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quinta-feira, 5 de julho de 2012

Trinta Anos esta Tarde



Tenho a mania, às vezes, de cultivar memórias de fatos que deviam ser absolutamente banais, mas que por alguma razão não vão embora, ficam aqui para sempre. Naquela manhã, por exemplo, não havia pão de coco na padaria a duas quadras da minha casa. Eu gostava de pão de coco, uma espécie de bisnaga de massa meio doce, coberta de coco queimado. Era melhor do que pão de mel – a mesma massa coberta com mel ficava com uma casca meio desagradável. Todavia, naquela manhã tive que me conformar com pão francês, os 200 gramas que ingeria de manhã e de tarde quando o padrão ainda não eram os pãezinhos.
Os jogos da Copa de 82 aconteciam ao meio-dia, às 4 ou às 6 da tarde. O Brasil disputou pelo menos um jogo em cada horário. Na primeira fase, quando os jogos eram à tarde, cada vitória foi comemorada com o desfile do bloco da rua. Nos reuníamos, apareciam os instrumentos e as pessoas saíam bebendo e comemorando. O trajeto era curto, apenas uma volta completa em dois quarteirões, a subida da ladeira da Eça de Queiroz e de volta ao ponto inicial, passando por baixo de dezenas de milhares de bandeirinhas, muros e calçadas pintados.
Jamais voltei a ver uma cidade, qualquer uma, numa Copa do Mundo, qualquer uma, enfeitada como o Rio de Janeiro em 82. Por meses os enfeites nunca pareciam suficientes. Você saía, andava pelos outros bairros, olhava as outras ruas, mais bonitas do que a sua, e voltava com a sensação de humilhação. Então fazia uma nova vaquinha, pintava mais um muro, mais um trecho do meio da rua, fazia mais um pedágio para pedir ajuda aos estranhos. A Globo tentou controlar a coisa, criando um concurso para a rua mais enfeitada, mas ninguém deu bola. Não era para aparecer na TV. Por anos, até a metade da década, pelo menos, tudo aquilo ficou pintado. Naranjito, Zico, Falcão, Éder, Sócrates. Então, saíamos de novo do bairro, todo mundo tinha feito o mesmo. Todos os bairros. Tudo recomeçava.
Havia pelo menos três boas músicas que louvavam aquela seleção, cantadas por Luiz Ayrão (a minha favorita), Moraes Moreira (um frevo) e a mais popular, entoada por Junior, o lateral da seleção, hoje comentarista, que dizia “voa, canarinho, voa…” Jogadores às vezes se arriscavam a cantar e gravar. Sócrates gravou um compacto. Pelé também. Zico fez um dueto com Fagner. O resultado invariavelmente era sofrível, mas a música de Junior era boa.
Nos dias em que os jogos eram à tarde, nós, os garotos, bebíamos vinho numa caixa de 1 litro achando aquilo muito avançado. Todo mundo deixava o trabalho antes da hora, o que engrossva a o bloco na hora da festa. Mas na segunda fase as partidas do Brasil passaram para o horário de meio-dia. O clima ficou diferente. Ninguém chegava cedo do trabalho, só fazia uma pausa durante o experiente para ver o jogo e depois continuava a trabalhar. Após a vitória contra a Argentina, o bloco não saiu por falta de partitipntes. Acabamos desistindo e resolvendo jogar futebol.
Hoje se fala no choque. Vemos aqueles gols maravilhosos e pensamos em exibições de gala ao longo da Copa, mas a verdade é que tudo se passou de um jeito meio estranho. A União Soviética mereceu vencer na estreia. Viramos com dois golaços no fim, mas o Brasil não jogou bem. Contra Escócia e Irlanda do Norte, vitórias normais contra times muito fracos. Mas então veio a Argentina e o 3 a 1 brasileiro, ainda mais considerando os 2 a 1 sem brilho da Itália sobre os mesmos argentinos e, principalmente, aquela primeira fase ridícula deles – três empates, classificação porque tinham marcado 1 gol -, deram a sensação de que: 1) começara finalmente a arrancada e 2) o jogo contra a Itália era só uma burocracia a cumprir. Já avaliávamos os riscos de enfrentar a Polônia pela terceira Copa seguida. A racional Polônia de Boniek e Lato.
Assim, no dia 5 de julho, aos 15 anos, ao meio-dia, eu estava sozinho, mas confiante. Minha mãe resolveu visitar minhas tias. Lembro que comi o último pedaço de pão de coco olhando a vinheta da Globo, que fazia a câmera mergulhar de fora do planeta alucinadamente na direção ao chão até o estádio e então chegava ao meio de campo, onde havia uma bola. Parece que aquele dia ficou guardado inteiro, apesar de formado por dezenas de momentos que só possuem importância no contexto de que fazem parte de algo. Lembro que fazia sol, era um dia bonto. E de cada minuto daquele jogo. Do gol do Paolo Rossi. Do gol do Sócrates. Daquele passe completamente sem sentido de Cerezo para outro gol do Paolo Rossi. Da camisa rasgada do Zico que aquele juiz canalha não viu. De ter batido a mão com tanta força na mesa quando Falcão fez 2 a 2 que o osso doeu. Da cabeçada do Sócrates que o Zoff buscou em cima da linha quando já estava 3 a 2.
Que fechei a janela porque fazia sol e que um dia bonito era um sacrilégio.
Que, como jamais voltaria a ver em qualquer outra derrota brasileira, de repente todo mundo perdeu a vontade de sair de casa.
Que à noite, no “Viva o Gordo”, o personagem Zé da Galera, que encerrava sempre o esquete dizendo “Pra frente, Brasil”, dessa vez disse “Pra casa, Brasil”.
O mais sem sentido, ridículo, trágico, é que o Brasil não jogou mal. Com o tempo, se criou a lenda de que Batista devia ter sido escalado no lugar de Cerezo, que devíamos ter sido cautelosos, que Isidoro devia ser titular no lugar de Serginho, procurando explicações onde não havia. Esse é o legado horroroso daquele dia: tanta gente se recusando a entender que simplesmente existe, no futebol e na vida, o dia de perder. O Brasil havia mastigado a Itália nas Copas anteriores sendo Brasil, um dia perderia.
Mas desde então se deixou amedrontar por aquela derrota. A altivez morreu ali. O futebol brasileiro saiu menor daquela decepção. A covardia travestida de tática, o debate imbecil entre vencer ou jogar bonito, tudo nasceu naquele dia em que, às duas da tarde, finalmente saí de casa levando minha bola dente-de-leite para encontrar meus amigos, tão arrasados como eu. Mas garotos são assim. Falamos um pouco do jogo e então montamos dois times no meio da rua. Jogamos com raiva, comemorando gols como se valessem alguma coisa.
Hoje entendo que naquele dia virei um verdadeiro fã de futebol. Se futebol tem alguma grandeza, se manifesta em jogos como os de Sarriá, 5 de julho de 82. São os dias em que não se trata mais de um jogo. No meu caso, lembro ainda da sensação de que algo estava sendo descoberto com relação à vida, algo que levaria muito tempo até ser processado totalmente e que só quando o fizesse saberia lhe dar um nome: desilusão.
Também foi preciso muito tempo para entender porque aquela derrota doeu tanto em todo mundo. O sentido de tantas ruas enfeitadas e da profusão de músicas. Aqueles caras não só eram craques. Os campeões que vieram depois, no tetra e no penta, podem ter sido quase tão bons, podem ter vencido, mas são só grandes jogadores. Os de 82, quase todos, eram bons pais, bons profissionais, leais no jogo e na vida, bons cidadãos, ídolos, não celebridades. Os de 82 também eram um norte moral. Deus, como mereciam ter vencido…

Alexandre Rodrigues no Impedimento

domingo, 17 de junho de 2012

Para leigos

  Por Montserrat Martins*

Se o Brasil não se desorganizou em 2008, como a Espanha agora, não foi por acaso. Uma geração de governantes havia sido forjada numa visão econômica coerente e um dos responsáveis por isso foi Paul Singer, autor de vários livros sobre Economia para leigos, principalmente nos anos 80 (também não por acaso, suponho, seu filho André Singer veio a ser porta-voz do Presidente).  Neste início de século XXI quem vem desempenhando esse papel é José Eli da Veiga, autor de “Mundo em Transe”, sobre a transição para a economia de baixo carbono. Livros assim não são atraentes apenas para intelectuais, prendem a atenção de quaisquer pessoas interessadas em compreender as crises sociais contemporâneas.  É o caso de “Quiénes son los mercados y cómo nos gobiernan”, de Bibiana Medialdea García e colegas, professores de Economia da Universidad Complutense de Madrid.
Na Espanha em crise, surgem agora Bibiana e seus colegas economistas dispostos a fazer esse papel, compartilhando seu saber com lideranças emergentes (leia-se M15, movimento 15 de maio), capazes de gerar o “caldo de cultura” para uma verdadeira mudança social, no futuro. Intelectuais realmente brilhantes são os capazes de transmitir conhecimentos aos leigos, em contraste com aqueles que falam apenas para si próprios (hermeticamente, escolhendo palavras difíceis para cultivar pretensa imagem de conhecimento profundo). Mais que instruir lideranças, são eles que facilitam o progresso social ao permitir que gerações inteiras se apropriem de conhecimentos fundamentais para a compreensão de realidades complexas. Devemos a Paul Singer, por exemplo, desfazer alguns mitos paralisantes para a evolução da nossa sociedade, tal como debates sobre capitalismo ou socialismo que “enquadravam” a realidade em teorias, ao invés de adequar as teorias à própria realidade. Foi o primeiro a dizer com todas as letras, há três décadas, que o modelo da China é de um capitalismo de Estado.
O livro espanhol citado é de excelência didática, desvendando o mercado financeiro global. Mostra (ou relembra aos que já sabiam) que na origem os bancos    tinham papel fundamental no financiamento da produção, sendo fator de aumento da produtividade. Foi com a evolução e os desdobramentos das práticas capitalistas que surgiram os “produtos financeiros” desvinculados da produção, quer dizer, que passaram a assumir caráter especulativo.  O mercado financeiro, assim, faz as vezes de um “cassino” que recebe apostas de todos, onde alguns ganham mas a vantagem sempre é da “banca” – ou bancos, no caso. Uma questão chave para governos que tenham compromisso com a nação e seu povo é desenvolver a habilidade de conviver com os ‘mercados’ (e seus movimentos especulativos) de modo a que estes não abandonem os investimentos no país, mas que ao mesmo tempo sejam induzidos a aplicá-los nos setores produtivos. Ou seja, tarefas nada simples mas que merecem ser conhecidas, pelos leigos, para que tenhamos capacidade de acompanhar os esforços dos governos – e avaliar a seriedade dos mesmos.

*Montserrat Martins é médico e tem formação multidisciplinar que inclui ciências jurídicas e sociais, comunicação e cinema.

Via Sul 21

quarta-feira, 13 de junho de 2012

A falência da Espanha e seus disfarces



Por Maurício Caleiro

A Espanha quebrou, faliu. Este é o fato, a terrível realidade que se esconde por detrás de uma operação discursiva que lança mão de termos amenos, humanistas e solidários como “ajuda”, “resgate” e “operação de salvamento”.
Trata-se, na verdade, de uma intervenção na economia e na soberania espanholas, para benefício do mercado financeiro e com duras consequências para a população.

Rajoy questionado
Tendo imposto suas demandas ao governo do conservador Mariano Rajoy sob sua relutância apenas aparente, a batalha que os arautos do neoliberalismo ora travam é de ordem discursiva: em primeiro lugar, trata-se de convencer os espanhóis que é não apenas aceitável, mas para seu próprio bem desejável que paguem, com carestia, desemprego, cortes nos salários, nas aposentadorias e no acesso a saúde e educação – em suma, com o que resta do Estado de bem-estar social à europeia – as dezenas (talvez centenas) de bilhões de euros que serão utilizadas para tirar as instituições financeiras do buraco por elas mesmas cavado.
A julgar pelas reportagens na imprensa espanhola, agora está ficando claro para muitos de seus ingênuos eleitores que Rajoy - que há dez dias declarou taxativamente que não haveria resgate aos bancos - mentiu. E, a bem da verdade, continua a fazê-lo, já que é lugar-comum entre economistas que cem bilhões de euros são um mero paliativo, e que o setor financeiro, com as cartas na mão, demandará de quatro a oito vezes esse valor para cobrir seus rombos - com a imposição dos cortes sociais correspondentes.

Consequências psicológicas
“A intervenção é um golpe psicológico que constitui um marco na história de nossas relações com a Europa. Em um país onde a identidade nacional e os sentimentos de autoestima coletiva têm estado sempre tão estreitamente vinculados aos feitos alcançados no âmbito europeu, custa crer que tenhamos chegado a este ponto. Entender como e por quê e o que ocorrerá a partir de agora mostra-se imprescindível”, aquiesce uma voz favorável ao "resgate".
Desse quadro decorre um segundo movimento da citada operação discursiva, desta feita para salvaguardar o orgulho nacional, que a menção à condição de quarta economia da Europa costuma alimentar. Nela pontifica, de novo, a promoção do contorcionismo verbal à maneira do 1984, de Orwell, com a adoção de uma novilíngua em que a tragédia torna-se pacto social; a bancarrota, ajuste mercadológico; a humilhação à soberania nacional, solução negociada com os parceiros de bloco.
Nós, latino-americanos, já vimos algumas vezes esse filme, porém em versões em preto e branco, do final do século passado. Trata-se, com o perdão pela redundância, de uma chanchada de má qualidade, protagonizada por canastrões, com um roteiro que tem sérios problemas de verossimilhança e, pior, não tem final feliz: os vilões vencem.

Espanha x Argentina
Essa autorreferência ao nosso continente nos leva ao terceiro movimento da estratégia discursiva neoliberal acima aludida, desta feita de caráter eurocêntrico e, naturalmente, pró-mercado, facilmente identificável no discurso da mídia brasileira relativo à crise espanhola: “Quando o resgate era de pais da periferia, a mídia chamava de falência, quebra. Quando é no centro: resgate, apoio, empréstimo. Ajuda”, resume o professor Emir Sader, em seu Twitter.
Convido os(as) leitores(as) a compararem o tratamento que essa mesma mídia deu ao default argentino – que se recusou a seguir as imposições do sistema financeiro internacional - e o enfoque que ora dispensa à quebra da Espanha – que segue à risca o que manda a Troika. Recomenda-se, ainda, daqui a algum tempo, quando tivermos elementos sobre os desdobramentos da obediência espanhola à banca, que também se leve em conta, nessa comparação, a situação do país ibérico e a da Argentina – que, malgrado todas as ameaças de danação eterna a que fatalmente estava condenada por ousar enfrentar a cartolagem, tem apresentado, sob um governo de centro-esquerda, um desempenho econômico superlativo em meio à crise
Confusão conceitual
A persistência do neoliberalismo como modelo orientador das políticas econômicas da Zona do Euro - agravadas por sua prescrição como antídoto que só faz agravar sua maior crise, como se vê na Espanha - nos fornece a medida do quanto a constituição de blocos econômicos transnacionais, apregoada como imprescindível à sobrevivência na globalização, acabou por constituir-se em um fator determinante na submissão dos estados nacionais aos ditames do mercado financeiro.
No âmago de tal problema está uma confusão conceitual, intencionalmente inoculada pelos arautos do neoliberalismo quando da ascensão histórica deste, ao longo dos anos 80, sob os  os eflúvios de Thatcher e Reagan: a concepção de globalização e neoliberalismo como termos indissociáveis e, em larga medida, intercambiáveis, marcados por uma relação pela qual a primeira, por seu caráter estruturante, imporia a adoção de políticas econômicas nos moldes ditados pelo segundo, sob a ameaça de expulsão da então chamada “nova ordem mundial” e decorrente aniquilamento do país enquanto ente autônomo.
Essa confusão e essa crença são um lugar-comum na reflexão teórica sobre o período, levada a cabo inclusive por pensadores que continuam na linha de frente da crítica socioeconômica. É notável, no entanto, que tanto intelectuais brasileiros como Octávio Ianni e Milton Santos quanto uma certa tendência do pensamento franco-europeu agrupada em torno do Le Monde Diplomatique tenham desde sempre, em sua maioria, recusado a aferrar-se ao determinismo teórico do período.

O retorno da soberania
Este, embora falho, é até certo ponto compreensível, posto que tardiamente desmentido factualmente. Pois, a rigor, a constatação de que a morte do Estado nacional era uma balela e que havia possibilidade de as nações, enquanto ente socioeconômico, sobreviverem – com crescimento, inclusão social e um Estado fortalecido, atuante e que conservasse um bom grau de independência a despeito da interdependência da economia global– só tem lugar com a ascensão e o sucesso das administrações de Lula, Chávez, Kirchner, Morales, Corea, entre outros - e, em alguns casos, de seus sucessores.
Assim, ainda que devamos ter muito claros a persistência insidiosa do poder neoliberal sobre tais administrações e os limites e eventuais equívocos e desacertos destas – como a insensibilidade do governo de Dilma Rousseff para com as demandas do funcionalismo público, que ora fornece um dentre tantos exemplos possíveis -, é preciso atentar com limpidez para as conquistas e as possibilidades propiciadas pelo realinhamento político-ideológico promovido pela democracia brasileira na última década -e lutar para efetivá-las e ampliá-las.
O povo espanhol, por sua vez, já promete voltar a tomar as ruas e a Puerta del Sol, em protesto. Suerte.

sexta-feira, 23 de março de 2012

14 dicas para se tornar um colunista latino-americano de sucesso no El País

Se você é membro dessa classe incompreendida dos intelectuais latino-americanos e deseja expor suas ideias nesse baluarte do progressismo peninsular que é El País, siga estas instruções para que seu artigo tenha sucesso.

el país brasil espanha
Torne-se um intelectual latino-americano no El País seguindo as instruções a seguir

Daniel Plotkin, tradução de Idelber Avelar
1. Toda a sua análise deve se basear nos conceitos de caudilhismo e populismo. Em última instância, estes conceitos explicam a história da América Latina desde o século XIX, sem ter que entrar em complexidades históricas que entediam o leitor. A história dos nossos países não mudou desde a época da Independência.
2. Mencione a pobreza e a fome, produtos do caudilhismo e do populismo. É bom mostrar um pouco da sensibilidade do pensador comprometido com a realidade social. Mas esclareça que a pobreza e a fome são culpa exclusiva dos nossos povos, evitando usar palavras desagradáveis do tipo “colonialismo”, “imperialismo” ou “saqueio dos recursos naturais”. Menos ainda, não tenha o mau gosto de se referir à escravidão ou à exploração das comunidades indígenas.
3. Não se esqueça de falar da corrupção. E de esclarecer que a corrupção em nossos países é produto da fome e da pobreza, que são produto do caudilhismo e do populismo. Tenha a delicadeza de não mencionar que são as companhias multinacionais (incluídas as espanholas) as que pagam suculentos subornos para obter benefícios impensáveis em seus países de origem. Explique aos seus leitores que a corrupção é sempre culpa da classe política latino-americana.
4. Insista que as instituições não funcionam, produto da corrupção que é produto da fome e da pobreza, que são produto do caudilhismo e do populismo. As instituições latino-americanas estão em constante crise e nossos países têm democracias limitadas. Use anedotas insignificantes do ponto de vista estatístico, mas que ressoem na mente de seu leitor. Por exemplo, conte-lhes como é difícil obter algum certificado num Ministério qualquer. Ou como é fácil subornar um agente alfandegário. Mesmo que você não tenha jamais feito nenhuma das duas coisas.
5. Lembre a seus leitores que os governantes latino-americanos só procuram se perpetuar no poder – o que demonstra o caudilhismo e o populismo que geram instituições falidas e corrupção. Não importa se na Espanha o chefe de estado é um monarca hereditário que governa há 37 anos e foi nomeado por um ditador que governou o país quase 40 anos. Não mencione sequer que Felipe González governou durante 14 anos com 5 mandatos sucessivos. Isso é muito diferente de um presidente latino-americano que pretende ter 3 mandatos por 12 anos. Neste último caso, estamos ante uma clara tentativa de perpetuar-se no poder. Na Espanha, não, porque as instituições funcionam.
6. Não se esqueça de temperar tudo isso com alguma referência a uma palestra sua em algum fórum internacional, fora dos países latino-americanos cheios de caudilhismo e populismo. A apresentação de um paper numa universidade norte-americana é suficiente para demonstrar que você é diferente do resto dos pensadores latino-americanos que só escrevem na mídia local. Alternativamente, você pode mencionar alguma bate-papo num café que você teve há cinco anos com algum escritor espanhol da moda. Se algum livro seu foi publicado pela Alfaguara ou Crítica, esclareça-o de passagem no primeiro parágrafo. Seu sucesso estará garantido.
7. Use alguma citação de um latino-americano ilustrado, como Borges, Cortázar ou García Márquez. Roberto Bolaño também serve.
8. Lembre-se que o Brasil não existe, salvo para destacar algumas políticas do governo Lula.
9. Fidel Castro é mau, muito mau. Mesmo que, claro, diga que a Revolução Cubana teve alguns sucessos menores nos campos da saúde e da educação.
10. Chávez também é mau, muito mau. E sem sucessos menores.
11. Os governos progressistas latino-americanos querem destruir a imprensa independente, como consequência de sua genética caudilhista e populista. Não como a esquerda inteligente da Alan García ou o centro moderado de Piñera ou Santos.
12. A imprensa privada latino-americana sempre é independente. Os monopólios ou oligopólios midiáticos não existem.
13. A América Latina ainda está em transição democrática, como consequência do caudilhismo e do populismo que ainda imperam. A Espanha já a superou, pela maturidade da sociedade espanhola e a inteligência de sua classe dirigente.
14. Para finalizar, esclareça que esta situação gera angústia e desconforto, e que seu refúgio está no pensamento crítico de alguns intelectuais que, como você, não foram comprados pelo poder corrupto ou pelas ideologias acabadas imperantes em nossos países.
Seguindo estes conselhos, o seu artigo será lido com interesse pelos leitores de El País. Você conseguirá confirmar-lhes o que eles já pensam mas não podem dizer abertamente porque isso iria contra aquilo que eles acreditam ser suas convicções de esquerda. Você também obterá uma suculenta remuneração em euros que não deverá depositar em seu país, já que a qualquer momento ela poderá ser roubada pelos governos corruptos, produtos da fome e da pobreza, produtos do caudilhismo e do populismo.
Revista Forum / Original em espanhol
Via Pragmatismo Político

terça-feira, 24 de maio de 2011

Reinvenção democrática para além da democracia liberal


Grito sem voz

Desde o dia 15 de maio, as praças nas cidades espanholas foram tomadas por jovens manifestantes (foto). As imagens parecem evocar as megamanifestações egípcias na praça Tahrir, com seus acampamentos e sua insistência.

As exigências não são muito diferentes: revolta contra um processo econômico de pauperização social e concentração de riquezas, exigência de uma reinvenção democrática que nos leve para além dos limites da democracia liberal com (no caso espanhol) o velho sistema de dois partidos que se alternam no poder: o da direita descomplexada e o da esquerda envergonhada.

No entanto a Espanha foi às urnas no domingo, dando a vitória ao direitista PP. Como explicar o paradoxo de um país assolado por megamanifestações juvenis, mas que vota em um partido cuja plataforma eleitoral representa apenas o aprofundamento dos princípios econômicos que geraram a crise que deixou a Espanha de joelhos?

Talvez seja o caso de lembrar que vemos um profundo hiato entre as opções eleitorais e as expectativas de mudança cada vez mais presentes nas massas europeias (já vimos cenas parecidas em Portugal e na Grécia). Este é o resultado da ausência de uma "terceira geração" de partidos de esquerda.

A primeira geração foi marcada pela polaridade entre partidos sociais-democratas e partidos comunistas. A partir dos anos 1980, grandes partidos comunistas (como o italiano e o francês) entraram em colapso. Uma "onda rosa" social-democrata invadiu a Europa com Tony Blair, Gerard Schroeder, Lionel Jospin e resultados sociais vergonhosamente pífios. Estes dois modelos de partidos esgotaram-se.

A segunda geração foi marcada pelos partidos verdes e por alguns partidos libertários que nasceram no bojo das exigências emancipatórias de maio de 68.

Hoje, os partidos verdes são, cada vez mais, partidos de centro que fornecem a roupagem ideológica para a nova aliança entre um sistema financeiro embalado pela "bolha verde" e a má consciência de uma classe média que prefere não ouvir falar em conflito de classe. Dos partidos libertários, não sobrou sequer rastro.

Falta, pois, um terceira geração de partidos ou agremiações de mobilização eleitoral capazes de dar representação política a uma massa disposta a lutar pela efetividade de princípios reguladores como igualdade e liberdade social.

Liberdade que não seja bloqueada pela transformação do Estado em ambulatório de bancos falidos embalado pelo discurso do caráter inevitável do desmonte de sistemas elementares de seguridade social. Enquanto este passo em direção à institucionalização da revolta não for dado, giraremos em falso.

Artigo do professor Vladimir Safatle, publicado hoje na Folha.

Via Diário Gauche

sexta-feira, 20 de maio de 2011

A Revolução dos Indignados na Espanha: acompanhe ao vivo, direto de Madri, pela Sol TV


La Jornada (Tradução: Carta Maior)
A Junta Eleitoral Central da Espanha proibiu em todo o país qualquer manifestação desde a zero hora de sábado até às 24 horas de domingo, dia das eleições municipais, em uma clara alusão às mobilizações do movimento cidadão Democracia Real Já que, desde o último domingo, ocorrem em repúdio ao modelo político e econômico vigente e que já se espalharam em escala nacional.
Alfredo Peréz Rubalcaba, ministro do Interior, declarou que o governo só esperava o pronunciamento da junta eleitoral para decidir se ordena à polícia dispersar os manifestantes. Enquanto isso, milhares de cidadãos indignados na Porta do Sol, em Madri, na Praça da Catalunha, em Barcelona, na Praça do Pilar, em Zaragoza, e no Parasol da Encarnação, em Sevilla, entre outras, voltaram a romper o cerco policial e, uma vez mais, repudiaram a política, banqueiros e empresários.
O movimento que iniciou no dia 15 de maio, chamado 15-M ou a “revolução espanhola”, cresceu quinta-feira com panelaços que reuniram multidões em dezenas de cidades de todo o país para exigir a mudança de um sistema que consideram injusto. A revolta cresce a cada hora. Começou com uma convocatória nas redes sociais e internet para repudiar a corrupção endêmica do sistema e a falta de oportunidades para os mais jovens e acabou se estendendo para a comunidade espanhola na Itália, Inglaterra, Estados Unidos e México, entre outros países.
No quinto dia de mobilizações a afluência aumentou sensivelmente, sobretudo em Madri e Barcelona, onde dezenas de milhares entoaram palavras de ordem durante horas. Uma delas advertia: se vocês não nos deixam sonhar, nós não os deixaremos dormir.
Os manifestantes desenvolveram métodos de organização através de comissões por setores – saúde, alimentação, meios de comunicação, etc. -, que decidem cada atividade. Nas assembleias gerais decide-se a estratégia e busca-se uma mensagem política unificada que mostrem as principais razões de descontentamento e protesto. Na quinta-feira, por exemplo, decidiu-se manter a mobilização até o próximo domingo, quando ocorrem as eleições locais, e, o mais importante, confirmar a convocatória para a manifestação deste sábado.
Mais tarde, a Junta Eleitoral Central declarou ilegais as concentrações, ao considerar que elas não se ajustam à lei eleitoral e excedem o direito de manifestação garantido constitucionalmente. De fato, desde o início da semana, todas as mobilizações, concentrações e marchas da “revolução espanhola” foram declaradas ilegais pela Junta Eleitoral de Madri. Em resposta, o número de indignados se multiplicou.
Depois de conhecer a decisão da Junta Eleitoral Central, o movimento cidadão decidiu simplesmente manter o acampamento, ao mesmo tempo em que ecoou um grito unânime: não nos tirarão daqui, vamos ganhar esta revolução. Em seguida, foi lido o manifesto original do movimento em uma dezena de idiomas. O texto aponta a classe política e os meios de comunicação eletrônicos como os grandes aliados dos agentes financeiros, os causadores e grandes beneficiários da crise. Advertem que é preciso um discurso político capaz de reconstruir o tecido social, sistematicamente enfraquecido por anos de mentiras e corrupção. “Nós, cidadãos, perdemos o respeito pelos partidos políticos majoritários, mas isso não equivale a perder nosso sentido crítico. Não tememos a política. Tomar a palavra é política. Buscar alternativas de participação cidadã é política”.
A também chamada revolução dos indignados acusa, pela situação atual, o Fundo Monetário Internacional, a Organização do Tratado do Atlântico Norte, a União Europeia, as agências de classificação de risco, o Banco Mundial e, no caso da Espanha, os dois grandes partidos: o direitista Partido Popular (PP) e o Partido Socialista Operário Espanhol (PSOE), de centro-esquerda.
Desde a esquerda, há tentativas de aproximação aos indignados. O líder do governo, José Luis Rodríguez Zapatero, disse que é preciso escutar e ter sensibilidade porque há razões para a expressão desse descontentamento e dessa crítica. O líder da Esquerda Unida, Cayo Lara, defendeu o fim da submissão e do bipartidarismo, propiciado pela atual lei eleitoral.
Mas o setor duro da direita política e midiática reclamou com insistência a atuação policial para acabar com todas as mobilizações, sobretudo na Porta do Sul, e pediu inclusive ao Ministério do Interior para que adotasse meios violentos para assegurar esse fim. Uma das imagens do dia (quinta-feira) foi a do ex-ministro da Defesa durante o governo de José María Aznar, Federico Trillo, insultando com o dedo um grupo de cidadãos da revolução dos indignados.
As desqualificações mais fortes vieram, porém, dos meios de comunicação conservadores e da televisão pública de Madri, que acusaram o movimento de ser comunista, socialista, antissistema e de ter relação com o ETA. Um dos ideólogos da direita, César Vidal, foi mais além e depois de chamar, depreciativamente os manifestantes de “perroflautas” (tribo urbana também conhecida como ‘pés pretos’, formada por punks, anarquistas, hippies e ‘gente desocupada’), assegurou que estes jovens mantém contato regular com o Batasuna-ETA e que receberam cursos de guerrilha urbana, da Segi (organização de juventude da esquerda basca).
O movimento cidadão tem seu próprio canal de televisão, que transmite sem cessar as imagens da Porta do Sul (www.solttv.tv).
Foto: Xinhua

Via RS Urgente