Mostrando postagens com marcador Estado Laico. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Estado Laico. Mostrar todas as postagens

quarta-feira, 7 de março de 2012

Vitória histórica do Estado Laico no Rio Grande do Sul

Numa época em que posses de Ministros se transformam em ocasiões para chamadas de “Glória a Deus”, em que uma importante cidade brasileira aprova leis inconstitucionais obrigando alunos de escolas públicas a rezar o Pai-Nosso, em que gays são assassinados ou espancados diariamente como resultado da homofobia obscurantista desatada em 2010, em que as religiões de matriz africana vão pagando um preço altíssimo pela ofensiva teocrata, em que uma miríade de projetos de lei e emendas constitucionais vai solapando o caráter laico do Estado brasileiro, não pode passar sem comemoração e registro a decisão histórica do Tribunal de Justiça do Rio Grande do Sul, que julgou procedente o pleito que solicitava a retirada dos crucifixos dos prédios da Justiça do Rio Grande. A medida será executada nos próximos dias.
A decisão é auspiciosa não só porque estabelece precedente para a efetivação do Estado Laico – conforme a ótima expressão escolhida por meu amigo Túlio Vianna, já que “efetivar” é o termo exato aqui: o Estado Laico é previsto pela Constituição e não é uma realidade efetiva entre nós –, mas também e muito especialmente porque o voto do relator, o Desembargador Cláudio Baldino Maciel, é um primor de espírito republicano, erudição e simplicidade. Sim, estas duas últimas virtudes não são contraditórias. Basta ler a íntegra do voto, que está disponível no blogue de meu amigo Milton Ribeiro. Os desembargadores Marcelo Bandeira Pereira (presidente do TJ-RS), André Luiz Planella Villarinho, Liselena Schifino Robes Ribeiro e Guinther Spode acompanharam o voto do relator. Foi unânime a decisão.
Um agradecimento muito especial deve ser feito às organizações da sociedade civil que propuseram a ação, e que perseveraram mesmo depois que, em 27 de janeiro, o então presidente do TJ-RS, Leo Lima, acatou o parecer do juiz-assessor Antonio Vinícius Amaro da Silveira, que se ancorou no preâmbulo da Carta Magna para justificar a presença dos crucifixos, mesmo o STF já tendo estabelecido que preâmbulo não tem força normativa. Essas organizações são: a Liga Brasileira de Lésbicas, as ONGs Somos e Themis, o Grupo Nuances, a Rede Feminista de Saúde e a Marcha Mundial das Mulheres. Parabéns e muito obrigado a elas.
O voto histórico do desembargador Cláudio Baldino Maciel, corrigindo o erro do colega, deve ser lido na íntegra, circulado, reproduzido, digerido, usado. Destaco abaixo alguns trechos.
.
Sobre o caráter laico do Estado:
Ora, o Estado não tem religião. É laico. Assim sendo, independentemente do credo ou da crença pessoal do administrador, o espaço das salas de sessões ou audiências, corredores e saguões de prédios do Poder Judiciário não podem ostentar quaisquer símbolos religiosos, já que qualquer um deles representa nada mais do que a crença de uma parcela da sociedade (…).
O cidadão judeu, o muçulmano, o ateu, ou seja, o não cristão, é tão brasileiro e detentor de direitos quanto os cristãos. Tem ele o mesmo direito constitucionalmente assegurado de não se sentir discriminado pela ostentação, em local estatal e por determinação do administrador público, de expressivo símbolo de uma outra religião, ainda que majoritária, que não é a sua.
.
Sobre a diferença entre a possível crença individual de algum desembargador e o espaço impessoal da sala de reuniões:
Nada impede que um magistrado, no interior de seu gabinete de trabalho, faça afixar na parede um símbolo religioso ou uma fotografia de Che Guevara.
No entanto, à luz da Constituição, na sala de sessões de um tribunal, na sala de audiências de um foro, nos corredores de um prédio do Judiciário mostra-se ainda mais indevida a presença de um crucifixo (ou uma estrela de Davi do judaísmo, ou a Lua Crescente e Estrela do Islamismo) do que uma grande bandeira de um clube de futebol.
Isto porque, ao passo em que a presença da bandeira de um clube de futebol na sala de sessões de um tribunal não fere o princípio da laicidade do Estado (ao contrário da presença da presença do crucifixo, que fere tal princípio), a presença de qualquer deles – bandeira de clube ou crucifixo – em espaços públicos do Judiciário fere o elementar princípio constitucional da impessoalidade no exercício da administração pública.
.
Sobre a utilização do preâmbulo da CF para justificar a presença de símbolos religiosos em prédios públicos:
É verdade que, conquanto laico o Estado brasileiro, paradoxalmente o preâmbulo da Constituição Federal invoca a menção a Deus, o que tem sido um argumento utilizado para justificar certa presença religiosa em instituições públicas.
É atualmente pacífico na jurisprudência constitucional, contudo, o entendimento de que o preâmbulo da Constituição não possui força normativa. O Ministro Sepúlveda Pertence, no julgamento da ADI nº. 2076-5, referiu ironicamente em seu voto:
“Esta locução ‘sob a proteção de Deus’ não é norma jurídica, até porque não se teria a pretensão de criar obrigações para a divindade invocada. Ela é uma afirmação de fato jactansiosa e pretensiosa, talvez, de que a divindade estivesse preocupada com a Constituição do país”.
.
Sobre o argumento de que a “tradição” brasileira é majoritariamente cristã e que isso justificaria a presença dos crucifixos nos Tribunais de Justiça:
[...] absolutamente não é papel do Judiciário legitimar acriticamente qualquer tradição social, especialmente se excludente ou inconstitucional. Já não se discute, na atualidade, o legítimo papel do Direito que se opõe à ideia de meramente afirmar práticas hegemônicas da maioria social, mesmo que contrárias ao texto constitucional. Ademais, o princípio democrático contramajoritário justificaria plenamente a defesa de eventuais minorias quanto ao abuso das práticas religiosas da maioria, especialmente as de raiz inconstitucional.
O nepotismo, por exemplo, foi uma prática tradicional no Brasil. Tradicionalmente houve uma certa promiscuidade entre o público e o privado. Não obstante, está sendo superado o nepotismo porque sobre tal “tradição” o Judiciário, devidamente provocado, teve uma abordagem crítica que considerou tal prática inconstitucional exatamente por violar, de igual modo, o princípio da impessoalidade na administração pública.
.
Sobre o argumento de que o crucifixo não é um símbolo que exclua ninguém:
Há quem refira, como defesa possível de sua tese, o caráter não-religioso do crucifixo. Sem razão, contudo. É evidente que o símbolo do crucifixo remete imediatamente ao Cristianismo, consistindo em sua imagem mais evidente.
A Corte Constitucional alemã, refutando o argumento de que o crucifixo é mero enfeito que deveria ser tolerado em ambiente estatal por força da tradição, dispôs:
“A cruz representa, como desde sempre, um símbolo religioso específico do Cristianismo. Ela é exatamente seu símbolo por excelência. Para os fiéis cristãos, a cruz é, por isso, de modos diversos, objeto de reverência e de devoção. A decoração de uma construção ou de uma sala com uma cruz é entendida até hoje como alta confissão do proprietário para com a fé cristã. Para os não cristãos ou ateus, a cruz se torna, justamente em razão de seu significado, que o Cristianismo lhe deu e que teve durante a história, a expressão simbólica de determinadas convicções religiosas e o símbolo de sua propagação missionária. Seria uma profanação da cruz, contrária ao auto-entendimento do Cristianismo e das igrejas cristãs, se se quisesse nela enxergar, como as decisões impugnadas, somente uma expressão da tradição ocidental ou como símbolo de culto sem específica referência religiosa.”[7]
Vê-se, assim, que a questão ora analisada não é prosaica ou simples, já que não se trata de julgar forma de decoração ou preferência estética em ambientes de prédios do Poder Judiciário, senão de dispor sobre a importante forma de relação entre Estado e Religião num país constituído como república democrática e laica.
.
.Foi um show de bola ou não foi? Guarde este link, leitor. Ele lhe será útil. Inclusive para defender o seu direito de acreditar no deus que quiser.

sexta-feira, 17 de junho de 2011

Bispo da Igreja Católica culpabiliza mulheres estupradas


 "Vamos admitir até que a mulher tenha sido violentada, que foi vítima... É muito difícil uma violência sem o consentimento da mulher, é difícil", bispo dom Luiz Gonzaga Bergonzini.
Esta mesma igreja que acoberta padres pedófilos em nome da preservação da imagem imaculada da "santa" madre igreja, ataca o kit anti-homofobia como sendo uma arma para "aliciamento e molestamento sexual", associando a orientação sexual dos homossexuais com pedofilia. Se a PL122 já tivesse sido aprovada, esse bispo poderia ser acusado de homofobia.
Mas como se não bastasse sua pregação homofóbica, esse representante da igreja, é capaz de sandices como afirmar que as mulheres estupradas são culpadas pelo estupro que sofrem, ou melhor dizendo, afirma que são cúmplices. Esse tipo de afirmação leviana, vindo de uma autoridade eclesial tem que ser repudiado, pois faz apologia ao estupro tanto quanto a piada sem graça e tosca do humorista Rafael Bastos.
No Brasil, a cada 12 segundos, uma mulher é estuprada e menos de 10% dos casos julgados de estupro levam à condenação justamente porque a palavra da vítima é desqualificada. Embora o bispo minimize a violencia sexual de que são vítimas as mulheres, basta ler esse estudo para que se tenha uma noçao do quanto pode ser traumático o estupro. Mais uma vez, a piedosa igreja, demonstra que sua piedade e caridade não se dirige às mulheres e às crianças, pois são as mulheres as primeiras a serem sacrificadas (e na história do catolicismo, literalmente durante a inquisição) para a manutenção do dominio patriarcal que quer a apropriação dos corpos das mulheres e fica patente a hipocrisia desses representantes da "defesa" da vida, que sacrificam a dignidade das crianças aos seus interesses sempre que um padre de sua igreja se envolve em práticas condenáveis.
As religiões todas não tem outra função neste mundo a não ser a manutenção do patriarcado. Fica claro a cada vez que pastores e padres se pronunciam contra a legalização do aborto, banalizam o estupro enquanto violencia contra a mulher, a pregação homofóbica que fazem, a sua constante afirmação das diferenças de gênero, da heteronormatividade com a desculpa da defesa da família; nada tem a ver com amor, caridade e sim com a manutenção dos privilégios que esses líderes religiosos conquistaram perante a sociedade e do poder patriarcal.
E para isso não se furtam a atacar mulheres, homossexuais, lésbicas e famílias homoafetivas pois todos aqueles que desobedecem os seus preceitos (as mulheres que tem vida sexual ativa, as que engravidam fora do casamento, os gays e lésbicas) merecem segundo esses caridosos religiosos a condenação e a execração. E mulheres estupradas para a igreja são culpadas, porque sempre tratou o corpo feminino como a matriz do pecado original e por isso mesmo, condenam a mulher que sofre a violência ao invés de condenar a violência e o agressor. Solidariedade só para padres que abusam de crianças, esses são prontamente perdoados e protegidos pela igreja. Proteção essa, paga a peso de ouro com indenizações às custas do dinheiro dos dízimos e ofertas dos fiéis.
Infelizmente, é essa mesma igreja (e igrejas evangélicas incluídas) que está fazendo do governo e do legislativo reféns da imposição de sua visão de mundo retrógrada, que desrespeita os direitos humanos das mulheres e dos homossexuais e lésbicas.
Como se não fosse pouca coisa sofrermos o estupro, temos que lidar com a violência moral que a igreja com sua pregação misógina nos impõe com seu desprezo pela mulher vítima de violência sexual.
A defesa do estado laico, é uma necessidade hoje, como nunca antes no Brasil.
  
Do blog Amazonas e Icamiabas 
Via  Diário Liberdade