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segunda-feira, 24 de outubro de 2011

Sobre a entrevista do Governador Tarso Genro na Carta Maior

A Carta Maior, com repercussões no RSurgente, VioMundo, Blog do Saraiva, entre outros, apresenta entrevista do Gov. Tarso Genro [RS], a respeito do editorial do jornal Zero Hora do Grupo RBS [acesso exclusivo a assinantes]. Tal editorial manifesta opinião a respeito da conferência proferida pelo Governador no Congresso do Ministério Público do Rio Grande do Sul.

Nestes trechos da entrevista o Governador está impecável:


1. O governador acusou a RBS de querer interditar o debate manipulando o conteúdo de sua conferência ao “não publicar nem mencionar o trecho acima que dá sentido à toda a exposição”.

Prática comum das empresas de comunicação em geral, tanto para apoio, como para divergir de alguma posição política.

2. "Esta atitude da RBS, pretendendo interditar o debate com ameaças de campanhas difamatórias que estão subjacentes no mesmo editorial, marca o ápice da petulância e da arrogância que poucas empresas de comunicação têm a coragem de expor publicamente. Mentem, quando dizem que sou contra o jornalismo investigativo, quando o que sou contra é julgamento sumário de pessoas, independentemente de que sejam culpadas ou não. Mentem quando contrastam dois textos meus sobre assuntos diferentes, mesmo tendo, na Conferência, manifestação explícita da minha parte que confirma a minha posição de princípio a favor da total liberdade da imprensa e de respeito irrestrito ao trabalho dos jornalistas,"

Utilizar o termo "mente" no lugar do comum "inverdade" foi colocar as coisas nos seus devidos lugares. Geralmente, figuras políticas importantes costumam evitar o emprego da expressão "mentira".

Mas, neste trecho, há de se fazer reparos:

Por fim, Tarso Genro afirmou que não mudará um milímetro a relação que mantém com a RBS e nem com a imprensa em geral. “Essas controvérsias são boas para a democracia."

 O significado de controvérsia, conforme o iDicionario Aulete:


(con.tro.vér.si:a)

sf.

1. Diferença de opiniões ou discussão quanto a uma ação, afirmação, teoria, proposta ou questão; POLÊMICA

2. P.ext. Ação de negar, contradizer ou de se opor a algo; CONTESTAÇÃO; IMPUGNAÇÃO

3. P.ext. Debate de ideias; POLÊMICA

[F.: Do lat. controversia, ae.]


Com efeito, o Governador está corretíssimo ao relacionar "controvérsia" com "democracia". Numa sociedade, os antagonismos são reais e as contendas se resolvem pelo voto, nas democracias, ou nas armas, em situações tensionadas pelo arbítrio e/ou autoritarismo.

Mas, no momento, em que a informação - um bem público - é deliberadamente adulterada pela mentira e, ainda por cima, a responsável pelo fato é uma empresa de comunicação detentora de monopólio nessa área, entramos no campo perigoso da provocação, típica do autoritarismo, que desrespeita a maior autoridade do Estado eleito legitimamente pelo voto. Portanto, não se trata de uma controvérsia na acepção da palavra.

Trata-se de um ataque à democracia, ao voto vencedor. Se fosse editorial que destacasse a divergência da empresa de comunicação, seu posicionamento contrário à conferência do Governador no Congresso do Ministério Público do Estado, isto sim seria uma controvérsia.

A mentira, devidamente denunciada pelo Gov. Tarso Genro, não teve nada a ver com isso. Façamos este reparo e estejamos atent@s!

Foto: Governador Tarso Genro, durante conferência proferida no Ministério Público do RS (Caco Argemi/Palácio Piratini)

Do Dialógico

domingo, 30 de agosto de 2009

Lembrando Chomsky, por Marcos Rolim

Quando as pessoas dominam verdadeiramente um tema, se fazem compreender facilmente, porque falam com simplicidade. Simplicidade não é o mesmo que superficialidade. É possível dizer coisas importantes e profundas de forma clara, mesmo quando tratamos de assuntos bem complicados. Por outro lado, quando o falante começa a entrelaçar conceitos que remetem a outros conceitos; quando suas palavras formam círculos que impedem qualquer afirmação, o discurso vira um refúgio e, nesta metamorfose, o que se propõe não é mais um diálogo, mas uma encenação.Um dos críticos deste mau uso das palavras é Noam Chomsky, um dos grandes intelectuais de nosso tempo, a quem devemos descobertas que revolucionaram a linguística. Chomsky nunca entendeu o significado de expressões como, por exemplo, “dialética”.

Para ele, sempre que alguém lhe tentou explicar o sentido do conceito, ou dizia algo sem sentido, ou produzia uma verdade trivial. Brincando com suas próprias posições, Chomsky diz que talvez lhe falte um gene para entender palavras do tipo. No interessantíssimo Para Entender o Poder (Bertrand Brasil, 2005), o polêmico dissidente americano concluiu que, por trás de conceitos assim, há muita “falcatrua”. Chomsky tem sido, também, um dos mais importantes críticos do papel da imprensa, o que explica a razão pela qual não costuma ser muito “popular”. Uma de suas teses sustenta que a imprensa não vende jornais.

O verdadeiro produto que a imprensa vende é seu público e quem compra este produto, é claro, são os anunciantes. Talvez, dito assim, soe muito simples. Mas o que há de verdadeiro nesta simplicidade é seu incômodo.O jornalismo precisa ser simples, porque seu desafio é o de alcançar o maior número de pessoas, informando-as. O que não significa que precise ser superficial. Nas primeiras horas após a desocupação da fazenda Southall, tínhamos um sem-terra morto. Depois, com as informações de que a vítima não estava armada e que foi alvejada pelas costas, o que passamos a ter foi um assassinato. Ou, se a linguagem jurídica for preferível, um homicídio. O MST não “ganhou um mártir”, como se chegou a afirmar, porque a conclusão faz crer que o impróprio no disparo é seu efeito político, não o cadáver.

Os relatos colhidos sobre o que foi feito pela Brigada Militar apontam não para uma “operação desastrada”, mas para a prática da tortura contra dezenas de pessoas. Não há desastre ou “erro” na tortura, há vergonha e crime. Simples assim. E se uma representante do Ministério Público anuncia que a operação policial demonstrou “profissionalismo”, então há um espanto que precisa ser explicado, para que o próprio Ministério Público não se confunda com o “Ministério da Verdade” de George Orwell e sua “novilíngua”. Na distopia proposta pelo livro 1984, um dos conceitos criados pela “novilíngua” era “duplipensar”.

Com a expressão, o governo totalitário pretendia induzir os indivíduos a conviver simultaneamente com duas crenças opostas, aceitando ambas. Uma polícia que atua com profissionalismo não tortura, não humilha e não produz cadáveres. Não há “dialética” a ser invocada e não dizê-lo claramente é amparar a mão que puxou o gatilho. Simples assim. Ou, talvez, me falte um gene para compreender a covardia. marcos@rolim.com.br