O minuano é um vento forte, constante e cortante. Ele sopra desde o oceano Pacífico, passa pela cordilheira dos Andes e assobia rasante os campos e coxilhas do pampa guasca. O pampeiro é um vento Polar, que sopra do corredor territorial entre o oceano Atlântico e a cordilheira chilena. Enquanto o minuano é um vento extremamente seco e varredor de nuvens escuras (ver foto), o pampeiro é trazedor de umidade associada ao frio, temporais e mau tempo prolongado.


O Rio Grande do Sul não constitui somente a fronteira nacional mais ao sul do Brasil, é antes de tudo, e para bem além da geopolítica, uma fronteira climática entre o trópico e o subtrópico, entre as correntes quentes do Equador e os ares glaciais do polo austral. Neste rincão, onde o vento redomão investe contra as correntes amenas do trópico, criando conflitos e inquietudes naturais, os homens e mulheres aprenderam que o estabelecido não pode ser motivo de resignação e acomodamento. As insurreições naturais foram constantes inspiradoras de levantes políticos de prolongados embates. Vários escritores e autores sulinos – Érico Veríssimo e Simões Lopes Neto, por exemplo - narraram o fenômeno que mimetiza a natureza em ações coletivas de grande significado histórico, político e social.


Nota-se, pois, que o tema é vasto, culturalmente rico e de grande valor poético-literário. Por esse motivo não pode ser reduzido a uma prostituída estratégia publicitária para granjear simpatia junto a consumidores tão ingênuos quanto ignorantes.


P.S.: Hoje em Porto Alegre, de resto no Rio Grande todo, está soprando um minuano inclemente, que faz escabelar os bigodes de quem os têm.

quinta-feira, 16 de setembro de 2010

Diário Gauche: Luis Fernando Veríssimo dá uma chinelada em José Serra, o boçal


Aos poucos o candidato José Serra mostra facetas ocultas de sua personalidade. Semana passada, numa sabatina promovida pelo jornal O Globo destapou outro vão obscuro das suas muitas luas psíquicas, a boçalidade, sinônimo de ignorância, estupidez e, como disse Dilma em outro debate, Serra faz questão de exibir uma certa arrogância mesclada com autossuficiência. O que acentua mais ainda a boçalidade mostrada em O Globo.

Hoje, publicado em vários jornais do País, o escritor Luis Fernando Veríssimo dá uma chinelada em José Serra. Leia abaixo:

Foster Dulles


Não pude ir à sabatina dos candidatos à Presidência feita por colunistas e leitores de O Globo na semana passada, mas mandei perguntas por e-mail. Respondendo à minha pergunta sobre se, caso ele fosse eleito, a política externa brasileira voltaria a ser a que era antes do governo Lula, mais alinhada com os Estados Unidos, Serra respondeu que teria uma política própria, presumivelmente diferente da política do Fernando Henrique também. Mas antes fez um preâmbulo, lembrando o livro O Senhor Embaixador, em que, segundo Serra, meu pai se revela um admirador de John Foster Dulles, secretário de Estado americano que foi o grande estrategista da Guerra Fria com a União Soviética, famoso pela sua doutrina do “brinkmanship”, ou a arte de levar as confrontações até a beira de uma guerra quente, sem dar o passo fatal. “No caso da família Verissimo, houve uma alternância”, disse Serra, pois o filho, eu, “passou para o lado contrário em matéria de questão externa”. Não entendi: o lado contrário do que, da Guerra Fria? Posso garantir que não sou pelo alinhamento da nossa política externa com a União Soviética contra o Foster Dulles, mesmo se conseguíssemos encontrar os dois ainda vivos, e mesmo que meu desejo valesse alguma coisa.


Como eu, o Serra deve ter lido O Senhor Embaixador há algum tempo. Não surpreende que não se lembre bem do que leu. Foster Dulles foi, sim, uma figura admirável, do ponto de vista puramente literário. Incorporava um certo tipo de aristocracia americana que durante algum tempo fez do Departamento de Estado o seu feudo fechado e do anticomunismo sua principal faina intelectual. Depois, esse patriciado estanque foi substituído por tecnocratas tipo McNamara, que deram o passo fatal além da beira e empurraram o país para o abismo do Vietnã. Nenhum tinha aquela empáfia de nascença que caracterizava Dulles e seus pares e mal camuflava sua arrogância. Meu pai não admirava a política de Dulles, Serra. Um personagem do livro expressa sua opinião sobre Dulles como a fascinante figura literária que foi.


O Senhor Embaixador foi baseado, em boa parte, na experiência do meu pai como diretor de assuntos culturais da União Pan-Americana, ligada à Organização dos Estados Americanos, em Washington, de 1953 a 1956. A personalidade que, este sim, ele mais admirou no período foi Alberto Lleras Camargo, ex-presidente da Colômbia pelo Partido Liberal que dirigiu a OEA até 54 e saiu do cargo fazendo um famoso discurso em que desancava a intromissão americana em assuntos internos da América Latina e propunha um novo relacionamento, não submisso, dos latinos com os Estados Unidos. Lleras Camargo foi o primeiro estadista latino-americano da sua estatura e com suas credenciais a dizer coisa parecida. Recomendo ao Serra que, quando tiver tempo, leia Solo de Clarineta, vol.1, livro de memórias do meu pai, para saber com que figuras ele realmente simpatizou, na época, e com quem concordava.

Do Diário Gauche