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quinta-feira, 10 de novembro de 2011

“Crime de Imprensa” lembra a campanha de 2010

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O livro "Crime de Imprensa" ainda não chegou às livrarias, nem deve chegar tão cedo. Seus autores, os jornalistas Mylton Severiano, o Myltainho, e Palmério Dória, não estão muito otimistas. Na contra-capa, eles já avisam que se trata de um livro "sobre o qual você não vai ver nenhuma resenha nem menção alguma em nenhum veículo da grande mídia".
Já que é assim, vamos falar dele em primeira mão aqui mesmo no Balaio. Trata-se do primeiro livro escrito sobre a cobertura jornalística da campanha de de 2010 em que Dilma Rousseff, do PT, foi eleita presidente da República contra a vontade de toda a grande mídia brasileira, que apoiava o candidato derrotado José Serra, do PSDB.
"Um retrato da mídia brasileira murdoquizada" é o sub-título do livro de Myltainho e Palmério, os mesmos autores do best-seller "Honoráveis Bandidos". Lançado pela editora Plena, pode ser comprado por R$ 35,00 no site www.plenaeditorial.com.br.
Na apresentação da obra de 138 páginas, os veteranos jornalistas com passagens marcantes pelas principais redações do país, anunciam:
"Crime de Imprensa" é o primeiro livro a mostrar, na história das eleições, como se comporta a mídia corporativa antipopular e atrelada a interesses que não coincidem com a vontade do nosso povo. Uma mídia que não hesita em usar os mesmos métodos do inescrupuloso magnata das comunicações Rudolph Murdoch".
Os autores pretendem transmitir a "perplexidade das pessoas lúcidas deste País, não só com a cobertura jornalística falsamente `isenta´das campanhas eleitorais, mas também com a posição dos grandes veículos de comunicação diante de outros episódios das vida brasileira".
Os leitores vão descobrir coisas que jamais leram na imprensa nem viram nos telejornais: o candidato que se tornou onipresente, gravando falas em São Paulo e ao mesmo tempo desfilando em carro aberto no Tocantins; a cartilha do MEC espinafrada e até chamada de criminosa por colunistas que leram apenas uma frase de um capítulo ou nem mesmo leram nada.
No capítulo "E os aprendizes de Murdoch não desistem", o livro reproduz trecho de um texto que escrevi no Balaio às vésperas da eleição de 2010:
"Jamais tinha visto nada parecido na cobertura de uma eleição _ tamanhas baixarias, tantos preconceitos, discursos tão vis e cínicos, textos inacreditavelmente sórdidos publicados em blogs e colunas. No melhor momento social e econômico da história recente do país, chegamos ao fundo do poço na política".
Um ano depois, podemos constatar que, infelizmente, nada mudou, mas é bom lembrar o que aconteceu para que esta vergonha não se repita nas próximas eleições presidenciais.
Trecho do primeiro capítulo do livro ("A bolinha de papel que pesava 2 quilos"):
"(...) Jacob Kligerman disse à imprensa que não houve ferimento algum, mas providenciou uma tomografia (jamais divulgada) e recomendou repouso _ tirado a seguir numa churrascaria de luxo na zona sul do Rio. Ali, a bolinha de papel atirada pelo anônimo cidadão, tinha virado uma bobina de fita crepe, logo transformada em "uma coisa grande", que o vice do tucano, Índio da Costa, avaliou em 2 quilos, e a Folha publicou, peso para o qual o candidato Serra deu um desconto camarada: era só meio quilo _ que, a não ser que fosse uma almofada de plumas, de todo modo lhe teria fraturado o crânio.
Colado a José Serra no calçadão de Campo Grande, caminhava Fernando Gabeira, experiente repórter, que afirmou não ter visto "coisa grande" alguma atingir a cabeça do tucano. Naqueles instantes, o ex-guerrilheiro Gabeira, desmerecendo mais uma vez sua biografia, posava como vice virtual de Serra, já que o verdadeiro, o citado Índio da Costa, estava completamente desmoralizado".

Via Balaio do Kotscho

quinta-feira, 26 de maio de 2011

"Não li e não gostei"

Só mesmo a frase do título acima, para dar uma ideia do disparate que se formou em torno da discussão do novo livro do MEC Por uma vida melhor, sobre a norma culta da língua e suas alternativas. Jornalistas e outros comunicólogos que não entendem patavinas começaram a desancar o livro. Sobre este tema, achei o artigo abaixo publicado no Terra, bem pertinente:

Suponhamos

Por Sírio Possenti
Para fazer a denúncia das aventuras de Palocci, um jornal conta ao leitor que analisou documentos, fez cálculos etc. Nos dias seguintes, revela mais detalhes, cita os desmentidos, os desmentidos dos desmentidos, novos nomes, novos números. Retoma-se o caso Francenildo etc.
Suponhamos que a mídia tratasse da mesma forma o caso livro do MEC. Em uma página, encontra duas ou três passagens das quais suspeita. Então, lê o capítulo, depois, lê o livro. Acha que tem alguma coisa estranha. Vai mais fundo: considera o fato de que se trata de um livro aprovado e distribuído pelo MEC. Obviamente, quererá saber se há mais algum implicado. Analisa outros livros de português abonados pelo Ministério. Encontra coisas semelhantes, pelo menos em um capítulo em cada manual. Desconfiada, porque nunca ouviu falar disso (só conhecia o manual da redação), decide investigar se é coisa do PT. Avança sobre os livros de português distribuídos no governo anterior, na certeza de que não encontrará nada disso (imagina!). Mas encontra. Tenta descobrir que conversa é essa.
O repórter pede uma diária extra, ou pede socorro à sucursal e ganha um reforço (parece ser coisa que vale a pena...). Lêem os Parâmetros Curriculares, do primeiro governo FHC (e que são um pouco confusos, mas deixa pra lá). Encontram passagens como "A discriminação de algumas variedades linguísticas, tratadas de modo preconceituoso... Por isso mesmo, o preconceito lingüístico...". Ficam apavorados. Verificam quem são os culpados. Consultam a bibliografia e encontram uma lista de autores, nacionais e estrangeiros, uns mais antigos, outros mais recentes. Dão umas googladas (linguistic prejudice etc). Acham os temas meio complicados! Incrédulos, conferem os "créditos": Presidente da República: Fernando Henrique Cardoso (continuaria comunista?); Ministro da Educação: Paulo Renato Souza.
Como têm interesse em apurar a verdade, procuram Paulo Renato, que foi o "ministro dos PCNs". Querem entender melhor essa coisa estranha. Ele informa que vários dos que trabalharam na elaboração dos Parâmetros são paulistas, e fizeram um trabalho semelhante durante o governo Montoro (um petista doente!). Basta ir à CENP, órgão da Secretaria da Educação do Estado, e ver os documentos, ele diz. Vão. Descobrem os textos do Projeto IPÊ (como são radicais!), que foram distribuídos a todas as escolas do Estado, distribuição seguida de numerosos cursos para professores de português, em diversas cidades do Estado e, na capital, para coordenadores pedagógicos e coordenadores da área. Está escrito: Governador: Montoro; Secretário da Educação: Paulo Renato. Dois criptocomunistas, eles pensam. Mas era apenas o primeiro governo democrático do Estado depois dos interventores!
Na CENP, encontrarão também, e lerão (acredito na imprensa livre e objetiva!), uma PROPOSTA CURRICULAR PARA O ENSINO DE LÍNGUA PORTUGUESA - 1º GRAU. Descobrem que é mais radical do que o livro do MEC. E que o documento é de 1991. Governador? Fleury Filho, notório esquerdista. Secretário de Educação? Fernando Morais (escreveu A Ilha, xii!!), um dos que falaram mal do livro do MEC na ISTOÉ da semana. Pode-se supor que leu pelo menos o documento da Secretaria que comandava, secretário competente e responsável que era.
No intervalo, lêem reportagem da FSP, ao lado da qual está um texto claríssimo de Thaís Nicoletti. Decidem não levar em conta (concluem que a FSP também está recheada de comunas). Souberam de um artigo de Hélio Schwarztman na Folha.com, que disseminava as idéias stalinistas de Noam Chomsky (ele se chama Noam Avram, é suspeito!) e as leninistas de Steven Pinker. Não gostam; sentem-se mais confortáveis com Augusto Nunes e Alexandre Garcia.
Poderão ler também Criatividade e gramática, assinado por Carlos Franchi, que é de 1998 (o governador era o xiita Mário Covas e a Secretária da Educação, a maoísta Teresa Neubauer da Silva!), um documento dirigido a professores, que, entre outras coisas, reduz a pó algumas análises gramaticais que fazem sucesso, por serem simples... e erradas (pode-se demonstrar, não é questão de ideologia, e dizem respeito a categorias como advérbio, sujeito, não à variação linguística, esse tema de extrema esquerda). Do mesmo autor, poderão ler um fascículo breve, menor que o registro de uma empresa, eu acho (mas nunca vi um), chamado Mas o que é mesmo "gramática"?, capaz de desasnar uma pessoa (que o deseje) em pouco mais de uma hora.
Na CENP, alguém lembra vagamente que houve um primeiro movimento nessa direção já durante o governo do amigo de comunistas Paulo Egydio (que o seguinte, de Paulo Maluf, enterrou; ele gostava mais da ROTA). Pedem reforço. O jornal poderia enviar um especialista como faz quando o furo (barriga?) é relativo a um tema um pouco menos óbvio?
Por que este caso não foi rastreado?
Não entendi
Não entendi (mesmo!) a bronca em relação ao livro Por uma vida melhor. Num texto que escrevi para o caderno Aliás (Estadão, 22/05), cheguei a dizer que o capítulo era conservador. Reafirmo que é. Por isso, não consigo mesmo atinar com a origem da estrondosa reação. Afinal, o prof. Pasquale ministrou centenas de aulas do mesmo tipo na TV Cultura. A diferença principal é que ele "partia" de letras de música nas quais identificava um "erro" e, em seguida, dizia qual era a regra que deveria ser seguida "no formal". Mas ele nunca corrigiu as letras das músicas. Nenhuma diferença de fundo, portanto. Foi a palavra "preconceito"? Foi "pode"?

Sírio Possenti é professor associado do Departamento de Linguística da Unicamp e autor de Por que (não) ensinar gramática na escola, Os humores da língua, Os limites do discurso, Questões para analistas de discurso e Língua na Mídia.