O pior analfabeto é o analfabeto político. Ele não ouve, não fala, nem participa dos acontecimentos políticos. Ele não sabe que o custo de vida, o preço do feijão, do peixe, da farinha, do aluguel, do sapato e do remédio dependem das decisões políticas. Bertolt Brecht
sexta-feira, 19 de outubro de 2012
A Islândia dá uma lição ao mundo
domingo, 19 de agosto de 2012
Nossa Sede de Justiça e Liberdade vai Mudar o Mundo
Dentro da embaixada, na escuridão, eu podia ouvir equipes de policiais entrando no predio pela saída de incêndio interna.
Mas eu sabia que haveria testemunhas.
E tudo graças a vocês.
Se o governo britanico não jogou fora o Tratado de Viena na outra noite, isto foi porque o mundo estava olhando.
E o mundo estava olhando porque vocês estavam olhando.
A próxima vez que alguém disser para vocês que é sem sentido defender os direitos que nos preza, lembre-os da sua vigília na escuridão diante da embaixada de Equador, e como, na manhã, o sol saiu em um mundo diferente, e uma corajosa nação latinoamericana tomou uma postura pela justiça.
E, então, para essas bravas pessoas.
Agradeço o Presidente Correa pela coragem que ele mostrou considerando e garantindo o meu asilo político.
E assim devo agradecer o governo, e o chanceler, Ricardo Patiño, que mantiveram a Constituição equatoriana e seus termos sobre direitos universais em consideração ao meu caso.
E a toda a população equatoriana por me apoiar e defender sua constituição.
E tenho uma dívida de gratidão à equipe desta embaixada, que suas familias moram em Londres e mostraram hospitalidade e carinho, ignorando as ameaças que receberam.
Esta sexta-feira haverá uma reunião de emergência dos chanceleres de America Latina em Washington para discutir esta situação.
E estou muito agradecido às pessoas e aos governos de Argentina, Bolivia, Brasil, Chile, Colombia, El Salvador, Honduras, México, Nicaragua, Argentina, Peru, Venezuela, e a todos os outros paises Latinoamericanos que vieram a defender o direito de asilo.
As pessoas dos Estados Unidos, o Reino Unido, Suécia e Austrália, que me apoiaram em massa, mesmo quando seus governos não o fizeram. E aos mais sábios que estão no poder e que ainda estão lutando pela justiça.
À equipe, apoiadores e fontes de Wikileaks cuja coragem, comprometimento e lealdade não tem igual.
À minha familia e filhos à que foram negados a presença do pai. Me desculpem. Nos reuniremos em breve.
Enquanto Wikileaks estiver sob ameaça, assim estará a liberade de expressão e a saúde de nossas sociedades.
Nós devemos usar este momento para articular a escolha que foi do governo dos Estados Unidos de América.
Eles voltaram atrás e reafirmarão os valores sob os quais foram fundandos?
Ou eles balançarão no precipício, nos puxando para um mundo perigoso e opressivo, onde jornalistas se calam diante do medo de perseguição e cidadãos devem susurrar na escuridão?
Eu digo que devem voltar atrás.
Eu peço ao presidente Obama que faça a coisa certa.
Os Estados Unidos devem fazer a coisa certa.
Os Estados Unidos devem renunciar à caça às bruxas contra Wikileaks.
Os Estados Unidos devem dissolver a investigação do FBI.
Os Estados Unidos devem prometer que não procurarão processar nossa equipe ou nossos apoiadores.
Os Estados Unidos devem prometer ao mundo que não caçarão jornalistas por acender uma luz nos crimes secretos dos poderosos.
Não deve mais existir esse papo tolo de processar uma organização de mídia, seja essa o Wikileaks ou o The New York Times.
A guerra da administração dos EUA contra os denunciantes deve acabar.
Thomas Drake e William Binney e John Kirakoo e os outros heróicos denunciantes devem ser perdoados e compensados pelas dificuldades que eles enfrentaram como servidores do registro público.
E o soldado do exército que continua em uma prisão militar em Fort Leavenworth, Kansas, que foi imputado pela ONU para passar meses de detenção torturosa em Quantico, Virginia, e ainda espera um julgamento - após dois anos na prisão. Ele deve ser liberado.
E se Bradley Manning realmente fez o que ele está sendo acusado, ele é um herói, um exemplo para todos nós e um dos mais importantes prisioneiros politicos.
Bradley Manning deve ser libertado.
Na quarta, Bradley Manning passou seu 815° dia na prisão sem julgamento.
Na sexta, uma banda russa foi sentenciada por 2 anos por uma perfomance política. Há uma unidade na opressão.
Deve haver unidade e determinação na resposta.
sexta-feira, 17 de agosto de 2012
O Equador encara a Inglaterra e deixa Assange comovido
“Nem o Reino Unido nem a Austrália, meu país natal, se levantaram para me proteger da perseguição e sim uma valente nação latino-americana”
O destino de Assange: o que acontece agora?
Por Marcelo Justos (Carta Maior)
terça-feira, 14 de agosto de 2012
Equador concede asilo político a Julian Assange, fundador do Wikileaks
Assange está refugiado na embaixada do Equador em Londres desde 19 de junho, aguardando um posicionamento oficial do governo de Rafael Correa. Ao garantir o asilo político ao ciberativista, o governo equatoriano o reconhece como um perseguido político.
Correa declarou a uma rede de tevê equatoriana na última segunda 13 que passaria a semana analisando o material jurídico sobre leis internacionais antes de tomar uma decisão. Segundo o Ministro das Relações Exteriores do país, Ricardo Patiño, o presidente aguardava o fim dos Jogos Olímpicos de Londres para se posicionar.
Ainda não está claro se o asilo a Assange o permitirá deixar o Reino Unido rumo ao Equador, ou se é apenas um gesto simbólico. O fundador do Wikileaks corre o risco de ser preso caso deixe a embaixada em Londres. O gesto certamente causará desconforto entre os governos do Equador, de posição bolivariana e alinhado à Venezuela, e dos Estados Unidos, principal alvo dos documentos do Wikileaks, do Reino Unido e da Suécia, país de origem de Assange.
Segundo a fonte do Guardian no Equador, o governo britânico “desencoraja” a ideia de conceder o asilo, enquanto os suecos “não estão muito colaborativos” com a situação.
Julian Assange refugiou-se na embaixada do Equadro em Londres numa tentativa de evitar a extradição à Suécia, onde foi condenado por supostamente ter estuprado duas mulheres. Na Suécia ele corre o risco de nova extradição aos Estados Unidos, onde onde poderia ser condenado à pena de morte.
O sueco, que também tem cidadania australiana, fundou o Wikileaks, site que revelou uma série de documentos confidenciais de empresas e de governos nacionais, sobretudo os Estados Unidos.
quinta-feira, 5 de julho de 2012
Wikileaks divulga 2,5 milhões de emails do regime sírio
quinta-feira, 21 de junho de 2012
Com asilo a Assange, Rafael Correa pode calar críticos na imprensa
Poucos dias depois, os dois chefes de Lucas – Rafael Correa, presidente do Equador, e Ricardo Patiño, ministro de Relações Exteriores – desautorizaram o vice-chanceler. “Nenhum proposta formal foi feita ao diretor do WikiLeaks”, garantiu o chefe de Estado na época. “Foi uma declaração pessoal do vice-chanceler, que não teve minha autorização.” Rafael Correa aproveitou para cutucar os Estados Unidos, dizendo que o país estava cometendo um erro ao perseguir Julian Assange, mas frisou que jamais apoiaria atividades que ferissem a lei de outras nações.
Até ontem, Julian Assange se encontrava em prisão domiciliar no Reino Unido, onde espera que a Corte britânica julgue sua extradição à Suécia. Duas mulheres suecas acusam o criador do WikiLeaks por crimes sexuais, e a Justiça do país nórdico deseja tê-lo em Estocolmo para investigar as denúncias e, se for o caso, julgá-lo. Como foi um dos grandes responsáveis pelo vazamento de 250 mil telegramas diplomáticos dos Estados Unidos, Julian Assange teme que sua extradição à Suécia seja apenas uma escala rumo à Washington, onde crimes de espionagem podem levar à pena de morte.
De 2010 pra cá, a relação entre o criador do WikiLeaks e o presidente equatoriano parece ter melhorado. Assange entrevistou Rafael Correa em seu talk show The World Tomorrow, e os dois trocaram risadas e conselhos sobre a segurança um do outro. “Bem-vindo ao clube dos perseguidos”, brincou o presidente. O ativista não deixou por menos: “Não vá ser assassinado”, recomendou.
Receber Julian Assange no Equador pode ser uma jogada política de Rafael Correa para calar seus opositores. O presidente tem sido sistematicamente denunciado pelos grandes meios de comunicação do país, pela Sociedade Interamericana de Imprensa e pela Comissão Interamericana de Direitos Humanos como cerceador da liberdade de expressão. Oferecer asilo ao homem que levou essa liberdade ao extremo – e, por isso, vem sendo perseguido pelos Estados mais democráticos do mundo – poderia ajudá-lo a calar quaisquer críticas adicionais.
“Estamos dispostos a defender princípios, e não interesses mesquinhos”, escreveu o chanceler Ricardo Patiño em sua conta no Twitter. “A liberdade de expressão agora se discute no mais alto nível. Não tememos estar com a batata quente nas mãos. Iremos enfrentar o que seja necessário.”
Publicado por Rede Brasil Atual
Via Correio Progressistaquarta-feira, 20 de junho de 2012
Assange pede asilo no Equador, Jornal Nacional ataca Rafael Correa
segunda-feira, 31 de outubro de 2011
Wikileaks: William Waack, da Globo, é citado três vezes como informante dos EUA
sexta-feira, 19 de agosto de 2011
Amorim: a pedra no meio do caminho

Por Marina Amaral e Natalia Viana
O segundo dos três telegramas da série sobre o MRE é dedicado à falta de recursos humanos e financeiros do Itamaraty que, diante do crescimento do papel internacional do Brasil, se expandiu entre 2003 e 2009, com a abertura, por exemplo, de 44 novas unidades administrativas em Brasília e 17 novas embaixadas brasileiras na África.“É crucial influenciar essa nova geração de diplomatas que, embora nacionalistas, estão mais abertos a considerar que a cooperação entre EUA e Brasil pode coincidir com os interesses de seu país”, assinala o embaixador.
quinta-feira, 10 de março de 2011
WikiLeaks: Serra e o alinhamento aos EUA
Em 18 de dezembro de 2009 o então governador de São Paulo José Serra encontrou-se durante 90 minutos no palácio do governo com o subsecretário para assuntos do hemisfério ocidental do governo americano, Arturo Valenzuela. Serra já era já cotado para ser candidato tucano à presidência em 2010, mas ainda não havia formalizado a candidatura.
Valenzuela saiu do encontro privado com a impressão de que Serra seria um presidente mais afeito aos EUA. “Serra alertou que a corrupção e a radicalização estavam crescendo no partido governante, o PT, e sugeriu que como presidente iria pressionar por uma política externa mais alinhada com os Estados Unidos”, diz o telegrama enviado pelo consulado em São Paulo.
O político tucano criticou a política externa de Lula e propôs-se estar numa posição mais internacionalista caso fosse eleito, criticou a tarifa americana sobre o álcool brasileiro julgando-a “economicamente ilógica” e destacou seu engajamento com o então governador da Califórnia, Arnold Schwarzenegger, nas questões climáticas como uma das oportunidades de cooperação.
Serra criticou a participação de Lula na crise em Honduras, responsabilizando o governo brasileiro e o presidente hondurenho deposto Manuel Zelaya de impedirem a resolução do problema.
Sutilmente, Serra deu a entender que os EUA faziam mal ao elogiar Lula. “Ele também avisou que as referências do governo americano a uma ‘relação especial’ com o presidente Lula não agradam a todos os segmentos do Brasil e que poderiam ser manipuladas pelo PT”, diz o telegrama.
Desinformado
Depreende-se do documento, no entanto, que Valenzuela achou que Serra estava focado demais na política interna brasileira sem prestar a devida atenção aos vizinhos na América do Sul.
A conversa aconteceu pouco menos de um mês depois do chileno assumir a subsecretaria de Assuntos do Hemisfério Ocidental, cargo anteriormente ocupado por Thomas Shannon e que coordena as relações dos EUA com América Latina, Caribe e Canadá. “A presidente Kirchner é esperta e cordial. Se o populismo na Argentina preocupa aos EUA, então Dilma causará preocupação maior”, comparou o candidato tucano à presidência.
Valenzuela visitou países do Cone Sul e na volta aproveitou para fazer uma escala em São Paulo onde realizou uma série de encontros extra-oficiais. “Serra pareceu completamente desinformado de acontecimentos recentes no Cone Sul, incluindo a situação política do presidente paraguaio Lugo”, comentou o telegrama fazendo menção à série de reconhecimentos de paternidade atribuídas ao ex-bispo.
Preocupado com a derrota
José Serra deu a entender a Arturo Valenzuela não estar “firmemente confiante” que fosse ganhar as eleições de 2010. Segundo o tucano, o embate entre os esforços do PT em montar uma base política sólida e o fraco aparato do PSDB justificavam tal descrença.
Do Planeta Osasco
domingo, 30 de janeiro de 2011
Brasileiros entrevistam Julian Assange

“Não somos uma organização exclusivamente da esquerda. Somos uma organização exclusivamente pela verdade e pela justiça”. Essa é apenas uma das muitas afirmações feitas pelo fundador e publisher do WikILeaks, Julian Assange, em entrevista aos internautas brasileiros.
A entrevista será publicada por diversos blogs, entre eles: Blog do Nassif, Viomundo, Nota de Rodapé, Maria Frô, Trezentos, Fazendo Média, FAlha de S Paulo, O Escrevinhador, Blog do Guaciara, Observatório do Direito à Comunicação, Blog da Dilma, Futepoca, Elaine Tavares, Blog do Mello, Altamiro Borges, Doutor Sujeira, Blog da Cidadania, Óleo do Diabo, Escreva Lola Escreva.
Julian, que enfrenta um processo na Suécia por crimes sexuais e atualmente vive sob monitoramento em uma mansão em Norfolk, na Inglaterra, concedeu a entrevista para internautas que enviaram perguntas a este blog.
Eu selecionei doze perguntas dentre as cerca de 350 que recebi – e não foi fácil. Acabei privilegiando perguntas muito repetidas, perguntas originais e aquelas que não querem calar. Infelizmente, nem todos foram contemplados. Todas as perguntas serão publicadas depois.
No final, os brasileiros não deram mole para o criador do WikiLeaks. Julian teve tempo de responder por escrito e aprofundar algumas questões.
O resultado é uma entrevista saborosa na qual ele explica por que trabalha com a grande mídia – sem deixar de criticá-la -, diz que gostaria de vir ao Brasil e sentencia: distribuir informação é distribuir poder.
Em tempo: se virasse filme de Hollywood, o editor do WikiLeaks diz que gostaria de ser interpretado por Will Smith.
A seguir, a entrevista.
Vários internautas - O WikiLeaks tem trabalhado com veículos da grande mídia – aqui no Brasil, Folha e Globo, vistos por muita gente como tendo uma linha política de direita. Mas além da concentração da comunicação, muitas vezes a grande mídia tem interesses próprios. Não é um contra-senso trabalhar com eles se o objetivo é democratizar a informação? Por que não trabalhar com blogs e mídias alternativas?
Por conta de restrições de recursos ainda não temos condições de avaliar o trabalho de milhares de indivíduos de uma vez. Em vez disso, trabalhamos com grupos de jornalistas ou de pesquisadores de direitos humanos que têm uma audiência significativa. Muitas vezes isso inclui veículos de mídia estabelecidos; mas também trabalhamos com alguns jornalistas individuais, veículos alternativos e organizações de ativistas, conforme a situação demanda e os recursos permitem.
Uma das funções primordiais da imprensa é obrigar os governos a prestar contas sobre o que fazem. No caso do Brasil, que tem um governo de esquerda, nós sentimos que era preciso um jornal de centro-direita para um melhor escrutínio dos governantes. Em outros países, usamos a equação inversa. O ideal seria podermos trabalhar com um veículo governista e um de oposição.
Marcelo Salles – Na sua opinião, o que é mais perigoso para a democracia: a manipulação de informações por governos ou a manipulação de informações por oligopólios de mídia?
A manipulação das informações pela mídia é mais perigosa, porque quando um governo as manipula em detrimento do público e a mídia é forte, essa manipulação não se segura por muito tempo. Quando a própria mídia se afasta do seu papel crítico, não somente os governos deixam de prestar contas como os interesses ou afiliações perniciosas da mídia e de seus donos permitem abusos por parte dos governos. O exemplo mais claro disso foi a Guerra do Iraque em 2003, alavancada pela grande mídia dos Estados Unidos.
Eduardo dos Anjos – Tenho acompanhado os vazamentos publicados pela sua ONG e até agora não encontrei nada que fosse relevante, me parece que é muito barulho por nada. Por que tanta gente ao mesmo tempo resolveu confiar em você? E por que devemos confiar em você?
O WikiLeaks tem uma história de quatro anos publicando documentos. Nesse período, até onde sabemos, nunca atestamos ser verdadeiro um documento falso. Além disso, nenhuma organização jamais nos acusou disso. Temos um histórico ilibado na distinção entre documentos verdadeiros e falsos, mas nós somos, é claro, apenas humanos e podemos um dia cometer um erro. No entanto até o momento temos o melhor histórico do mercado e queremos trabalhar duro para manter essa boa reputação.
Diferente de outras organizações de mídia que não têm padrões claros sobre o que vão aceitar e o que vão rejeitar, o WikiLeaks tem uma definição clara que permite às nossas fontes saber com segurança se vamos ou não publicar o seu material.
Aceitamos vazamentos de relevância diplomática, ética ou histórica, que sejam documentos oficiais classificados ou documentos suprimidos por alguma ordem judicial.
Vários internautas – Que tipo de mudança concreta pode acontecer como consequência do fenômeno Wikileaks nas práticas governamentais e empresariais? Pode haver uma mudança na relação de poder entre essas esferas e o público?
James Madison, que elaborou a Constituição americana, dizia que o conhecimento sempre irá governar sobre a ignorância. Então as pessoas que pretendem ser mestras de si mesmas têm de ter o poder que o conhecimento traz. Essa filosofia de Madison, que combina a esfera do conhecimento com a esfera da distribuição do poder, mostra as mudanças que acontecem quando o conhecimento é democratizado.
Os Estados e as megacorporações mantêm seu poder sobre o pensamento individual ao negar informação aos indivíduos. É esse vácuo de conhecimento que delineia quem são os mais poderosos dentro de um governo e quem são os mais poderosos dentro de uma corporação.
Assim, o livre fluxo de conhecimento de grupos poderosos para grupos ou indivíduos menos poderosos é também um fluxo de poder, e portanto uma força equalizadora e democratizante na sociedade.
Marcelo Träsel - Após o Cablegate, o Wikileaks ganhou muito poder. Declarações suas sobre futuros vazamentos já influenciaram a bolsa de valores e provavelmente influenciam a política dos países citados nesses alertas. Ao se tornar ele mesmo um poder, o Wikileaks não deveria criar mecanismos de auto-vigilância e auto-responsabilização frente à opinião pública mundial?
O WikiLeaks é uma das organizações globais mais responsáveis que existem.
Prestamos muito mais contas ao público do que governos nacionais, porque todo fruto do nosso trabalho é público. Somos uma organização essencialmente pública; não fazemos nada que não contribua para levar informação às pessoas.
O WikiLeaks é financiado pelo público, semana a semana, e assim eles “votam” com as suas carteiras.
Além disso, as fontes entregam documentos porque acreditam que nós vamos protegê-las e também vamos conseguir o maior impacto possível. Se em algum momento acharem que isso não é verdade, ou que estamos agindo de maneira antiética, as colaborações vão cessar.
O WikiLeaks é apoiado e defendido por milhares de pessoas generosas que oferecem voluntariamente o seu tempo, suas habilidades e seus recursos em nossa defesa. Dessa maneira elas também “votam” por nós todos os dias.
Daniel Ikenaga – Como você define o que deve ser um dado sigiloso?
Nós sempre ouvimos essa pergunta. Mas é melhor reformular da seguinte maneira: “quem deve ser obrigado por um Estado a esconder certo tipo de informação do resto da população?”
A resposta é clara: nem todo mundo no mundo e nem todas as pessoas em uma determinada posição. Assim, o seu médico deve ser responsável por manter a confidencialidade sobre seus dados na maioria das circunstâncias – mas não em todas.
Vários internautas – Em declarações ao Estado de São Paulo, você disse que pretendia usar o Brasil como uma das bases de atuação do WikiLeaks. Quais os planos futuros? Se o governo brasileiro te oferecesse asilo político, você aceitaria?
Eu ficaria, é claro, lisonjeado se o Brasil oferecesse ao meu pessoal e a mim asilo político. Nós temos grande apoio do público brasileiro. Com base nisso e na característica independente do Brasil em relação a outros países, decidimos expandir nossa presença no país. Infelizmente eu, no momento, estou sob prisão domiciliar no inverno frio de Norfolk, na Inglaterra, e não posso me mudar para o belo e quente Brasil.
Vários internautas – Você teme pela sua vida? Há algum mecanismo de proteção especial para você? Caso venha a ser assassinado, o que vai acontecer com o WikiLeaks?
Nós estamos determinados a continuar a despeito das muitas ameaças que sofremos. Acreditamos profundamente na nossa missão e não nos intimidamos nem vamos nos intimidar pelas forças que estão contra nós.
Minha maior proteção é a ineficácia das ações contra mim. Por exemplo, quando eu estava recentemente na prisão por cerca de dez dias, as publicações de documentos continuaram.
Além disso, nós também distribuímos cópias do material que ainda não foi publicado por todo o mundo, então não é possível impedir as futuras publicações do WikiLeaks atacando o nosso pessoal.
Helena Vieira - Na sua opinião, qual a principal revelação do Cablegate? A sua visão de mundo, suas opiniões sobre nossa atual realidade mudou com as informações a que você teve acesso?
O Cablegate cobre quase todos os maiores acontecimentos, públicos e privados, de todos os países do mundo – então há muitas revelações importantíssimas, dependendo de onde você vive. A maioria dessas revelações ainda está por vir.
Mas, se eu tiver que escolher um só telegrama, entre os poucos que eu li até agora – tendo em mente que são 250 mil – seria aquele que pede aos diplomatas americanos obter senhas, DNAs, números de cartões de crédito e números dos vôos de funcionários de diversas organizações – entre elas a ONU.
Esse telegrama mostra uma ordem da CIA e da Agência de Segurança Nacional aos diplomatas americanos, revelando uma zona sombria no vasto aparato secreto de obtenção de inteligência pelos EUA.
Tarcísio Mender e Maiko Rafael Spiess - Apesar de o WikiLeaks ter abalado as relações internacionais, o que acha da Time ter eleito Mark Zuckerberg o homem do ano? Não seria um paradoxo, você ser o “criminoso do ano”, enquanto Mark Zuckerberg é aplaudido e laureado?
A revista Time pode, claro, dar esse título a quem ela quiser. Mas para mim foi mais importante o fato de que o público votou em mim numa proporção vinte vezes maior do que no candidato escolhido pelo editor da Time. Eu ganhei o voto das pessoas, e não o voto das empresas de mídia multinacionais. Isso me parece correto.
Também gostei do que disse (o programa humorístico da TV americana) Saturday Night Live sobre a situação: “Eu te dou informações privadas sobre corporações de graça e sou um vilão. Mark Zuckerberg dá as suas informações privadas para corporações por dinheiro – e ele é o ‘Homem do Ano’.”
Nos bastidores, claro, as coisas foram mais interessantes, com a facção pró- Assange dentro da revista Time sendo apaziguada por uma capa bastante impressionante na edição de 13 de dezembro, o que abriu o caminho para a escolha conservadora de Zuckerberg algumas semanas depois.
Vinícius Juberte – Você se considera um homem de esquerda?
Eu vejo que há pessoas boas nos dois lados da política e definitivamente há pessoas más nos dois lados. Eu costumo procurar as pessoas boas e trabalhar por uma causa comum.
Agora, independente da tendência política, vejo que os políticos que deveriam controlar as agências de segurança e serviços secretos acabam, depois de eleitos, sendo gradualmente capturados e se tornando obedientes a eles.
Enquanto houver desequilíbrio de poder entre as pessoas e os governantes, nós estaremos do lado das pessoas.
Isso é geralmente associado com a retórica da esquerda, o que dá margem à visão de que somos uma organização exclusivamente de esquerda. Não é correto. Somos uma organização exclusivamente pela verdade e justiça – e isso se encontra em muitos lugares e tendências.
Ariely Barata – Hollywood divulgou que fará um filme sobre sua trajetória. Qual sua opinião sobre isso?
Hollywood pode produzir muitos filmes sobre o WikiLeaks, já que quase uma dúzia de livros está para ser publicada. Eu não estou envolvido em nenhuma produção de filme no momento.
Mas se nós vendermos os direitos de produção, eu vou exigir que meu papel seja feito pelo Will Smith. O nosso porta-voz, Kristinn Hrafnsson, seria interpretado por Samuel L Jackson, e a minha bela assistente por Halle Berry. E o filme poderia se chamar “WikiLeaks Filme Noire”.
Publicado por Natália Viana
segunda-feira, 13 de dezembro de 2010
WIKILEAKS: UMA BRASILEIRA NO OLHO DO FURACÃO
Natália virou parceria do site recentemente, para ajudar na divulgação do Cablegate. Ela conta que, lá dentro, o trabalho é feito por diversos colaboradores voluntários que se comunicam “o tempo todo” através de mensagens seguras. É como uma agência de notícias. “Discutimos a pauta, como será o ângulo, quem vai editar e a hora. Como cada um está em um lugar, os horários são diferentes, então temos de coordenar para conseguir que o material saia na hora certa”, explica. Natália conta que não há rotina. “A coisa caminha de acordo com o que acontece no dia”, diz, exemplificando com os últimos acontecimentos desde que o WikiLeaks vazou 250 mil documentos diplomáticos dos EUA. “O site sofreu ataques hackers, foi tirado da Amazon, o dinheiro foi cortado e o Julian foi preso. Claro que tudo isso acaba prejudicando o trabalho, mas continuamos firme”.
Segundo ela, o trabalho é feito por todos, não apenas por Julian Assange. O fundador do WikiLeaks acabou virando uma figura emblemática do mundo atual – australiano, ele vivia na Suécia nos últimos meses e foi preso logo após a divulgação dos documentos, com a alegação de “crimes sexuais”.
Natália diz que gosta muito dele. É uma pessoa, diz ela, que “nunca fala frivolidades. Nunca vai ficar horas falando sobre o tempo”. Ele não fala muito, mas fica ligado o tempo todo em quem está apoiando e “armando contra o WikiLeaks”. “Ele tem uma causa que é maravilhosa, porque questiona os limites do que é jornalismo, do que é transparência e do que deve ser privado e público, é uma compreensão única do potencial da internet. O Julian é um visionário”, diz.
Assange viveu em relativa tranquilidade mesmo com seu WikiLeaks, fundado em 2007, vazando documentos cada vez mais perturbadores. O site ganhou dois prêmios importantes, da revista Economist e da Anistia Internacional, e começou a incomodar os EUA neste ano, ao revelar abusos do exército americano no Iraque e Afeganistão.
O fundador do WikiLeaks pediu visto de residência na Suécia em agosto. Dois dias depois, foi emitido um mandado de prisão contra ele por “crimes sexuais”.
A promotoria sueca recuou, até que em setembro outra promotora reabriu o caso. O pedido de visto foi negado e, em novembro, Assange recebeu outro mandado de prisão. Em 20 de novembro, o fundador do WikiLeaks entrou para a lista de procurados da Interpol; pouco depois, a justiça sueca recusou a apelação. E, no meio desse trâmite, o site soltou para o mundo os 250 mil telegramas secretos do Departamento de Estado norte-americano.
Entrevista. Natália entrevistou Assange pouco antes de ele ser preso. Ele se entregou para a polícia de Londres na terça-feira, 7, e ficará sob custódia pelo menos até amanhã. Na entrevista, Assange negou as acusações de espionagem e crimes sexuais.
“A alegação de estupro é falsa e vai acabar se extinguindo quando os fatos reais vierem à tona”, disse. Ele ainda explicou que o que seu site faz não é espionagem. “O WikiLeaks recebe material de ‘whistle-blowers’ (pessoas que denunciam algo errado onde trabalham) e jornalistas e os entrega ao público. Nos acusar de espionagem quer dizer que teríamos de trabalhar ativamente para adquirir o material e o repassar a um estrangeiro.”
Natália conta que, durante a entrevista, “ele estava bastante irritado” por causa das retaliações das empresas ao site. A Amazon suspendeu a hospedagem, e o PayPal cancelou a conta que o site usava para coletar fundos. “Mas ele também não é de perder a cabeça. Ele simplesmente põe a cabeça dele e de outros membros para funcionar a bolar o próximo passo”, descreve Natália.
Antes do vazamento, a jornalista conta que o pessoal de dentro do WikiLeaks sabia que algo grande estava por vir. “Os colaboradores tiveram acesso ao material antes do lançamento. Todos sabiam que era muito relevante e potencialmente bombástico”. Ela conta que Assange a procurou porque sabia que o Brasil “é uma referência para quem luta por software livre ou trabalha com cultura digital”. “O WikiLeaks me perguntou se eu tinha interesse em participar do projeto, lendo os documentos, elaborando uma estratégia de divulgação aqui no Brasil e, principalmente, estudando os documentos para fazer matérias em português.” Os documentos vazados falam sobre a gestão Lula entre 2003 e 2010. “Até agora o público pôde ver casos de lobby a favor de empresas americanas, como os EUA procuram usar a proximidade com o ministro da Defesa e o chefe das Forças Armadas, como o governo esconde que faz operações de contraterrorismo, e que os EUA pretendem lucrar com a segurança nas Olimpíadas”, conta a jornalista.
Ela já imaginava que o vazamento teria uma grande repercussão, mas não tinha ideia do tamanho da reação dos EUA, que responderam com pressão sobre as empresas, bloqueio de fundos e ameaças a Assange. “Poxa, isso só mostra que eles não sabem como lidar com algo que é novo”, diz. O WikiLeaks é um opositor inédito e está fora dos enquadramentos legais normais. Por isso, Natália acredita que os vazamentos já estão mudando a realidade. “Ficam tentando arrumar um conceito penal para poder dizer que o que o WikiLeaks – e o Julian especificamente – faz é crime. Mais que o conteúdo dos telegramas em si, o desespero dos EUA vem de não saber como lidar com esse conceito de transparência radical possibilitada pela internet”, reflete.






