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sexta-feira, 10 de agosto de 2012

O "mensalão" como operação de marketing e como golpe branco fracassado



Emir Sader*

Mais além dos fatos concretos, a operação de marketing do “mensalão” merece fazer parte dos manuais de marketing politico. Nunca na história brasileira uma criação dessa ordem foi capaz de projetar e consolidar imagens na cabeça das pessoas, que as impedem de entender o fenômeno e avaliá-lo na sua realidade concreta, porque sua imaginação, seus instintos, já estão vacinados e conquistados pelas imagens projetadas pela campanha.

Uma jornalista da empresa da “ditabranda” entrevistou um dia a um parlamentar, presidente de um dos partidos da base aliada do governo, que teve uma das pessoas indicadas pelo partido para um cargo governamental, pego em flagrante , filmado, com som, em operação de suborno. O partido que o indicou – PTB – considerou que nao recebeu o apoio devido por parte do governo e seu presidente resolveu ligar o ventilador.

Disse que o governo pagava um “mensalão” a uma porção de gente. O jornal imediatamente cunhou a expressão e deu inicio àquele tipo de campanha cuja reiteração, por todos os órgãos da mídia privada, transformou a insinuação numa verdade supostamente incontestável.

O que ficou na imaginação das pessoas era literalmente que indivíduos chegavam no Palácio do Planalto com malas vazias, entravam numa sala contigua à do Lula, enchiam de dólares e saiam, mensalmente. A operação de marketing tornou-se um caso de manual de marketing, pelo seu sucesso. A partir a insinuação de um politico sem nenhuma respeitabilidade, se dava inicio à campanha, em que a oposição – liderada pela mídia privada – considerava que terminaria com o governo Lula.

Tudo foi se dando como bola de neve. O próprio jornal da família que emprestou carros para órgãos repressivos da ditadura cunhou o selo “mensalão”, com o qual cobria todas as atividades políticas nacionais. Até a eleição interna do PT foi incluída nessa rubrica.

Condenou-se moral e politicamente a dirigentes e políticos ligados ao governo, com o objetivo de ferir de morte o governo Lula, como repetição muito similar à crise de 1954, que terminou com o suicídio de Getúlio. Dois então membros da equipe do Lula chegaram – conforme entrevista posterior de Gilberto Carvalho – a ir ao Lula, levando a proposta opositora: todas as acusações seriam retiradas, inclusive o suposto impeachment, contanto que Lula renunciasse a se candidatar à reeleição.

Tinham receio de propor impeachment, pelas repercussões populares que poderia ter, então preferiam usá-lo como ameaça. O tiro saiu pela culatra. Lula reagiu dizendo que sairia às ruas para defender seu mandato, convocava os movimentos populares a reagir à tentativa de golpe branco.

A oposição, depois da cassação do Zé Dirceu, jogava, partindo do que considerava evidências contra o governo, com a vulnerabilidade do governo, alegando que Lula sabia dos fatos. Não foi o que aconteceu. Conseguiram várias cassações, conseguiram diminuir o apoio do Lula mas, principalmente, deram a pauta política do país.

O caso permitia desqualificar o Estado, o governo Lula, o PT. O Estado, por definição, para a direita, é corrupto ou corruptível. O governo Lula, o PT e os sindicatos teriam “tomado de assalto ao Estado” e imposto seus interesses particulares. O diagnóstico foi retirado diretamente do arsenal neoliberal.

Os governos de esquerda no Brasil – Getúlio, Jango, Lula – não terminariam seus mandatos. Fracassado o governo Lula, se cumpriria o prognóstico de um ministro da ditadura: “Um dia o PT vai ter que ganhar, vai fracassar, aí vamos poder dirigir o país com tranquilidade”.

Sob a forma do impeachment ou da renúncia de Lula a disputar um segundo mandato ou, ainda, com sua eventual derrota, asfixiado pela oposição – que já havia dito que sangraria o governo, até derrotá-lo nas eleições de 2006 -, se daria um golpe branco e a esquerda estaria desmoralizada e derrotada por um longo período.

Mas não contavam com a capacidade de reação de Lula e com os efeitos das políticas sociais, já em marcha. O povo, com a consciência de que era o seu governo e que sua eventual derrubada faria com que ele, povo, pagasse o preço mais alto da operação da direita, reagiu. A oposição foi pega de supresa pelas reações, que levaram à derrota da tentativa de derrubar o governo. Mais do que isso, levaram à derrota do candidato da oposição – o duro e puro neoliberal Alckmin –, porque a oposição também foi vitima da sua própria campanha.

Como esbravejava o Otavinho, na primeira reunião do comitê de direção da sua empresa: - Onde é que nós erramos?

Erraram porque acreditaram que eram onipotentes. Afinal foi a mídia golpista que levou o Getúlio ao suicídio, que promoveu o golpe militar que derrubou o Jango e que, acreditavam, levaria o governo Lula à derrota e a esquerda à desmoralização. 

Foram derrotados em 2006, em 2010 e tem todas as possibilidades de serem derrotados de novo em 2014. Mais do que isso, tiveram que reconhecer que o prestígio do governo vem de suas politicas sociais, que transformaram democraticamente o Brasil. Que seu poder de fogo como cabeça da oposição é decrescente, que entraram em decadência irreversível.

Agora, sete anos depois, tentam ainda explorar o sucesso de marketing, espremendo tudo o que podem, raspando o tacho da panela, buscando voltar a pautar o país em torno do seu sucesso de marketing. Não se dão conta que o país mudou, que desde então perderam duas eleições presidenciais, que o Estado brasileiro reconquistou legitimidade por suas políticas sociais e pela sua ação de resistência à crise internacional? Que as mídias alternativas ganharam um poder de esclarecimento da opinião publica, que não tinham naquele momento? 

Mas não lhes restam outras armas, senão a de explorar o embolorado tema do “mensalão”, para recordar como já foram bem mais poderosos no passado. Seus outros argumento naufragaram: o Estado mostra eficiência na condução do país, o livre mercado levou o capitalismo internacional à sua pior crise em 80 anos, o povo reconhece que melhorou suas condições de vida, apoia e vota no governo, as alianças internacional da política soberana do Brasil projetam o país no plano internacional como nunca antes, ao mesmo tempo que se mostram muito mais eficazes do que o Tratado de Livre Comércio e a Alca que a direita pregava.

Em suma, a história avançou desde 2005 e na direção da derrota da oposição, da criação de uma nova maioria politica no pais. A permanência do monopólio antidemocrático dos meios de comunicação é a arma principal de que a direita dispõe e está disposta a usá-la até o fim, na sua derradeira encenação: o julgamento do “mensalão”.

Mas a história e a vida não se fazem com marketing. Nem mesmo mais vender os produtos da sua mídia mercantil eles conseguem. Lula os derrotou, demonstrando que se pode – e se deve – governar o país sem almoçar e jantar com os donos da mídia. Porque Lula não teve medo da mídia, condição –nas suas palavras – para que haja democracia no Brasil.

A primeira vez a encenação teve ares de tragédia – não consumada pela oposição. Esta segunda tem ares de farsa.

Eles passarão, nós passarinhos.

Emir Sader é sociólogo. Texto publicado originalmente na Agência Carta Maior
 
Via blog do Raul Pont

sexta-feira, 1 de abril de 2011

O que a falácia da ditabranda revela





















Por Marco Aurélio Weissheimer, da Carta Maior

Em um editorial publicado no dia 17 de fevereiro de 2009, o jornal Folha de S. Paulo utilizou a expressão “ditabranda” para se referir à ditadura que governou o Brasil entre 1964 e 1985. Na opinião do jornal, que apoiou o golpe militar de 1964 que derrubou o governo constitucional de João Goulart, a ditadura brasileira teria sido “mais branda” e “menos violenta” que outros regimes similares na América Latina.
Como já se sabe, a Folha não foi original na escolha do termo. Em setembro de 1983, o general Augusto Pinochet, em resposta às críticas dirigidas à ditadura militar chilena, afirmou: “Esta nunca foi uma ditadura, senhores, é uma dictablanda”. Mas o tema central aqui não diz respeito à originalidade. O uso do termo pelo jornal envolve uma falácia nada inocente. Uma falácia que revela muita coisa sobre as causas e consequências do golpe militar de 1964 e sobre o momento vivido pela América Latina.
É importante lembrar em que contexto o termo foi utilizado pela Folha. Intitulado “Limites a Chávez”, o editorial criticava o que considerava ser um “endurecimento do governo de Hugo Chávez na Venezuela”. A escolha da ditadura brasileira para fazer a comparação com o governo de Chávez revela, por um lado, a escassa inteligência do editorialista. Para o ponto que ele queria sustentar, tal comparação não era necessária e muito menos adequada. Tanto é que pouca gente lembra que o editorial era dirigido contra Chávez, mas todo mundo lembra da “ditabranda”.
A falta de inteligência, neste caso, parece andar de mãos dadas com uma falsa consciência culpada que tenta esconder e/ou justificar pecados do passado. Para a Folha, a ditadura brasileira foi uma “ditabranda” porque teria preservado “formas controladas de disputa política e acesso à Justiça”, o que não estaria ocorrendo na Venezuela. Mas essa falta de inteligência talvez seja apenas uma cortina de fumaça.
O editorial não menciona quais seriam as “formas controladas de disputa política e acesso à Justiça” da ditadura militar brasileira, mas considera-as mais democráticas que o governo Chávez que, em uma década, realizou 15 eleições no país, incluindo aí um referendo revogatório que poderia ter custado o mandato ao presidente venezuelano. Ao fazer essa comparação e a escolha pela ditadura brasileira, a Folha está apenas atualizando as razões pelas quais apoiou, junto com a imensa maioria da imprensa brasileira, o golpe militar contra o governo constitucional de João Goulart.
Está dizendo, entre outras coisas, que, caso um determinado governo implementar um certo tipo de políticas, justifica-se interromper a democracia e adotar “formas controladas de disputa política e acesso à Justiça”. A escolha do termo “ditabranda”, portanto, não é acidental e tampouco um descuido. Trata-se de uma profissão de fé ideológica.
Há uma cortina de véus que tentam esconder o caráter intencional dessa escolha. Um desses véus apresenta-se sob a forma de uma falácia, a que afirma que a nossa ditadura não teria sido tão violenta quanto outras na América Latina. O núcleo duro dessa falácia consiste em dissociar a ditadura brasileira das ditaduras em outros países do continente e do contexto histórico da época, como se elas não mantivessem relação entre si, como se não integrassem um mesmo golpe desferido contra a democracia em toda a região.
O golpe militar de 1964 e a ditadura militar brasileira alimentaram política e materialmente uma série de outras ditaduras na América Latina. As democracias chilena e uruguaia caíram em 1973. A argentina em 1976. Os golpes foram se sucedendo na região, com o apoio político e logístico dos EUA e do Brasil. Documentos sobre a Operação Condor fornecem vastas evidências dessa relação.
Recordando. A Operação Condor é o nome dado à ação coordenada dos serviços de inteligência das ditaduras militares na América do Sul, iniciada em 1975, com o objetivo de prender, torturar e matar militantes de esquerda no Brasil, Argentina, Chile, Paraguai, Uruguai e Bolívia.
O pretexto era o argumento clássico da Guerra Fria: "deter o avanço do comunismo internacional". Auxiliados técnica, política e financeiramente por oficiais do Exército dos Estados Unidos, os militares sul-americanos passaram a agir de forma integrada, trocando informações sobre opositores considerados perigosos e executando ações de prisão e/ou extermínio. A operação deixou cerca de 30 mil mortos e desaparecidos na Argentina, entre 3 mil e 7 mil no Chile e mais de 200 no Uruguai, além de outros milhares de prisioneiros e torturados em todo o continente.
Na contabilidade macabra de mortos e desaparecidos, o Brasil registrou um número menor de vítimas durante a ditadura militar, comparado com o que aconteceu nos outros países da região. No entanto, documento secretos divulgados recentemente no Paraguai e nos EUA mostraram que os militares brasileiros tiveram participação ativa na organização da repressão em outros países, como, por exemplo, na montagem do serviço secreto chileno, a Dina. Esses documentos mostram que oficiais do hoje extinto Serviço Nacional de Informações (SNI) ministraram cursos de técnicas de interrogatório e tortura para militares chilenos.
Em uma entrevista ao jornal O Estado de São Paulo (30/12/2007), o general Agnaldo Del Nero Augusto admitiu que o Exército brasileiro prendeu militantes montoneros e de outras organizações de esquerda latino-americanas e os entregou aos militares argentinos. “A gente não matava. Prendia e entregava. Não há crime nisso”, justificou na época o general. Humildade dele. Além de prender e entregar, os militares brasileiros também torturavam e treinavam oficiais de outros países a torturar. Em um dos documentos divulgados no Paraguai, um militar brasileiro diz a Pinochet para enviar pessoas para se formarem em repressão no Brasil, em um centro de tortura localizado em Manaus.
Durante a ditadura, o Brasil sustentou política e materialmente governos que torturaram e assassinaram milhares de pessoas. Esconder essa conexão é fundamental para a Folha afirmar a suposta existência de uma “ditabranda” no Brasil. A ditadura brasileira não teve nada de branda. Ao contrário, ela foi um elemento articulador, política e logisticamente, de outros regimes autoritários alinhados com os EUA durante a guerra fria. O editorial da Folha faz eco às palavras do general Del Nero: “a gente só apoiava e financiava a ditadura; não há crime nisso”.
Não é coincidência, pois, que o mesmo jornal faça oposição ferrenha aos governos latino-americanos que, a partir do início dos anos 2000, levaram o continente para outros rumos. Governos eleitos no Brasil, na Venezuela, na Bolívia, na Argentina, no Paraguai e no Uruguai passam a ser alvos de uma sistemática oposição midiática que, muitas vezes, substitui a própria oposição partidária.
A Folha acha a ditadura branda porque, no fundo, subordina a continuidade e o avanço da democracia a seus interesses particulares e a uma agenda ideológica particular, a saber, a da sacralização do lucro e do mercado privado. Uma grande parcela do empresariado brasileiro achou o mesmo em 64 e apoiou o golpe. Querer diminuir ou relativizar a crueldade e o caráter criminoso do que aconteceu no Brasil naquele período tem um duplo objetivo: esconder e mascarar a responsabilidade pelas escolhas feitas, e lembrar que a lógica que embalou o golpe segue viva na sociedade, com um discurso remodelado, mas pronto entrar em ação, caso a democracia torne-se demasiadamente democrática.

domingo, 25 de outubro de 2009

Moral e Política

"Ser moral é cuidar do seu dever. Ser moralizador é cuidar do dever dos outros”.
André Comte-Sponville, O Capitalismo é moral?

Encontrei Flavio Koutzi, meu ex-deputado estadual, numa livraria. Conversa infelizmente curta, mas suficiente para que sua inteligência, comentando aquilo que genericamente definimos como “o jeito que a coisa vai”, chegasse ao centro do assunto: “a moral não substitui a política”.

É claro que não. Recomendei a ele o extraordinário livro de André Comte-Sponville, “O capitalismo é moral?” (Martins Fontes, 2005), que trata disso:

“Eu dizia que vinte anos atrás a política era tudo e que uma boa política nos parecia a única moral necessária. Para muitos jovens de hoje a moral é que é tudo, e uma boa moral lhes parece uma política amplamente suficiente. Duas gerações, dois erros. (...) A moral e a política são duas coisas diferentes, ambas necessárias, mas que não podem ser confundidas sem comprometer o que cada uma delas tem de essencial. Necessitamos das duas, e da diferença das duas! Necessitamos de uma moral que não se reduza a uma política, mas necessitamos também de uma política que não se reduza a uma moral”.

Já me incomodei o suficiente por ser a única pessoa no país que não entende a fúria contra o nepotismo (1), este moralismo inócuo que produziu dezenas de leis bizarras que se baseiam no fato de que é moralmente aceitável empregar o vizinho, a amante ou o colega de biriba (não-parentes), mas é moralmente inaceitável empregar a prima, o filho ou o tio (parentes). A mim, e parece que só a mim, parece que o importante seria saber se é mesmo necessário contratar alguém, se este cargo não pode ser preenchido por um funcionário de carreira, admitido por concurso ou tem que ser mesmo um cargo de confiança, se o contratado trabalha mesmo, cumpre horário, tem produtividade, recebe um salário justo, enfim, tudo isso que parece não interessar a ninguém, o importante mesmo é não ser parente.

O engraçado é que essa barafunda de leis anti-nepotistas, que custaram uma grana e não economizaram um centavo, não foi eficiente para apanhar com a boca na botija o articulista da Folha de São Paulo, José Sarney, em suas constrangedoras conversas familiares, reveladas pelo jornal concorrente, O Estado de São Paulo. Infelizmente, namorado de neta não é parente, Sarney não fez nada de ilegal. Ao contrário do líder do PSDB, Artur Virgílio, cujo funcionário, que não era seu parente, estudou cinema na Europa por mais de um ano, sendo pago por nós, via salário do Senado.

Aqueles a quem Comte-Sponville chama de “canalhas moralizadores” andam por todo lado, da esquerda à direita. A maior parte anda pela mídia, contando tudo que lhe informam sobre Sarney e nada do que sabem sobre Quércia, tudo sobre Dilma e nada sobre Serra. (Só o que sei sobre as idéias do líder de todas as pesquisas na sucessão presidencial é que ele pede que não fumem, no que faz muito bem. A oposição poderia incluir em seu programa de governo uma lei que obrigue a todos que desliguem seus celulares em shows e palestras, tenho certeza que a medida receberia grande apoio, embora não tenha, talvez, o mesmo impacto que a queda do desemprego pela metade, o salário mínimo quadruplicado, o pré-sal ou a transposição do São Francisco).

Na onda moralizante que o udenismo midiático impôs a sociedade brasileira, desinformada pelo hábito de só ver tevê e ler manchetes e sedenta por explicações rápidas e simples sobre assuntos muito complexos (“Em 30 segundos, quais os crimes cometidos pelos donos do dinheiro da conta Tiger Eye?”), o telefonema de Sarney sobre o emprego do namorado da neta torna-se a passagem do Rubicão, enquanto os bilhões de dólares em revoada pelo Caribe são tratados como “tecnicalidades”, relegadas à página oito.

A imprensa defende, com toda a razão, o sigilo de suas fontes de informação. O que não sabíamos, nós, leitores, é que esta regra valia também para as fontes que mentiam, e que o jornalista sabia que mentiam. O jornal sabe que publicou uma grosseira fraude, a suposta “ficha de Dilma”, na capa de sua edição dominical, mas insiste na possível veracidade da falcatrua apelando ao nonsense: “Não se pode afirmar se uma imagem foi ou não criada digitalmente sem que seja possível examinar o original de papel”. Não é lindo? Como diria o Groucho, “Só vou acreditar que ele morreu se ele me disser isso pessoalmente!”

A imprensa, que repercute o que quer e quando quer, esquece rapidamente o que lhe interessa esquecer. Afinal, de quem foi a idéia de achar o dia 9 de outubro anotado na agenda de Lina Vieira como a data do encontro com Dilma? O que houve com a informação da reunião do dia 19 de dezembro, que levou Elio Gaspari a dizer, que eu saiba sem nunca ter se desculpado, que Dilma tinha “uma relação agreste com a verdade”?

Leio a manchete de capa da edição de domingo da Folha:

“Lina afirma ter achado agenda que traz reunião com ministra”

Texto, na capa do jornal:

"A ex-secretária da receita federal Lina Vieira diz ter achado a agenda com o registro da reunião com Dilma Roussef no qual a ministra da Casa Civil teria pedido para “agilizar” investigação contra a empresa da família do senador José Sarney. Na primeira linha da página de 9 de outubro de 2008, há uma anotação sobre o compromisso. O Gabinete de Segurança Institucional diz haver registro da ida de Lina ao Planalto naquele dia. Dilma afirma que o encontro não ocorreu."

Este texto é um exemplo perfeito para a compreensão do atual estilo na antiga imprensa, que anda numa relação nada agreste com a mentira. Na manchete da capa: “Lina afirma ter achado...”. No texto: “Lina Vieira diz ter achado...” Perguntas do leitor: afirma a quem? Diz a quem? Lina Vieira foi ouvida pelo jornal? Lê-se imaginando-se que sim, embora os textos não deixem claro. E logo a agenda que o jornal afirma que Lina “afirma ter encontrado” vira “o documento” que “reforça o relato que Lina fez à Folha...” e não se fala mais nisso.

No texto: “O Gabinete de Segurança Institucional diz haver registro da ida de Lina ao Planalto naquele dia (9 de outubro). Dilma afirma que o encontro não ocorreu”.

Aqui, a síntese do estilo udenista: uma pequena dose de mentira, uma grande dose se manipulação, a esperança de que o leitor não esteja prestando muita atenção aos detalhes e não seja muito esperto, algumas omissões e um elevado grau de cinismo.

O texto apresenta como aval ao furo de reportagem da Folha a informação de que “O Gabinete de Segurança Institucional diz haver registro...”. O fato é que o encontro de Lina com Dilma no dia 9 de outubro foi tornado público pelo governo, e faz muito tempo. Como nos sonetos parnasianos, tudo é feito em busca da chave de ouro, a frase que fecha o texto e que, espera-se, repercuta nas barbearias e salões da corte: “Dilma afirma que o encontro não ocorreu”. Logo, Dilma mente.

Qual encontro? O do dia 9? Quem afirmou, publicamente, que o encontro do dia 9 de outubro ocorreu foi o governo, e faz tempo. Lina, na CPI, confirma que ocorreu, lembra do encontro, comenta o assunto tratado. O texto da Folha, intencionalmente (“Olhe, nada nas mangas!”) mistura um encontro que houve e que todos sabem que houve, com o suposto encontro – outro encontro, o que Dilma nega ter havido. O suposto encontro seria confirmado pela suposta descoberta de um suposto documento que supostamente Lina afirma ter encontrado. Neste suposto encontro, supostamente, Dilma teria pedido para que Lina “agilizasse”, assim mesmo, entre aspas, as investigações da receita federal sobre a família Sarney.

O vídeo com Lina Vieira desmentindo a fraude do “encontro no dia 9” (2) deixou a Folha com mais um mico na mão, e este é dos grandes, já que a credibilidade do jornal fica dependendo de que o leitor não lembre do que foi publicado há quatro dias. A queda das vendas pode indicar que a aposta na amnésia, em tempos de arquivos digitais facilmente consultáveis, talvez tenha sido alta demais. A "ditabranda" foi um enorme erro de discurso, já assumido pelo jornal. Já a ficha da Dilma, as fotos do dinheiro dos aloprados, o encontro com Lina, o grampo sem áudio, os 35 milhões de infectados pela gripe A e - last but not least - o Picasso do INSS, são erros que vão da incompetência à mentira, passando pela má vontade e a má fé.

Numa democracia, é inaceitável a censura a imprensa, assim como é inaceitável que um jornal ou televisão divulguem provas, obtidas sabe-se lá por que meios, de um inquérito que corre sob segredo de justiça, com o claro objetivo de favorecer uma corrente política. A função da imprensa é fustigar a todos os governos, sempre, e é inaceitável que ela fustigue apenas alguns governos, e só quando isso lhe interessa.

Blog de Jorge Furtado