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sábado, 19 de setembro de 2009

Muito barulho por nada.

Por Vinícius Wu*

Que fim levou crise “sem precedentes” da Receita Federal? Cadê a paralisação das atividades do Fisco no Brasil? Lina Vieira saiu e o mundo estava prestes a acabar. Encontrou, ou não, com Dilma? A tragicomédia produzida pela grande mídia poderia, perfeitamente, ser batizada com o mesmo título da memorável obra do grande dramaturgo inglês. Mas, ao contrário da peça de Shakespeare, não há culpados. Ao fim, restou apenas o silêncio. Nada mais.

Ora, como pôde um assunto tão “relevante” para o país desaparecer assim do noticiário?A incontornável fábrica de crises brasileira nos deve uma explicação. Talvez algum destes articulistas, que subitamente tornaram-se especialistas na área, nos ofereçam alguma resposta. Mas, enquanto nossos sábios defensores das causas da corporação da Receita não apresentam sua versão, vou arriscar duas hipóteses.

A primeira talvez seja a reveladora entrevista do “insuspeito” Everardo Maciel – ex-secretário da Receita Federal durante o governo FHC – no programa “Entre Aspas”, da Globonews. Maciel, que parece não ter motivos para encobrir qualquer obscenidade cometida pelo governo Lula, simplesmente liquidou com a tese da “politização” da Receita Federal. Para o ex-Secretário de FHC, foi Lina quem politizou a Receita. Disse, ainda – em relação ao caso da Petrobrás – que a estatal estava coberta de razão. Para Maciel, a “crise” não passou de um factóide. O programa conduzido por Mônica Waldvogel pretendia atestar a ingerência política do governo Lula sobre a Receita. Foi um verdadeiro fiasco. Os entrevistados desmentiram a tese, para desespero da nobre apresentadora. Paulo Antenor, presidente do SindiReceita, também participou e criticou duramente a gestão de Lina.

Uma outra hipótese para o sumiço da crise pode encontrar apoio na última pesquisa CNT/Sensus. Apenas 24% da população estavam “acompanhando” as noticias a respeito do suposto encontro entre Dilma e Lina. Outros 17,5% tinham ouvido falar, e 50,4% nunca tinha ouvido falar do malfadado encontro.

O fato é que esta foi apenas mais uma das inúmeras crises produzidas pela grande mídia. O interesse nacional é o que menos importa neste caso. A reação corporativista dos grupos organizados no interior da Receita já foi alvo de inúmeras críticas dos articulistas da grande imprensa. Mas como, desta vez, suas baterias estavam voltadas contra o governo Lula, foram apresentados como arautos do serviço público e da moralidade republicana.

A “crise” da Receita desapareceu dos grandes veículos, porém, não há motivo para pânico, pois, logo, a fábrica brasileira de crises nos presenteará com outra. Esperamos que, da próxima vez, ao menos, tenhamos um desfecho. Temos o direito de saber quem é o “Dom João” da trama, como na peça de Shakespeare. Feliz ou não, queremos o final da história, ou então, nosso ingresso de volta.

*Vinicius Wu é Assessor Especial do Ministro da Justiça.

Do Blog Leitura Global