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segunda-feira, 6 de setembro de 2010

Parlamentares ameaçados: “foi montada uma rede de dossiês durante a CPI da Corrupção”


O advogado e ex-ouvidor da Secretaria Estadual de Segurança Pública, Adão Paiani, anunciou hoje que cobrará um posicionamento do presidente da seccional gaúcha da Ordem dos Advogados do Brasil (OAB), Cláudio Lamachia, sobre os episódios envolvendo a espionagem de políticos, jornalistas, policiais e outras autoridades desde o interior do Palácio Piratini. Para Paiani, a OAB foi conivente com essa situação quando ele denunciou o uso do aparato de segurança do Estado para espionar adversários políticos do governo Yeda. O ex-ouvidor também entrará em contato com a deputada Stela Farias (PT), que presidiu a CPI da Corrupção, para discutir medidas diante das evidências de pressões e ameaças contra parlamentares durante as investigações de denúncias de corrupção envolvendo o governo estadual.

Em março de 2009, Paiani denunciou a prática e divulgou gravações onde o então chefe de gabinete da governadora, Ricardo Lied (hoje atuando na coordenação da campanha de Yeda) conversava com o ex-presidente da Câmara Municipal de Lajeado, Márcio Klaus (PSDB). Entre outras coisas, eles falavam sobre a substituição do delegado regional da Polícia Civil e do comandante da Brigada Militar na região, que havia prendido Klaus em flagrante por crime eleitoral. E também sobre uma investigação da vida do ex-deputado estadual Luiz Fernando Schmidt (PT), então candidato à prefeitura de Lajeado. Paiani acusou Lied de tráfico de influência e de crime eleitoral e acabou saindo do governo. Ele entregou um CD com as gravações para a OAB, mas o assunto caiu no esquecimento. “Como não conseguiram apurar nada contra mim, resolveram deixar tudo por isso mesmo”, diz Paiani que voltará agora a cobrar um posicionamento da entidade e de seu presidente.

A prisão do sargento que era segurança de Yeda na Casa Militar, acrescente Paiani, lança luz também sobre algo que ocorreu durante a CPI da Corrupção. A revelação de que mesmo filhos de parlamentares tiveram dados (e fotos) acessados é gravíssimo. Para Paiani, o resultado da CPI na Assembléia (boicotada pelo governo e por sua base parlamentar) está diretamente ligado a este de rede de espionagem. “Muitos deputados, inclusive da base do governo, foram ameaçados e pressionados. Os fatos divulgados agora mostram que foi montada uma rede de dossiês. O elevado número de acessos ao Sistema Integrado de Consultas deve-se a isso”, observa.

Seria interessante mesmo cruzar os dados do volume de acessos e dos nomes de quem foi investigado com o período da CPI da Corrupção (e também do processo de impeachment que tramitou na Assembléia). Talvez surjam “coincidências” reveladoras. Durante a CPI, eram freqüentes os relatos nos corredores da Assembléia de que integrantes da Casa Militar do governo Yeda estavam investigando a vida de parlamentares. Agora há uma prova concreta de que isso realmente aconteceu. O Legislativo irá se posicionar sobre o caso?


Do RS Urgente

terça-feira, 15 de setembro de 2009

A coragem, a omissão e a covardia

Por Adão Paiani

Após vários dias afastado dos acontecimentos que mobilizam a Assembléia Legislativa do Estado Gaúcho, voltei na tarde desta segunda-feira (14) ao Palácio Farroupilha para, rapidamente, assistir a sessão da Comissão Parlamentar de Inquérito que busca esclarecer as denúncias que atolam até o pescoço o Governo de Yeda Rorato Crusius. Saí de lá com três palavras martelando o pensamento; e que servem de título a esse comentário.

No mesmo terceiro andar da Casa, ao mesmo tempo, duas reuniões se realizavam. Uma delas, que reputo ser a legítima, era conduzida, conforme regimentalmente previsto, pela sua Presidente, acompanhada de alguns de seus pares que, efetivamente, honram o mandato que receberam, e são conscientes da importância de ocupar, com dignidade e decência, uma cadeira no Legislativo gaúcho; dentro do qual, literalmente, nasceu o episódio fundador da identidade cívica e cultural riograndense.

É importante lembrar, não apenas como curiosidade histórica, que o parlamento riograndense nasceu em abril de 1835, e das discussões internas e impasses havidos entre aqueles vinte e oito parlamentares da primeira legislatura, criou-se o caldo de cultura que levou ao vinte de setembro e a tudo o que ocorreu depois. Da verdadeira odisséia que por dez anos levou nosso Estado a enfrentar um Império, que possuía forças e recursos infinitamente superiores, criou-se o mito do gaúcho que hoje se cultua e reproduz dentro e fora de nossas fronteiras.

Os homens e mulheres que escreveram com sangue aquela história não devem ser idealizados. Eram como quaisquer outros; com seus erros, contradições e até falhas indesculpáveis de caráter. Mas a despeito disso souberam estar à altura do momento histórico que viveram e buscaram fazer o que entenderam ser a coisa certa. E o fizeram com coragem, a despeito das conseqüências pessoais, do perigo ou das pressões que, inevitavelmente, sofreram.

Esses, onde estiveram, nem que esse lugar seja apenas a lembrança daqueles que ainda hoje os reverenciam, devem estar orgulhosos das posturas desse pequeno grupo de parlamentares que, superando as divergências ideológicas que os separam, tentam desnudar, aos olhos do Rio Grande, toda a vergonha do Governo mais corrupto de toda a história sul-rio-grandense.

Estes, sim, estão honrando o mandato que lhes foi delegado e homenageando, mesmo sem perceber, apenas com suas atitudes, aquilo que durante essa semana tão efusivamente comemora o Rio Grande; a Revolução que não ganhamos, mas cujas idéias foram defendidas até o limite das forças ou da própria vida, por homens e mulheres, livres e escravos, abastados e pobres, aventureiros e idealistas, mas que tinham em comum, senão outras coisas, pelo menos a coragem.

A segunda reunião a que me referi, capitaneada pelo relator da Comissão Parlamentar de Inquérito, foi, em si mesma, o episódio seguramente mais lamentável que as paredes daquela casa já presenciaram, e depõe contra tudo o que deve representar um parlamento e a própria atividade parlamentar. Esses que a cada período de quatro anos escolhemos para nos representar estão lá não apenas para legislar. Estão lá, também, para fiscalizar. E é exatamente essa prerrogativa constitucional que a chamada “base aliada”; ou seja, aquele grupo de deputados que está única e exclusivamente, dentro do parlamento, a serviço dos interesses do governo, e não de seus eleitores ou dos cidadãos do Rio Grande; está sepultando de uma forma indigna, abjeta e desonesta.

Demonstram esses homens, com suas atitudes, não serem dignos de ocupar posições que um dia foram de Bento Gonçalves da Silva, Domingos José de Almeida, José Maria Rodrigues e Marciano Ribeiro, dentre outros. Negam a própria essência da atividade parlamentar que exercem. Deixam que os interesses subterrâneos que movem a eles próprios e ao Governo que defendem se sobreponham ao dever que tem de fazer a coisa certa e de estar à altura do momento histórico no qual estão tendo o privilégio de atuar. É o mais bem acabado exemplo que a covardia não combina com o exercício da atividade parlamentar.

Curiosamente, um desse parlamentares, ao lado do referido relator, encontrava-se elegantemente pilchado, e com vistoso lenço vermelho no pescoço. Aliás, a própria Governadora do Estado tem, ultimamente, se trajado com aquilo que considera a vestimenta típica das mulheres gaúchas do período farroupilha. Um e outro se esquecem de que não se pode vestir impunemente esses trajes. O ato de trajar a pilcha, em homens e mulheres, deve ser acompanhado de atitudes condizentes com o que se busca representar. Tentar esconder a indignidade das posturas atrás de uma vestimenta que é, até por força de lei e dos costumes, traje de honra no Rio Grande, é transformá-la em mera fantasia e degradar, ainda mais, nossa história, o imaginário e a consciência coletiva.

Resta falar da omissão. Bem, essa também é incompatível com o exercício de um mandato eletivo. A ninguém a qual é dado o privilégio de representar seus concidadãos, se pode permitir atitudes omissas; principalmente frente ao grave e relevante momento que estamos vivendo. Mas é isso que se observa na imensa maioria abancada na Assembléia Legislativa gaúcha. Apenas assistem ao desenrolar dos acontecimentos e deixam toda a responsabilidade de defender os interesses de milhões de gaúchos e gaúchas, tungados por uma cleptocracia, a um reduzido grupo de quatro deputados e seus suplentes. Permitem que a lei e a justiça sejam pisoteadas por uma pretensa maioria, representada por uma base aliada que hoje já não é mais apenas apoiadora, mas cúmplice de Yeda Crusius e da camarilha que tomou as estruturas do Estado.

Esses omissos são igualmente cúmplices, e apesar de tentarem manter-se em cima do muro, certamente serão julgados, ao lado daqueles, pelo tribunal da história. E se assim não for; bem, se existir algum lugar no universo que corresponda ao que o imaginário judaico-cristão chama de inferno; lá certamente deve ter um local especialmente reservado aos covardes por omissão.

Foto: Gilberto Capoani e Coffy Rodrigues, deputados designados pelo governo Yeda Crusius para ocupar, respectivamente, a vice-presidência e a relatoria da CPI da Corrução, com a missão de impedir a comissão investigue qualquer coisa. (Paulo Bica/Agência Assembléia)

Pescado do RS Urgente