Falsa intimidade
A moralidade é
uma virtude disputada. Mesmo aqueles que dela conhecem apenas o nome
gostam de falar sobre virtudes morais como se fossem íntimos de longa
data.
Em época
eleitoral, por exemplo, somos obrigados a acompanhar o espetáculo
lamentável de moralistas de última hora, que parecem acreditar no pendor
infinito da população ao esquecimento e à indignação seletiva.
Melhor seria
que eles se abstivessem de falar de moral antes de meditar profundamente
a respeito da passagem do Evangelho que exorta a primeiro tirar a trave
no seu próprio olho antes de retirar o cisco no olho do próximo.
Por exemplo, o
Brasil vive um momento importante com o corajoso julgamento do chamado
mensalão. Espera-se, com justiça, que daí nasça uma nova jurisprudência
para crimes de corrupção eleitoral. Espera-se também que ninguém saia
impune desse caso vergonhoso.
No entanto é
tentar resvalar a moralidade à condição de discurso da aparência e da
esperteza ver políticos como o ex-presidente Fernando Henrique Cardoso e
seu candidato à Prefeitura de São Paulo tentarem utilizar a justa
indignação popular em benefício eleitoral próprio.
Caso eles
realmente amem os usos das virtudes morais em política, melhor seria se
começassem por fazer uma profunda autocrítica sobre o papel de seu
partido na criação do próprio mensalão, da acusação de compra de voto na
emenda da reeleição, assim como fornecer uma resposta que não fira a
inteligência quando membros de seu partido - como Marconi Perillo, Yeda
Crusius e Cássio Cunha Lima - aparecem envolvidos até a medula em casos
de corrupção.
Seria bom
também que eles explicassem por que apoiam incondicionalmente um
prefeito que chegou a ter seus bens apreendidos pela Justiça no ano
passado devido ao caráter da contratação da empresa Controlar, e por que
a Justiça suíça e a francesa investigam propinas que a empresa Alstom
teria pago a políticos do governo paulista em troca de contratos com a
Eletropaulo.
Por fim, seria
uma boa demonstração de respeito aos eleitores que o candidato Serra se
defendesse, de preferência sem impropérios, a respeito das acusações
sobre o processo de privatização de empresas federais no período FHC.
Sem isso, toda
essa pantomima lembrará uma velha piada francesa sobre um sujeito que
dizia a todos em sua pequena cidade ser amigo de Charles de Gaulle. Eis
que um dia, De Gaulle aparece na cidade. Para não ser desmascarado, o
sujeito resolve chegar perto do presidente e, com um tom de
cumplicidade, perguntar: "E aí, Charles, o que há de novo?". "De novo",
respondeu De Gaulle,"só mesmo essa intimidade".
Artigo do professor Vladimir Safatle, da Filosofia da USP.
Via Diário Gauche
