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terça-feira, 12 de abril de 2011

A mídia Irresponsável

 

Por Richard Jakubaszko -  jornalista e escritor, é editor do blog http://richardjakubaszko.blogspot.com

Até quando a mídia poderá se comportar de forma irresponsável e impunemente? Só na semana passada dois episódios demonstraram de forma clara o sensacionalismo da mídia ao tratar de assuntos de alto interesse público de forma leviana, para gerar audiência.
O brutal assassinato de crianças dentro de uma escola, ato cometido por um brasileiro desequilibrado, de 24 anos, que invadiu na manhã de quinta-feira (7) a Escola Municipal Tasso da Silveira, em Realengo, na zona oeste do Rio de Janeiro, e atirou nos alunos, foi exemplar. Uma chacina perpretada por um maníaco, que mostrou uma vez mais que a mídia brasileira não dispõe de jornalistas preparados à altura para noticiar fatos dessa envergadura, menos ainda para explorar outros lados da notícia e do fato em si. É verdade que o ineditismo do episódio dantesco em terras brasileiras espantou a todos, mas já deveríamos ter aprendido com os exemplos dos EUA, onde essa loucura é quase rotina.
A irresponsabilidade da mídia está em apontar a suposta adesão do assassino e suicida à religião muçulmana, considerada como fundamentalista e xiita. De uma mera suposição de um policial numa entrevista tumultuada, houve relatos dos repórteres, em jornais e TVs, lembrando casos de fanatismos religiosos, como o 11 de setembro americano, ou o 11 de março espanhol. No fim de semana outras notícias, de que o assassino seria Testemunha de Jeovah… Pela falta de consistência na suspeita, pela agressiva resposta e protesto de alguns blogs, e até mesmo pelo vazamento de informações via WikiLeaks, semanas antes, de que o Pentágono desejava desqualificar a religião islâmica, a mídia tupiniquim estancou as análises dessa hipótese e foi em frente, foi testar outras hipóteses, como a versão de bullying apresentada por professores e analisada por um psiquiatra infantil, quando este avaliou que apenas o bullying não seria capaz de explicar ataques brutais como o ocorrido em Realengo.
As entrevistas de praxe com psicólogos de plantão, ou com opiniões do povo, vizinhos, parentes, estudantes, encheram as páginas dos jornais e o noticiário das TVs, numa repetição monocórdia da mediocridade, da evidente falta do que noticiar, da ausência de conteúdo, da inexistência de editores que direcionassem os repórteres a buscar fatos com um mínimo de verossimilhança e importância diante de um fato tão brutal. Já no domingo o que restava de notícia na mídia estava no corpo do assassino, ainda sem reconhecimento oficial no IML, a casa onde morou nos últimos seis meses, que teria sido depredada, e, debates e mais debates abertos com especialistas sobre a necessidade de se desarmar a sociedade, de se estabelecer segurança nas escolas, de se implantar catracas com detetores de metal, ou colocar policiais de plantão, ou ainda câmaras, como se os poderes públicos tivessem recursos para tudo isso, pois mal conseguem manter as escolas.
Nesse caso, mais uma vez, a mídia brigou com a notícia. Menos de uma semana nas manchetes, já na segunda-feira (ontem) o assunto sumiu da mídia e da blogosfera. Só os efeitos colaterais estavam presentes, e a imagem dos muçulmanos cada vez mais negativa no imaginário da população.
A registrar-se a curiosidade de que a grande maioria de casos policiais que acontecem no Rio de Janeiro possuem essa característica comum de fatos e versões intermináveis e estapafúrdios.
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segunda-feira, 11 de outubro de 2010

A República Fundamentalista Cristã


VLADIMIR SAFATLE


Folha de S.Paulo 11/10/2010

Um poder moderador vigia o debate político e impede que pautas de modernização social cheguem ao Brasil


FUNDADA EM 31 de outubro de 2010 após a expulsão dos infiéis do poder, a República Fundamentalista Cristã do Brasil apareceu em substituição à República Federativa do Brasil. Dela, ela herdou quase tudo, acrescentando uma importante novidade institucional: um poder moderador, pairando acima dos outros Três Poderes e composto pela ala conservadora do catolicismo em aliança com certos setores protestantes. Os mesmos setores que, nos EUA, deram suporte canino a George W. Bush. A função deste poder moderador consiste em vigiar o debate político e social, impedindo que pautas de modernização social já efetivadas em todos os países desenvolvidos cheguem ao Brasil.

Na verdade, a fundação desta nova República começou após uma eleição impulsionada pelo problema do aborto. Procurando uma tábua de salvação para uma candidatura que nunca decolara e que passou ao segundo turno exclusivamente por obra e graça de Marina Silva, José Serra resolveu inovar na política brasileira ao instrumentalizar politicamente os dogmas mais arcaicos deste que é o maior país católico do mundo.

Assim, sua mulher foi despachada pelos quatro cantos para alertar a população contra o fato de Dilma Rousseff apoiar "matar criancinhas" (conforme noticiou um jornal que declarou apoio explícito a seu marido). As portas de seu comitê de campanha foram abertas para os voluntários da TFP, com seus folhetos contra a "ameaça vermelha" capaz de perverter a família brasileira através da legalização da prostituição e do casamento gay (conforme noticiou o blog do jornalista Fernando Rodrigues). A internet foi invadida por mensagens "espontâneas" contra a infiel Dilma e o PNDH-3.

José Serra já havia dado a senha quando afirmou, em um debate, que legalizar o aborto seria uma "carnificina". Que 15% das mulheres brasileiras entre 18 e 39 anos tenham abortado em condições indescritíveis, isto não era "carnificina". Carnificina, para Serra, seria o Brasil importar esta prática tão presente na vida dos "bárbaros selvagens" que são os ingleses, franceses, alemães, norte-americanos, espanhóis, italianos, ou seja, todos para quem o aborto é, pasmem, uma questão de saúde pública e planejamento familiar.

Confrontada com esta guinada, a "classe média esclarecida" não se indignou. As clínicas privadas que fazem abortos ilegais continuariam funcionando. O direito sagrado de salvar a filha de classe média de uma gravidez indesejada continuaria intacto. Para tal classe, o discurso sobre "valores cristãos" era apenas uma radicalização eleitoral.

Quando o poder moderador, confiante em sua nova força, começou a exigir que o criacionismo fosse ensinado nas escolas, que o Estado subvencionasse atividades de proselitismo religioso travestidas de filantropia, já era tarde. Então, alguns lembraram, com tristeza, dos pais fundadores da República Federativa do Brasil, decididos a criar uma república laica onde os dogmas religiosos não seriam balizas da vida social. Uma república onde seria possível dar a César o que é de César, e a Deus o que é de Deus. Uma República que morreu no dia 31 de outubro de 2010.

VLADIMIR SAFATLE é professor no departamento de filosofia da USP.

http://www.brasilianasorg.com.br/blog/luisnassif/a-republica-fundamental...


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Para saber mais sobre este grave problema de saúde pública:

Na Wikipedia:
http://pt.wikipedia.org/wiki/Aborto_no_Brasil

Pesquisa mais atualizada sobre aborto no Brasil:
http://admin.paginaoficial1.tempsite.ws/admin/arquivos/biblioteca/abortonobrasil.doc7478.pdf

Aborto induzido em mulheres de baixa renda — dimensão de um problema:
http://www.scielo.br/scielo.php?pid=S0102-311X1991000200009&script=sci_arttext

Aborto supera câncer de mama em internações pelo SUS:
http://delas.ig.com.br/saudedamulher/aborto+supera+cancer+de+mama+em+internacoes+pelo+sus/n1237794630553.html