Mostrando postagens com marcador América Latina. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador América Latina. Mostrar todas as postagens

quinta-feira, 11 de outubro de 2012

Porque a Globo odeia Chávez?


Oras, porque ele não se intimida. Vejam só a resposta que ele deu ao jornalista do jornal quando lhe fez uma pergunta sobre liberdade de expressão. É uma aula de história sobre os conflitos recentes na América Latina e sobre a influência política dos grandes meios de comunicação. Se o jovem repórter tivesse ao menos assistido ao documentário A Revolução não Será Televisionada, certamente não se prestaria a este papel vexatório. É por esta coragem que prefiro Chávez, ainda que não concorde com ele em muitas coisas.
Encontrei no blog DoLaDoDeLá

domingo, 24 de junho de 2012

Um golpe de novo tipo contra Lugo



No Paraguai o Poder Legislativo na condição de Tribunal político atentou contra dois princípios básicos de qualquer democracia minimamente séria: o princípio da “ampla defesa” e o princípio do “devido processo legal”. É impossível um processo justo - mesmo de natureza política - que dispense um mínimo de provas. É impossível garantir o direito de defesa - mesmo num juízo político - sem que o réu tenha conhecimento pleno do crime ou da responsabilidade a partir da qual esteja sendo julgado. Tudo isso foi negado ao Presidente Lugo. O artigo é de Tarso Genro.

O que foi tentado contra Lula, na época do chamado mensalão –que por escassa margem de votos não teve o apoio da OAB Federal numa histórica decisão do seu Conselho ainda não revelada em todas as suas implicações políticas - foi conseguido plenamente contra o Presidente Lugo. E o foi num fulminante e sumário ritual, que não durou dois dias. Não se alegue, como justificativa para apoiar o golpe, que a destituição do Presidente Lugo foi feita “por maioria” democrática, pois a maioria exercida de forma ilegal também pode ser um atentado à democracia. É fácil dar um exemplo: “por maioria”, o Poder Legislativo paraguaio poderia legislar adotando a escravidão dos seus indígenas?

No Paraguai o Poder Legislativo na condição de Tribunal político atentou contra dois princípios básicos de qualquer democracia minimamente séria: o princípio da “ampla defesa” e o princípio do “devido processo legal”. É impossível um processo justo - mesmo de natureza política - que dispense um mínimo de provas. É impossível garantir o direito de defesa - mesmo num juízo político - sem que o réu tenha conhecimento pleno do crime ou da responsabilidade a partir da qual esteja sendo julgado. Tudo isso foi negado ao Presidente Lugo.

O que ocorreu no Paraguai foi um golpe de estado de “novo tipo”, que apeou um governo legitimamente eleito através de uma conspiração de direita, dominante nas duas casas parlamentares. Estas jamais engoliram Lugo, assim como a elite privilegiada do nosso país jamais engoliu o Presidente Lula. Lá, eles tiveram sucesso porque o Presidente Lugo não tinha uma agremiação partidária sólida e estava isolado do sistema tradicional de poder, composto por partidos tradicionais que jamais se conformaram com a chegada à presidência de um bispo ligado aos movimentos sociais. A conspiração contra Lugo estava no Palácio, através do Vice-Presidente que agora, “surpreso”, assume o governo, amparado nas lideranças parlamentares que certamente o “ajudarão” a governar dentro da democracia.

Aqui, eles não tiveram sucesso porque - a despeito das recomendações dos que sempre quiseram ver Lula isolado, para derrubá-lo ou destruí-lo politicamente - o nosso ex-Presidente soube fazer acordos com lideranças dos partidos fora do eixo da esquerda, para não ser colocado nas cordas. Seu isolamento, combinado com o uso político do”mensalão”, certamente terminaria em seu impedimento. Acresce-se que aqui no Brasil - sei isso por ciência própria pois me foi contado pelo próprio José Alencar- o nosso Vice presidente falecido foi procurado pelos golpistas “por dentro da lei” e lhes rejeitou duramente.

A tentativa de golpe contra o Presidente Chavez, a deposição de Lugo pelas “vias legais”, a rápida absorção do golpe “branco” em Honduras, a utilização do território colombiano para a instalação de bases militares estrangeiras têm algum nexo de causalidade? Sem dúvida têm, pois, esgotado o ciclo das ditaduras militares na América Latina, há uma mudança na hegemonia política do continente, inclusive com o surgimento de novos setores de classes, tanto no mundo do trabalho como no mundo empresarial. É o ciclo, portanto, da revolução democrática que, ou se aprofunda, ou se esgota. Estes novos setores não mais se alinham, mecanicamente, às posições políticas tradicionais e não se submetem aos velhos padrões autoritários de dominação política.

Os antigos setores da direita autoritária, porém, incrustados nos partidos tradicionais da América latina e apoiados por parte da grande imprensa (que apoiaram as ditaduras militares e agora reduzem sua influência nos negócios do Estado) tentam recuperar sua antiga força, a qualquer custo. São estes setores políticos - amantes dos regimes autoritários - que estão embarcando neste golpismo “novo tipo”, saudosos da época em que os cidadãos comuns não tinham como fazer valer sua influência sobre as grandes decisões públicas.

É a revolução democrática se esgotando na América Latina? Ou é o início de um novo ciclo? A queda de Lugo, se consolidada, é um brutal alerta para todos os democratas do continente, seja qual for o seu matiz ideológico. Os vícios da república e da democracia são infinitamente menores dos que os vícios e as violências ocultas de qualquer ditadura.

Pela queda de Lugo, agradecem os que apostam num autoritarismo “constitucionalizado” na A.L., de caráter antipopular e pró-ALCA. Agradecem os torturadores que não terão seus crimes revelados, agradecem os que querem resolver as questões dos movimentos sociais pela repressão. Agradece, também, a guerrilha paraguaia, que agora terá chance de sair do isolamento a que tinha se submetido, ao desenvolver a luta armada contra um governo legítimo, consagrado pelas urnas.

(*) Governador do Rio Grande do Sul

Publicado na Carta Maior

sexta-feira, 23 de março de 2012

14 dicas para se tornar um colunista latino-americano de sucesso no El País

Se você é membro dessa classe incompreendida dos intelectuais latino-americanos e deseja expor suas ideias nesse baluarte do progressismo peninsular que é El País, siga estas instruções para que seu artigo tenha sucesso.

el país brasil espanha
Torne-se um intelectual latino-americano no El País seguindo as instruções a seguir

Daniel Plotkin, tradução de Idelber Avelar
1. Toda a sua análise deve se basear nos conceitos de caudilhismo e populismo. Em última instância, estes conceitos explicam a história da América Latina desde o século XIX, sem ter que entrar em complexidades históricas que entediam o leitor. A história dos nossos países não mudou desde a época da Independência.
2. Mencione a pobreza e a fome, produtos do caudilhismo e do populismo. É bom mostrar um pouco da sensibilidade do pensador comprometido com a realidade social. Mas esclareça que a pobreza e a fome são culpa exclusiva dos nossos povos, evitando usar palavras desagradáveis do tipo “colonialismo”, “imperialismo” ou “saqueio dos recursos naturais”. Menos ainda, não tenha o mau gosto de se referir à escravidão ou à exploração das comunidades indígenas.
3. Não se esqueça de falar da corrupção. E de esclarecer que a corrupção em nossos países é produto da fome e da pobreza, que são produto do caudilhismo e do populismo. Tenha a delicadeza de não mencionar que são as companhias multinacionais (incluídas as espanholas) as que pagam suculentos subornos para obter benefícios impensáveis em seus países de origem. Explique aos seus leitores que a corrupção é sempre culpa da classe política latino-americana.
4. Insista que as instituições não funcionam, produto da corrupção que é produto da fome e da pobreza, que são produto do caudilhismo e do populismo. As instituições latino-americanas estão em constante crise e nossos países têm democracias limitadas. Use anedotas insignificantes do ponto de vista estatístico, mas que ressoem na mente de seu leitor. Por exemplo, conte-lhes como é difícil obter algum certificado num Ministério qualquer. Ou como é fácil subornar um agente alfandegário. Mesmo que você não tenha jamais feito nenhuma das duas coisas.
5. Lembre a seus leitores que os governantes latino-americanos só procuram se perpetuar no poder – o que demonstra o caudilhismo e o populismo que geram instituições falidas e corrupção. Não importa se na Espanha o chefe de estado é um monarca hereditário que governa há 37 anos e foi nomeado por um ditador que governou o país quase 40 anos. Não mencione sequer que Felipe González governou durante 14 anos com 5 mandatos sucessivos. Isso é muito diferente de um presidente latino-americano que pretende ter 3 mandatos por 12 anos. Neste último caso, estamos ante uma clara tentativa de perpetuar-se no poder. Na Espanha, não, porque as instituições funcionam.
6. Não se esqueça de temperar tudo isso com alguma referência a uma palestra sua em algum fórum internacional, fora dos países latino-americanos cheios de caudilhismo e populismo. A apresentação de um paper numa universidade norte-americana é suficiente para demonstrar que você é diferente do resto dos pensadores latino-americanos que só escrevem na mídia local. Alternativamente, você pode mencionar alguma bate-papo num café que você teve há cinco anos com algum escritor espanhol da moda. Se algum livro seu foi publicado pela Alfaguara ou Crítica, esclareça-o de passagem no primeiro parágrafo. Seu sucesso estará garantido.
7. Use alguma citação de um latino-americano ilustrado, como Borges, Cortázar ou García Márquez. Roberto Bolaño também serve.
8. Lembre-se que o Brasil não existe, salvo para destacar algumas políticas do governo Lula.
9. Fidel Castro é mau, muito mau. Mesmo que, claro, diga que a Revolução Cubana teve alguns sucessos menores nos campos da saúde e da educação.
10. Chávez também é mau, muito mau. E sem sucessos menores.
11. Os governos progressistas latino-americanos querem destruir a imprensa independente, como consequência de sua genética caudilhista e populista. Não como a esquerda inteligente da Alan García ou o centro moderado de Piñera ou Santos.
12. A imprensa privada latino-americana sempre é independente. Os monopólios ou oligopólios midiáticos não existem.
13. A América Latina ainda está em transição democrática, como consequência do caudilhismo e do populismo que ainda imperam. A Espanha já a superou, pela maturidade da sociedade espanhola e a inteligência de sua classe dirigente.
14. Para finalizar, esclareça que esta situação gera angústia e desconforto, e que seu refúgio está no pensamento crítico de alguns intelectuais que, como você, não foram comprados pelo poder corrupto ou pelas ideologias acabadas imperantes em nossos países.
Seguindo estes conselhos, o seu artigo será lido com interesse pelos leitores de El País. Você conseguirá confirmar-lhes o que eles já pensam mas não podem dizer abertamente porque isso iria contra aquilo que eles acreditam ser suas convicções de esquerda. Você também obterá uma suculenta remuneração em euros que não deverá depositar em seu país, já que a qualquer momento ela poderá ser roubada pelos governos corruptos, produtos da fome e da pobreza, produtos do caudilhismo e do populismo.
Revista Forum / Original em espanhol
Via Pragmatismo Político

domingo, 5 de junho de 2011

Novo golpe no neoliberalismo: Humala vence no Peru

Tem sido difícil a vida dos neoliberais por este tempos na América Latina. A derrota agora deu-se no Peru, em que Keiko Fujimori, filha do corrupto e autoritário ex-presidente Alberto Fujuimori, queria seguir os passos do pai, mas foi impedida por Ollanta Humalla na eleição de hoje. A reportagem é da BBC Brasil:

Ollanta Humala é o novo presidente do Peru, segundo apuração parcial

Ollanta Humala comemora vitória em Lima (Getty)


Humala e seus partidários comemoraram a vitória em Lima














O nacionalista Ollanta Humala foi eleito neste domingo o novo presidente do Peru, segundo a apuração feita por institutos de pesquisas. O candidato de centro-esquerda teria vencido sua rival, a conservadora Keiko Fujimori, por uma pequena vantagem.
De acordo com o instituto Ipsos Apoyo, Humalla teve 51,4% dos votos, enquanto Keiko ficou com 48,6%. Os números apurados pela organização Transparência são praticamente os mesmos: 51,3% a 48,7%, respectivamente.
Os dados são baseados em uma contagem rápida dos votos, feita por amostragem logo no início da apuração e, segundo analistas, costumam ser mais fiéis que a pesquisa de boca de urna.
Logo após a divulgação dos primeiros resultados, partidários de Humala começaram a tomar a Praça 2 de Mayo, no centro de Lima. No início da noite, o local estava totalmente lotado de “humalistas”, que agitavam bandeiras peruanas e outras estampadas com a letra “O”, símbolo da campanha de Ollanta Humala.
Continua aqui

segunda-feira, 11 de abril de 2011

Hugo Chávez para presidente do Peru? Zero Hora acha que sim


O imperialismo, enquanto braço forte do capitalismo moderno, é a principal bandeira da velha mídia internacional quando a pauta é política exterior. No Brasil, da mesma forma como ocorre nos outros países da América Latina, o mundo ideal da mídia (ainda) dominante é aquele no qual o próprio país é entregue aos mais poderosos (EUA, por exemplo, no nosso caso) ao mesmo tempo em que domina e explora os países menos “competitivos”. Assim as empresas – nacionais e internacionais – que financiam esses conglomerados de mídia seguem crescendo, avançando sobre a autonomia das nações menos desenvolvidas, e os grupos de comunicação crescem junto. Ao mesmo tempo, é sabido que as influências políticas externas acabam, de uma forma ou de outra, chegando aos países próximos. A guinada à esquerda da América Latina na última década segue esse caminho.
É nesse contexto que cada eleição em qualquer país latino-americano é motivo de preocupação para os conglomerados de mídia brasileiros. A consciência de autonomia dos povos, o anti-imperialismo, o fortalecimento do Estado e o empoderamento do povo vêm, obviamente, acompanhados da perda de força dos grupos que historicamente dominam a política, a economia e, por consequência, a mídia. E é isso o que, em medidas diferentes, tem acontecido na América Latina. A tendência é flagrante.
A estratégia é aplicada em conjunto pela grande imprensa internacional aliada ao capital multinacional: vincular os candidatos de esquerda a Hugo Chávez ao mesmo tempo em que constroem em Chávez a imagem do demônio. Essa última construção já foi mostrada aqui no Jornalismo B por diversas vezes.
Nos mais diversas veículos da direita brasileira, Chávez é ridicularizado, apontado como louco, ignorante, ansioso por mais poder, autoritário, ditador, cruel, etc etc etc. Raríssimas reportagens dão conta das mudanças na sociedade venezuelana, na política do país, enfim, do que acontece de importante por lá. Apenas intriguinhas aparentemente infantilóides, que, no desespero por atacar os avanços da esquerda latino-americana, infantilizam os leitores ou a audiência como forma de criar uma imagem estereotipada do presidente venezuelano.
Agora, a eleição no Peru. No último domingo aconteceu a votação em primeiro turno, com o candidato da esquerda, Ollanta Humala, aparecendo à frente nas pesquisas, seguido de Keiko Fujimori (filha do ex-presidente, hoje presidiário, Alberto Fujimori), com Pedro Paulo Kuczynski e o atual presidente Alejandro Toledo logo atrás. Como o jornal gaúcho Zero Hora destacou o dia do pleito? Uma cobertura de duas páginas: na segunda, uma entrevista com Humala; na primeira, a matéria “Peru vota temendo o chavismo”.
Nessa reportagem, da página 16, Keiko é citada uma vez, assim como Kuczynski. Toledo é lembrado em duas oportunidades. O foco do texto é Humala, cujo nome é citado nove vezes. Mas e o que dizer de Chávez? Seu nome e a palavra “chavismo” estão presentes no texto em sete oportunidades. Chávez é mais importante para a eleição do Peru do que os próprios candidatos? Como disse o sociólogo Cristóvão Feil no domingo, “Quem ler Zero Hora (grupo RBS) de hoje vai achar que Hugo Chávez é candidato a presidente do Peru”.
Na entrevista com Humala, três das cinco perguntas se referem às ligações do presidenciável com Chávez ou com o PT! Sim, porque há também uma retranca à matéria principal que conta a participação de brasileiros na campanha do candidato esquerdista. O texto tenta dar a entender que o PT estaria intervindo nas eleições peruanas.
A cobertura de Zero Hora é inteira um desrespeito à autonomia e à capacidade do povo peruano de escolher seus representantes com independência. Usa a eleição peruana para voltar a atacar Chávez e colocar sobre os movimentos de esquerda da América Latina a sombra de uma grande conspiração “subversiva”, “autoritária”.
Em tempo: ao menos no primeiro turno a tentativa de amedrontar e despolitizar o processo não funcionou, e Humala venceu. Vai enfrentar Keiko Fujimori no segundo turno. A mídia internacional segue perdendo batalhas na América Latina. E os ataques deverão ser cada vez mais violentos, é o instinto do animal acuado.
*Ressalte-se que a cobertura da Folha de S. Paulo não foi por esse caminho. Nas edições de sábado e domingo, trouxe reportagens equilibradas e realmente informativas.
*Sobre quem são os candidatos à presidência do Peru, vale a leitura de artigo do Altamiro Borges.

Postado por Alexandre Haubrich no Jornalismo B

quarta-feira, 16 de junho de 2010

O Brasil de John Gerassi

Por Vinícius Wu

“(…) o Brasil não pode ser ignorado. Quando ele sonha, sacode Washington. Quando se move, desloca o continente. E quando explodir, abalará o mundo. O Brasil tem a capacidade, o espaço territorial, o intelecto e a força necessária para se tornar uma potência mundial. Somente ele pode tirar a América Latina de sua paciente e desesperançada letargia, colocando-a na estrada do progresso e da justiça. Que o Brasil, mais cedo ou mais tarde, virá a desempenhar esse papel ninguém duvida.” John Gerassi

Não, caro leitor, John Gerassi não é nenhum entusiasta da política externa do governo Lula. Nem tampouco se trata de algum grandiloqüente e otimista servidor do Itamaraty. O raciocínio sequer tem a ver com o novo papel desempenhado pelo Brasil na atual ordem global. Na verdade, trata-se de uma conclusão feita no ano de 1964 por um reconhecido estudioso da realidade latino-americana.

Os mais antigos talvez se lembrem com mais facilidade de John Gerassi e de sua obra mais conhecida no Brasil, “A invasão da América Latina”, lançada em nosso país no ano de 1964 e de onde extraímos o trecho citado acima. Gerassi foi um eminente jornalista norte-americano, redator da revista TIME e, posteriormente, encarregado de assuntos latino-americanos da NEWSWEEK. O referido livro causou indignação nos EUA ao denunciar diversas manobras políticas, sabotagens e golpes patrocinados pela CIA e pelo Pentágono na América Latina.

Gerassi conheceu profundamente a realidade latino-americana. No Brasil acompanhou de perto, nos anos que antecederam o golpe civil-militar de 1964, a experiência desenvolvida por Leonel Brizola no Rio Grande do Sul, personalidade política latino-americana que lhe despertou profunda admiração.

Leia o restante do artigo em Leitura Global

segunda-feira, 7 de dezembro de 2009

América Latina: esquerda, volver; direita, vai ver...

Eles se foram: e agora, quem representa a direita na América Latina? Partidos conservadores estão à deriva

Evo Morales acaba de dar uma surra na oposição, na Bolívia. Isso nem chega a surpreender. O que surpreende é o fato de as siglas tradicionais da centro-direita boliviana estarem à beira do colapso: o Movimento Nacionalista Revolucionário (MNR), de Víctor Paz Estensoro, e a Ação Democrática Nacionalista (ADN), de Hugo Bánzer, e o MIR (que deu apoio ao governo liberal de Sanchez de Lozada) já tinham entrado em decadência antes de Evo Morales chegar ao poder.

A direita "inventou" uma força opositora a Evo, o "Podemos" - que até recentemente dominava o Senado boliviano.

Pois bem, o "Podemos" também se desintegra. A oposição boliviana não tem partidos, não tem discurso - a não ser afirmar que a popularidade de Evo ameaça a democracia. Que piada. O que ameaça a democracia são os golpes que a direita sempre apoiou.

A direita, na Bolívia, sobrevive na mídia e em movimentos que pregam a secessão, a divisão territorial do país - como em Santa Cruz de la Sierra... Ou seja: a direita se aloja em movimentos regionais, sem força nacional.

Mas o desmanche dos partidos tradicionais não é um fenômeno só da Bolívia.

Na Venezuela, a AD e o COPEI (que dominaram a politica nacional durante a segunda metade do século XX) viraram partidos nanicos.

O PSUV de Chavez é majoritário, em aliança com o Partido Comunista da Venzeuela (que preferiu não se dissolver no partido chavista).

A direita na venezuela precisa "inventar" novas siglas, porque as velhas ruíram quando o neo-liberalismo afundou.

Na Argentina, a UCR (que não é de direita, mas de centro; um partido liberal, com fortes raizes na classe média portenha, e que sob o governo de Alfonsin teve papel fundamental na redemocratização do país pós ditadura) chegou à beira do colapso, depois do governo de De la Rúa (que fugiu do palácio de helicópetero) e quebrou a Argentina.

Os setores mais à direita no peronismo também naufragaram depois que Menem (um peronista que adotou a agenda neo-liberal) acabou com o que restava do Estado argentino.

A direita argentina já "inventou" uma nova sigla: o PRO. É comandado por Macri, uma espécie de Berlusconi local - homem rico, dirigente do Boca Juniors, tenta cooptar o eleitorado de direita nas grandes cidades (especialmente na grande Buenos Aires.

No Uruguai, o último pleito mostrou a decadência do velho Partido Colorado. Rival histórico do Partido Nacional, aceitou apoiar Lacalle (candidato do Partido Nacional) no segundo turno, para evitar a vitória da esquerda. Os dois apanharam juntos, e terão que se reinventar para fazer frente aogoverno de Pepe Mujica, da Frente Ampla.

O Chile talvez seja exceção nesse processo.

No país andino, o centro (desde o fim da ditadura de Pinochet) mantém uma aliança firme com a centro-esquerda do Partido Socialista. A direita, isolada, perdeu todas as eleições, mas não perdeu a direção. Até porque, no Chile, a direita não renega a ditadura de Pinochet. Defende Pinochet, defende o programa liberal (na economia) que ele implantou.

No Chile, a direita é mais "orgânica", e tem chance real de ganhar a próxima eleição - sob o comando de Sebastián Pinera, um milionário local.

E o Brasil?

Aqui, o quadro é mais confuso, mais matizado...

O colapso da economia, nos anos 80, não provocou o enterro das duas velhas legendas: PMDB e PFL. Eles perderam o centro do poder, mas sobreviveram nas beiradas, costurando alianças com tucanos e petistas.

O PMDB mantém-se no poder com Lula. Cada vez mais fragmentado.

Já o velho PFL passa por um processo semelhante ao da direita na Venezuela e na Bolívia. Mudou de nome (DEM) em 2007. Adotou um tom "liberal" no discurso, e preparou-se para ser o partido das classes médias conservadoras e liberais: contra os impostos, contra a corrupção.

Mas a danada da realidade atrapalhou tudo.

O DEM é uma caricatura.

O escândalo dos panetones põe o partido na lista das legendas em extinção. Com a expulsão de Arruda, deve perder o único governo que possuía (do Distrito Federal).

Dos 13 senadores que possui, 8 terão que passar pelo teste das urnas em 2010. Há risco concreto de encolher para uma bancada de 8 ou 9 senadores. E de 30 a 40 deputados.

Os tucanos (ao contrário da direita chilena) parecem envergonhados de defender o legado neo-liberal de FHC. Isso pode custar caro.

O partido viu sua base definhar no Congresso. E só sobrevive com algum destaque porque domina dois Estados importantes: São Paulo e Minas.

Falta identidade à direita brasileira. Falta programa.

No quadro partidário, ninguém cumpre o papel de encampar o discurso da direita. O DEM havia levantado velas, e preparava-se para ocupar essa raia. Mas parece que naufragou antes de chegar a mar aberto.

Não acho isso bom. A direita é uma força política, real, na sociedade brasileira. Se não se sentir representada politicamente, pode aderir a aventuras extra-institucionais (gostaram do eufemismo para golpe?).

O desespero que vemos nos colunistas e comentaristas da mídia corporativa indica o grau de desespero dessa turma. No Brasil, a direita sobrevive na mídia!

A desagregação política da direita na América Latina é um fato. No Brasil, esse fato ganhou uma imagem simbólica a representá-lo: as propinas do DEM.

Uma nova direita deve surgir. Espero que surja como opção política. Não como gangue, nem como aventura fora dos marcos da democracia.

Por Rodrigo Viana do blog Escrevinhador

domingo, 4 de outubro de 2009

"La Negra" dá Adeus à Vida

 Desde a muito aprendi a admirar esta mulher, que se tornou um ícone para toda a América Latina. Sua voz irá ficar para sempre em nossa memória e sua luta certamente não terá sido em vão, pelo contrário, será entoada como um hino por todos aqueles (os oprimidos) a quem ela se dirigia.

Cantora argentina Mercedes Sosa morre aos 74 anos

http://ultimahora.publico.clix.pt/noticia.aspx?id=1403624&idCanal=42

A cantor folk argentina Mercedes Sosa, que lutou contra as ditaduras fascistas na América do Sul com a sua potente voz e se tornou numa lenda da música latino-americana, morreu hoje, aos 74 anos.


Há vários dias que Mercedes Sosa estava internada no hospital, com problemas renais.

O corpo da cantora está já a ser velado no Congresso Nacional, em Buenos Aires, para que o público argentino possa despedir-se de uma das suas cantoras favoritas.

Carinhosamente apelidada de La Negra - devido ao seu cabelo preto e à tez morena - Sosa foi igualmente chamada de “voz de uma maioria silenciosa”, tendo sempre lutado pelos direitos dos mais pobres e pela liberdade política.

A sua versão da música “Gracias a la Vida”, de Violeta Parra, tornou-se um hino para os esquerdistas de todo o mundo, nas décadas de 1970 e 1980, quando foi forçada a exilar-se na Europa e os seus discos foram banidos.

As suas imagens de marca eram o seu cabelo comprido e os seus ponchos, que usava durante os espectáculos ao vivo, fazendo ouvir a sua voz poderosa.

Nas décadas de 1960 e 1970, Sosa foi uma das expoentes máximas do politizado movimento Nuevo Cancionero, que quis levar a música folk de regresso às suas origens.

Politicamente, Sosa foi membro do Partido Comunista e as suas simpatias políticas acabaram por a obrigar ao exílio, em 1979 (ano em que Jorge Videla encabeçou a junta militar), depois de ter sido presa - bem como toda a sua audiência - durante um concerto na cidade universitária de La Plata.

Sosa dizia frequentemente ser uma mulher de esquerda, mas que a sua única vocação era a música. “Eu nasci para cantar”, disse numa entrevista em 2005. “A minha vida é dedicada a cantar, a encontrar canções e a cantá-las (...) Se eu me envolvesse na política, teria que negligenciar aquilo que é mais importante para mim, a canção folk”.

Sosa nasceu o seio de uma família de trabalhadores, na província de Tucuman, a 9 de Julho de 1935. O seu primeiro contacto com a fama teve-o aos 15 anos, quando ganhou um concurso de talentos promovido por uma rádio local.

Especialista em interpretar as palavras de escritores, abraçou a poesia dos grandes autores argentinos e latino-americanos.

Apesar de, nos últimos anos, ter feito algumas experiências com o rock e com o tango, a sua raiz era a do folk. Era a esse estilo que voltava sempre.

Em 1982 Sosa regressou ao seu país natal, percebendo nessa altura que as suas canções tinham conquistado um público jovem e uma nova geração de fãs.

Numa série de concertos que marcaram o seu regresso aos palcos, fez-se acompanhar de músicos populares argentinos, como Leon Gieco e Charly Garcia, tendo depois iniciado uma digressão mundial que passou pela Europa e pelos Estados Unidos. Aqui arrebatou uma ovação de pé durante dez minutos, após a sua actuação no Carnegie Hall de Nova Iorque.

Sosa continuou a cantar até este ano, permanecendo muito popular e destronando até alguns artistas jovens nas tabelas de vendas.

O seu último álbum, Cantora (volumes 1 e 2) - uma colaboração com artistas como Shakira, Caetano Veloso, Joan Manuel Serrat e Jorge Drexler - foi um dos dez mais vendidos do ano e ganhou várias nomeações para os Grammys Latinos, que serão atribuídos no próximo mês.

Durante a sua carreira, Sosa recebeu ainda uma série de galardões que lhe reconheceram a luta em prol dos direitos humanos, incluindo um Grammy Latino e um prémio da UNESCO

Há já vários anos que Mercedes Sosa se debatia com problemas de saúde, mas nunca quis largar a música. Em 2001 deu uma entrevista em que disse: “Não sou nova nem bonita, mas tenho a minha voz e a minha alma, que me sai quando canto”.

PS: Quem quiser ouvir um pouco desta maravilhosa voz pode fazê-lo aqui