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segunda-feira, 6 de fevereiro de 2012

O jornalismo não morreu

‘Privataria Tucana’ prova que a reportagem de investigação está viva e José Serra, aparentemente, morto
Engana-se quem imagina morta a reportagem de investigação no Brasil. Embora os jornalões, revistas semanais e emissoras de TV emitam precários sinais vitais do gênero, ele está vivíssimo, como prova A Privataria Tucana, livro do premiado repórter Amaury Ribeiro Jr.
Lançado em dezembro e recebido pela grande imprensa com estridente silêncio, seguido de críticas que tentaram desqualificar a reportagem e o autor, o sucesso do livro, já na terceira edição e no topo das listas dos mais vendidos, não se deve a suposto sentimento antitucano.  Até porque os fatos objetivos relatados não poupam o PT. Não há santos na Privataria.
Com base em documentos oficiais, da CPI do Banestado e outros que o autor conseguiu em cartórios, Amaury torna pública a relação de dirigentes do PSDB e a abertura de contas no exterior de empresas de fachada, responsáveis pelo retorno ao Brasil do dinheiro sujo da corrupção. Dinheiro que voltou, naturalmente, limpo.
Muita gente deve explicações à Justiça que, nesse episódio como em outros envolvendo expressivos representantes da elite brasileira, move-se a passos de tartaruga. Ou simplesmente não se move. Pelo cargo que ocupou na época das tenebrosas transações, as privatizações da era FHC, José Serra, então ministro do Planejamento e depois duas vezes candidato à presidência, prefeito e governador de São Paulo, é quem tem a imagem mais chamuscada, para não dizer estorricada, ao fim da Privataria Tucana.
De origem humilde, o tucano paulista exibe patrimônio incompatível com os rendimentos de um político. Tudo em nome de sua filha, Verônica, que ao lado de Ricardo Sérgio, tesoureiro das campanhas de Serra e Fernando Henrique, emergem como principais parceiros do ex-governador no propinoduto que marcou a venda das empresas de telecomunicação.
Além de jogar uma pá de cal na aura de honestidade de certos tucanos, o livro de Amaury tem ainda o mérito de questionar, involuntariamente, a atuação da grande imprensa no país. Agindo como partido único, onde só é permitida uma única opinião, jornais, revistas e mídia eletrônica defenderam, com unhas e dentes, a privatização. O principal argumento era a vantagem que traria aos consumidores: eficiência e tarifas baixas por causa da concorrência. Passados mais de dez anos, o Brasil cobra tarifas de telefone das mais altas do planeta e as concessionárias são campeãs de reclamação nos Procons.
Não bastasse, ao ignorar o lançamento do livro, a imprensa hegemônica mostra sua face semelhante à dos piratas: um olho tapado, que nada vê, e outro atento à movimentação dos adversários.
Celso de Castro Barbosa
Publicadono SGA Notícias

terça-feira, 3 de maio de 2011

Jornalismo B: A possível morte de Osama Bin Laden na mídia brasileira

 Reproduso o post do Jornalismo B a respeito da famigerada morte de Osama Bin Laden, donde se conclui que nada é o que parece ser, ou melhor, nada é aquilo que a grande mídia quer que seja:



O anúncio da morte de Osama Bin Laden, líder da organização Al Qaeda, pode ter sido a notícia de 2011 com maior repercussão mundial – talvez maior até do que o terremoto seguido de tsunami no Japão. A segunda-feira 2 de maio foi de notícias (algumas barrigadas), reportagens e entrevistas infindáveis sobre a trajetória de Bin Laden, as circunstâncias que cercaram o anúncio de sua morte e os desdobramentos que essa situação pode trazer.
Em meio à enxurrada de conteúdo, optei por inverter a lógica tradicional, e usar as velhas mídias apenas como complemento às informações e análises partidas dos blogs e das redes sociais. Foi uma boa escolha. Empapuçados pela “vitória norte-americana”, pela “vitória da democracia”, os principais veículos da velha mídia focaram suas coberturas na boa e velha espetacularização sem questionamento.
Pouco se falou sobre as íntimas ligações de Bin Laden com importantes políticos norte-americanos, sobre seu surgimento como figura internacional a partir do apoio financeiro-militar dos EUA. Quase nada se questionou a noção de justiça defendida por Barack Obama, a execução de Bin Laden, o argumento de “respeito ao islã” para jogar seu corpo ao mar, os fortes interesses implicados em anunciar nesse momento a morte de Osama, a barbárie expressada na comemoração caseira – em frente a Casa Branca – e mundial – através dos líderes nacionais – de um assassinato político.
Todos esses e muitos outros questionamentos foram feitos e aprofundados em diversos blogs. A melhor cobertura que encontrei entre todos os veículos brasileiros foi do Blog do Miro. Em um caso típico no qual a mídia dominante evita discutir os fundamentos da “verdade” divulgada oficialmente, os comunicadores das novas mídias extrapolaram seu já comum papel opinativo e partiram também para a divulgação intensa de informações que não apareceram nos veículos tradicionais. A parte opinativa, independente, desvinculada dos interesses que prendem os rabos da grande mídia, permitiu opiniões mais contundentes e plurais.
Algumas sugestões de bons conteúdos publicados na mídia alternativa na segunda-feira:
Rodrigo Vianna (Escrivinhador): Bin Laden já estava morto há dez anos?
Antonio Luiz M. C. Costa (colunista da Carta Capital): Bin Laden está morto. Missão cumprida?
Carlos Latuff (via Twitter): AQUI
Cantando no Toró: Licença para matar
Celso Lungaretti (Náufrago da Utopia): Bin Laden: o fim de um mito oco
Postado por Alexandre Haubrich
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sábado, 30 de abril de 2011

Um diagnóstico das doenças de formação da mídia

Texto publicado originalmente no Canal VMTV.

Destruir é preciso. Com a constituição de mídia que temos hoje, navegar é impossível. Se navegar é preciso, destruir é preciso para navegar. Não há voz, não há sequer corda vocal, apenas uma grande quantidade de gargantas virgens de gritos. É necessário, então, rasgar essas cordas que prendem as vozes, é necessário destruí-las. Mas é também imprescindível que, concomitante ao processo de destruição, alternativas sejam construídas. Aí está o grande desafio histórico da esquerda mundial, e, especificamente, da mídia de esquerda.
Com a atuação conjunta dos dois elementos que abordei nas minhas duas colunas anteriores no Canal VMTV (ditadura do capital aplicada à comunicação e falsa neutralidade pregada pelos conglomerados de mídia) fica dificultada a tarefa da esquerda de criar uma nova lógica na comunicação (ou uma “outra comunicação”, como preferiu o Fórum da Igualdade).
Temos atualmente, no Brasil, a configuração de três setores midiáticos: a mídia dominante, aliada aos grandes grupos empresarias e à direita nacional e internacional; a mídia oficial, ligada direta ou indiretamente aos governos nacional e estadual do PT; e a mídia contra-hegemônica, ou alternativa. Na primeira está o controle momentâneo de quase toda a informação que circula no país. A segunda é uma dissidência da antiga mídia independente, que, ao ver se partido chegar ao poder, grudou-se a ele, tornando-se orgânica e, substancialmente, acrítica. A terceira, por fim, como única fonte de mídia realmente independente – ainda que o termo seja impreciso – costuma cair no erro de querer ser tão alternativa a ponto de apequenar-se.
Caminhamos para mais do mesmo. A parcela dos comunicadores que eram independentes e se tornaram mais fortemente vinculados ao PT reproduz o que tínhamos nas origens do jornalismo brasileiro, com jornais financiados por partidos políticos e a eles subordinados, objetiva ou subjetivamente. A era da imparcialidade marcha para o fim, mas a alternativa que emerge não é animadora: é o passado travestido em futuro próximo.
Por outro lado, temos uma mídia alternativa que resiste em tornar-se verdadeiramente contra-hegemônica. Não basta ficar à margem, isso é apequenar-se e conformar-se com o estado das coisas. Não é subversão, mal é um espectro de rebeldia. A contra-hegemonia sim, é a tentativa de criação de alternativas, e o embate entre essas alternativas e as lógicas que hegemonizam a comunicação.
Está aí a grande dificuldade do que restou da imprensa independente, esteja ela constituída na internet, em rádios comunitárias ou piratas, ou em veículos impressos. Para além da crítica e do desmonte da lógica dominante, precisamos criar. Criar pautas, criar espaços, criar conteúdos. É preciso destruir, mas é preciso ir além da destruição. É preciso construir. Navegar é preciso, mas em outros mares.
Mas é claro que muitos obstáculos se impõem nesse caminho. As dificuldades financeiras são o primeiro e maior entrave à produção, por exemplo, de reportagens. O que sobra, então? Sobra o esforço colaborativo. Aí está o gigantesco mar onde podemos navegar. É na colaboração que a mídia contra-hegemônica pode produzir alternativas e forçar o embate. Assunto a ser ainda muito debatido, e aprofundado em uma próxima coluna.
Postado por Alexandre Haubrich
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quinta-feira, 7 de abril de 2011

Até onde a corrida pela audiência estimula novas tragédias como a da escola em Realengo?

A exemplo deste excelente post no Jornalismo B a análise abaixo lança luzes sobre ao disparate do sensacionalismo que a grande mídia está protagonizando  com a tragédia no Rio:

Por: Zé Augusto *

Até onde a corrida pela audiência estimula novas tragédias como a da escola em Realengo?

A tragédia de Realengo é algo tão insano, que exige reflexão sobre a cobertura na forma de espetáculo que vemos na TV, nos portais da imprensa corporativa.

A alma do negócio, no jornalismo televisivo, é falar e exibir. O silêncio, a reflexão, a sobriedade, derruba a audiência, quando no calor dos acontecimentos o telespectador, de boa-fé, busca respostas e explicações lógicas para algo tão insensato.

Mas qual o papel da mídia? Que mensagem deve passar, senão a verdade factual e os valores que interessam à própria sociedade para que isso não se repita?

É claro que a informação factual é necessária. O quê aconteceu, quando, onde, por que, e até informar como ajudar e como não atrapalhar os serviços de socorro. Só que isso, objetivamente, só rende poucos minutos de notícia no dia. Então enchem a programação com especulações de "especialistas" e biografia do psicótico, transformando-o numa celebridade.

Mas cabe fazer do psicótico (que também foi vítima da própria loucura), uma celebridade? Quando se sabe que o "prêmio" buscado por outros psicóticos é o exibicionismo da pior maneira, cometendo atos bárbaros e impactantes como este?

Cabe a "corrida do ouro" de levar ao ar toda e qualquer informação inócua garimpada sobre a biografia do psicótico, sem pensar que insanos como este, são motivados, muitas vezes, também para aparecer nos holofotes da mídia?

Cabe ficar o dia inteiro reunindo "especialistas" para especular num caso destes, em intermináveis testes de hipóteses inócuos, apenas para o telespectador não mudar de canal?

Cabe especular com sensacionalismo sobre fundamentalismo religioso, demonizando religiões? Não seria mais ético e útil para a sociedade explicar que não existe religião nenhuma no mundo que pregue, nem justifique um ato destes?

Não seria melhor levar ao ar reflexões sobre o culto do individualismo neoliberal em detrimento de organizações sociais coletivas, onde uns cuidariam dos outros, evitando que os demônios internos de cada um se aflorassem, na solidão e isolamento?

O individualismo está tão encrustado na cabeça dos colunistas, que imediatamente pensam em mirabolantes detectores de metais na portaria das escolas, como se um louco obsessivo não fosse capaz de pular o muro, ou simplesmente esperar do lado de fora para atirar na hora da saída.

Além disso, escola não é banco. Escola tem que ensinar matemática, português, mas tem também que ser ambiente propício a formar cidadãos éticos com o próximo, solidários, respeitosos com os mais fracos e com as minorias, conscientes de seus direitos e deveres, conscientes de que devem andar desarmados, independente de detectores de metais. Conscientes de que devem resolver conflitos com diálogo, com civilidade, e não pela violência.

O pior é que os colunistas que cultuam o individualismo e reclamam por caríssimos sistemas de segurança com detectores de metais e porteiros armados, são os mesmos que pregam cortes de impostos onde não se pode cortar, como o crime que cometeram contra a saúde pública ao fazerem campanha contra a CPMF.

Em vez de gastar dinheiro com cada vez mais equipamentos de segurança e armas, melhor gastar na formação cidadã: investir no professor, no aluno e na família do aluno (sobretudo na mãe).

Não cabe censura à imprensa, mas cabe repúdio aos péssimos valores que a imprensa passa, na corrida pela audiência e pelo lobby das elites arcaicas que são os barões da mídia. Nas concessões públicas de rádio e TV, a sociedade tem o direito de conceder para uso ético, para a construção da sociedade que queremos, e não para a mera corrida comercial pela audiência a qualquer preço, inclusive incentivando indiretamente futuras tragédias como essas, quando mostradas como se fosse um reality show.

Extraído do blog: Amigos do Presidente Lula

Via Um pouco de tudo. Tudo de um pouco

quarta-feira, 12 de janeiro de 2011

Novela Ronaldinho e o arroubo ético na imprensa brasileira

O artigo a seguir é uma colaboração especial de Rodolfo Mohr*

A história em si até o seu Adriano Galliani, dirigente do Milan, já está careca de saber. As editorias de esporte, através de jornalistas e comentaristas, da imprensa nativa é que deram demonstrações pouco vistas em outros assuntos.

Quando o leilão pelo futuro time de Ronaldinho foi escancarado, com ponto alto na maior coletiva de FANFARRONICE dos últimos tempos, realizada no Copacabana Palace, na quinta-feira de reis, 06/01, a imprensa brasileira e, em especial, a gaúcha se reencontraram com a ética, conceito esvaziado sistematicamente pela grande mídia.

O prazer em ver, ouvir e ler todas as críticas e açoites merecidos pela família Assis, reparei o que todos repararam. O ódio das ruas contaminou as redações esportivas. O mundo dos negócios, o capitalismo selvagem, a livre concorrência, a busca insaciável do lucro, a luxúria das grandes marcas esportivas, tudo, ABSOLUTAMENTE tudo sucumbiu ao amor traído do torcedor gremista principalmente, mas nem nisso a exclusividade foi do Grêmio. Assis também havia firmado compromisso verbal e redigido contrato com o Palmeiras, palavras de Felipão em recente coletiva em que o Verdão abandonou a concorrência por Ronaldinho.

Todos os valores capitalistas difundidos e defendidos pelos meios de comunicação de massa a exaustão acima de qualquer valor humano foram esmagados pelas reações populares diante das atitudes mesquinhas e canalhas cometidas pela dupla Assis Moreira, big e little brothers. Registro aqui que dias antes da coletiva dos Assis e de Galliani no Rio, o jornalista Leonardo Meneghetti, no Jogo Aberto RS da Band, havia dito em alto e bom som a opinião dos principais comentaristas de que o capitalismo é assim, que o Assis estava certo em buscar a melhor transação e os melhores valores.

Todos os integrantes do Bate Bola, da TVCom, do domingo 09/01, todos os integrantes do Arena Sportv, da segunda 10/01, em uníssono repudiaram o leilão, repudiaram a forma de negociação do Assis empresário, a palavra firmada não cumprida, o acordo redigido e não assinado. A ética voltou a ser tema dos debates. Além de Paulo Sant’anna e uns poucos outros, a RBS deve necessariamente se indignar. Entre o gaúcho estrangeiro biliardário e os demais gaúchos ela escolhe quem lhe sustenta. É o seu negócio em jogo. O bairrismo ferido tira o gaúcho do Ronaldinho assim como o endeusou mesmo após a primeira traição, a de 2000. E no auge da mágoa, Sant’anna no Sala de Redação da segunda, 10/01: “Não quero que agridam a família Assis Moreira, quero apenas que sejam infelizes”.

Nisso tudo, até o rei-poeta-de-boca-calada Pelé deu nos dedos. “Se ama o Grêmio joga de graça”. No caso do acordo com o Grêmio, o de “graça” de Ronaldinho seria R$ 100 milhões por 4 anos. Ainda arrebatou dizendo ter jogado uma temporada de graça no Santos.

Sabemos quem é Pelé. Mas tem um mérito. Soube ser mais que o maior jogador de sempre, soube se tornar um ídolo imortalizado. Ronaldinho soube se enterrar perante à torcida gremista e ao grande público em geral. A imprensa não. Mudou o discurso e adotou uma postura que raramente tem. Acredito na sinceridade de muitos jornalistas sérios e éticos que se escandalizaram com o ocorrido. Mas a turma do amendoim da imprensa caseira tem culpa no cartório. São parte dos incentivadores do futebol “profissional”, “moderno” e “competitivo”, “de la compra y la venta de los hombres y las emociones” como assinalou o fanático por futebol Eduardo Galeano, jornalista uruguaio.

*Rodolfo Mohr é estudante de jornalismo da UFRGS

Via blog Jornalismo B

segunda-feira, 13 de dezembro de 2010

WIKILEAKS: UMA BRASILEIRA NO OLHO DO FURACÃO

Tatiana de Mello Dias - O Estado de S. Paulo

Sempre munida de gravador, notebook e câmera, ela já esteve com refugiados tibetanos no norte da Índia, indígenas sob massacre na Colômbia, cholas bolivianas e em favelas de Cancún. Agora, está no olho do furacão. Foi a brasileira escolhida por Julian Assange para traduzir e publicar em primeira mão documentos do WikiLeaks sobre o Brasil. Agora, a vida da jornalista Natália Viana está, como define, uma “loucura”. Suspeita que celular e e-mails sejam monitorados. Mas conta, em entrevista por e-mail ao Link, que já tem certeza que esses documentos estão mudando a realidade dos governos mundiais.
Natália está publicando documentos do WikiLeaks em português. Também é a responsável por traduzi-los e produzir matérias diárias para um blog e para o wiki do projeto. Seu envolvimento com o WikiLeaks começou a ser traçado há quatro anos, quando ela foi fazer mestrado em Londres. Se envolveu com centros de jornalismo investigativo e começou a colaborar com veículos estrangeiros, como os jornais ingleses Independent e Guardian. “Participei de investigações interessantíssimas sobre corrupção transnacional, abusos de empresas multinacionais, guerra biológica”, conta. De volta ao Brasil, estreitou o contato com os jornalistas investigativos de fora. E conheceu o pessoal do WikiLeaks, “muito querido e respeitado neste meio”.
Natália virou parceria do site recentemente, para ajudar na divulgação do Cablegate. Ela conta que, lá dentro, o trabalho é feito por diversos colaboradores voluntários que se comunicam “o tempo todo” através de mensagens seguras. É como uma agência de notícias. “Discutimos a pauta, como será o ângulo, quem vai editar e a hora. Como cada um está em um lugar, os horários são diferentes, então temos de coordenar para conseguir que o material saia na hora certa”, explica. Natália conta que não há rotina. “A coisa caminha de acordo com o que acontece no dia”, diz, exemplificando com os últimos acontecimentos desde que o WikiLeaks vazou 250 mil documentos diplomáticos dos EUA. “O site sofreu ataques hackers, foi tirado da Amazon, o dinheiro foi cortado e o Julian foi preso. Claro que tudo isso acaba prejudicando o trabalho, mas continuamos firme”.
Segundo ela, o trabalho é feito por todos, não apenas por Julian Assange. O fundador do WikiLeaks acabou virando uma figura emblemática do mundo atual – australiano, ele vivia na Suécia nos últimos meses e foi preso logo após a divulgação dos documentos, com a alegação de “crimes sexuais”.
Natália diz que gosta muito dele. É uma pessoa, diz ela, que “nunca fala frivolidades. Nunca vai ficar horas falando sobre o tempo”. Ele não fala muito, mas fica ligado o tempo todo em quem está apoiando e “armando contra o WikiLeaks”. “Ele tem uma causa que é maravilhosa, porque questiona os limites do que é jornalismo, do que é transparência e do que deve ser privado e público, é uma compreensão única do potencial da internet. O Julian é um visionário”, diz.
Assange viveu em relativa tranquilidade mesmo com seu WikiLeaks, fundado em 2007, vazando documentos cada vez mais perturbadores. O site ganhou dois prêmios importantes, da revista Economist e da Anistia Internacional, e começou a incomodar os EUA neste ano, ao revelar abusos do exército americano no Iraque e Afeganistão.
O fundador do WikiLeaks pediu visto de residência na Suécia em agosto. Dois dias depois, foi emitido um mandado de prisão contra ele por “crimes sexuais”.
A promotoria sueca recuou, até que em setembro outra promotora reabriu o caso. O pedido de visto foi negado e, em novembro, Assange recebeu outro mandado de prisão. Em 20 de novembro, o fundador do WikiLeaks entrou para a lista de procurados da Interpol; pouco depois, a justiça sueca recusou a apelação. E, no meio desse trâmite, o site soltou para o mundo os 250 mil telegramas secretos do Departamento de Estado norte-americano.
Entrevista. Natália entrevistou Assange pouco antes de ele ser preso. Ele se entregou para a polícia de Londres na terça-feira, 7, e ficará sob custódia pelo menos até amanhã. Na entrevista, Assange negou as acusações de espionagem e crimes sexuais.
“A alegação de estupro é falsa e vai acabar se extinguindo quando os fatos reais vierem à tona”, disse. Ele ainda explicou que o que seu site faz não é espionagem. “O WikiLeaks recebe material de ‘whistle-blowers’ (pessoas que denunciam algo errado onde trabalham) e jornalistas e os entrega ao público. Nos acusar de espionagem quer dizer que teríamos de trabalhar ativamente para adquirir o material e o repassar a um estrangeiro.”
Natália conta que, durante a entrevista, “ele estava bastante irritado” por causa das retaliações das empresas ao site. A Amazon suspendeu a hospedagem, e o PayPal cancelou a conta que o site usava para coletar fundos. “Mas ele também não é de perder a cabeça. Ele simplesmente põe a cabeça dele e de outros membros para funcionar a bolar o próximo passo”, descreve Natália.
Antes do vazamento, a jornalista conta que o pessoal de dentro do WikiLeaks sabia que algo grande estava por vir. “Os colaboradores tiveram acesso ao material antes do lançamento. Todos sabiam que era muito relevante e potencialmente bombástico”. Ela conta que Assange a procurou porque sabia que o Brasil “é uma referência para quem luta por software livre ou trabalha com cultura digital”. “O WikiLeaks me perguntou se eu tinha interesse em participar do projeto, lendo os documentos, elaborando uma estratégia de divulgação aqui no Brasil e, principalmente, estudando os documentos para fazer matérias em português.” Os documentos vazados falam sobre a gestão Lula entre 2003 e 2010. “Até agora o público pôde ver casos de lobby a favor de empresas americanas, como os EUA procuram usar a proximidade com o ministro da Defesa e o chefe das Forças Armadas, como o governo esconde que faz operações de contraterrorismo, e que os EUA pretendem lucrar com a segurança nas Olimpíadas”, conta a jornalista.
Ela já imaginava que o vazamento teria uma grande repercussão, mas não tinha ideia do tamanho da reação dos EUA, que responderam com pressão sobre as empresas, bloqueio de fundos e ameaças a Assange. “Poxa, isso só mostra que eles não sabem como lidar com algo que é novo”, diz. O WikiLeaks é um opositor inédito e está fora dos enquadramentos legais normais. Por isso, Natália acredita que os vazamentos já estão mudando a realidade. “Ficam tentando arrumar um conceito penal para poder dizer que o que o WikiLeaks – e o Julian especificamente – faz é crime. Mais que o conteúdo dos telegramas em si, o desespero dos EUA vem de não saber como lidar com esse conceito de transparência radical possibilitada pela internet”, reflete.

domingo, 12 de dezembro de 2010

O mundo, depois de Julian Assange

Reproduzo artigo de Mauro Santayana, publicado no sítio do Jornal do Brasil:

“Todos os que sabem escrever e manipular um computador são cidadãos, que são mais que jornalistas.”

O presidente Lula e o primeiro-ministro Putin tiveram o mesmo discurso, ontem [9/12], em defesa de Julian Assange, embora com argumentos diferentes. Lula foi ao ponto: Assange está apenas usando do velho direito da liberdade de imprensa, de informação. Não cabe acusá-lo de causar danos à maior potência da História, uma vez que divulga documentos cuja autenticidade não está sendo contestada. Todos sabem que as acusações de má conduta em relacionamento consentido com duas mulheres de origem cubana, na Suécia, são apenas um pretexto para imobilizá-lo, a fim de que outras acusações venham a ser montadas, e ele possa ser extraditado para os Estados Unidos.

O que cabe analisar são as consequências políticas da divulgação dos segredos da diplomacia ianque, alguns deles risíveis, outros extremamente graves. Ontem [9/12], em Bruxelas, o chanceler russo Sergei Lavrov comentava revelações do WikiLeaks sobre as atitudes da Otan com relação a seu país: enquanto a organização, sob o domínio de Washington, convidava a Rússia a participar da aliança, atualizava seus planos de ação militar contra o Kremlin, na presumida defesa da Polônia e dos países bálticos. Lavrov indagou da Otan qual é a sua posição real, já que o que ela publicamente assume é o contrário do que dizem seus documentos secretos. Moscou foi além, ao propor o nome de Assange como candidato ao próximo Prêmio Nobel da Paz.

O exame da história mostra que todas as vezes que os suportes da palavra escrita mudaram, houve correspondente revolução social e política. Sem Guttenberg não teria havido o Renascimento; sem a multiplicação dos prelos, na França dos Luíses, seria impensável o Iluminismo e sua consequência política imediata, a Revolução Francesa.

A constatação do imenso poder dos papéis impressos levou a Assembleia Constituinte aprovar o artigo XI da Declaração dos Direitos do Homem e do Cidadão, logo no início da Revolução, em agosto de 1789. O dispositivo do núcleo pétreo da Constituição determina que todo cidadão tem o direito de falar, escrever e imprimir com toda liberdade. As leis punem os que, mentindo, atingem a honra alheia. A liberdade de imprensa, sendo dos cidadãos, é da sociedade. Das sociedades nacionais e, em nossa época de comunicações eletrônicas e livres, da sociedade planetária dos homens.

É surpreendente que, diante dessa realidade irrefutável, jornalistas de ofício queiram reivindicar a liberdade de imprensa (vocábulo que abarca, do ponto de vista político, todos os meios de comunicação) como monopólio corporativo. A internet confirma a intenção dos legisladores franceses de há 221 anos: a liberdade de expressão é de todos, e todos nós somos jornalistas. Basta ter um endereço eletrônico. As pesadas e, relativamente caras, máquinas gráficas do passado são hoje leves e baratíssimos notebooks, e de alcance universal.

É sempre citável a observação de Isidoro de Sevilha, sábio que marcou o sétimo século, a de que “Roma não era tão forte assim”. Bradley Manning e Julian Assange estão mostrando que Washington – cujo medo é transparente em seus papéis diplomáticos – não é tão poderosa assim. É interessante registrar que o nome de Santo Isidoro de Sevilha está sendo sugerido, por blogueiros católicos, como o padroeiro da internet.

Os jornalistas devem acostumar-se à ideia de renunciar a seus presumidos privilégios. Todos os que sabem escrever e manipular um computador são cidadãos, e ser cidadão é muito mais do que ser jornalista. São esses cidadãos que, na mesma linha de Putin e Lula, se mobilizam, na ágora virtual, para defender Assange, da mesma forma que se mobilizaram em defesa da mulher condenada à morte por adultério. O mundo mudou, mas nem todos perceberam essa mudança.

segunda-feira, 6 de setembro de 2010

Jornalismo B: O povo não é bobo, ou #dilmafactsbyfolha

O grito de guerra “o povo não é bobo, abaixo a Rede Globo” agora precisa de uma nova rima. Parte da militância política brasileira encontrou no jornal Folha de S. Paulo o alvo preferencial para críticas relacionadas à cobertura eleitoral em 2010. Após seguidas manchetes contrárias a Dilma Rousseff, candidata do PT à presidência da República, a Folha virou protagonista de uma forte mobilização de piadas no Twitter.

Inspirado no “Chuck Norris Facts”, que atribuía grandes feitos ao ator, está circulando no Twitter o “Dilma Facts by Folha”. São manchetes que, segundo os twitteiros, a Folha de S. Paulo faria para atacar Dilma. Coisas do tipo “Quando Dilma mergulhou no Mar Morto ele não estava nem doente”, ou “Adolescente grávida afirma: o pai é Dilma”, ou ainda “Dilma inventou a vuvuzela”. A hashtag (expressão) #dilmafactsbyfolha ficou boa parte do domingo em primeiro lugar no Trending Topics Brasil, que relaciona as expressões mais citadas no Twitter, e nessa segunda-feira continua entre as 10.

A reação da internet à cobertura que a Folha vem fazendo deve servir de alerta aos grandes veículos da imprensa brasileira: eles estão sendo fiscalizados. Ainda que tenham conseguido impedir até agora o avanço de qualquer proposta de controle social da mídia, não estão conseguindo barrar a força da internet, que tende a crescer e chegar às ruas em pouco tempo.

A imagem da Folha está sendo arranhada, isso é fato. Por causa de sua clara tendência a acusar Dilma e proteger o candidato do PSDB, José Serra, o jornal vem sofrendo pesadas críticas. Começa a ser construída na web uma imagem da Folha como pouco mais que um veículo a serviço do PSDB. O jornal tem muitas qualidades, é inegável, e essa imagem traduz apenas uma das facetas da Folha, mas é a que está começando a impregnar o imaginário.

A Folha, como os outros grandes veículos, precisa ficar atenta. Como anos atrás o grito de “abaixo a Rede Globo” ganhou as ruas, a comoção popular contra quem manipular as informações tende a crescer. A internet, aos poucos, vai tomar outros espaços, e tende a transferir seu potencial mobilizador para fora dos computadores. Se o fim dos jornais impressos não é uma realidade, o enfraquecimento dos veículos que não prestarem informações confiáveis parece ser o caminho que se avizinha. Agora, todos somos fiscais da mídia.


Do Jornalismo B

sexta-feira, 25 de junho de 2010

A nova Era Dunga: o fim do besteirol esportivo

Por Leandro Fortes

Foi na Copa do Mundo de 1986, no México, com Fernando Vanucci, então apresentador da TV Globo, que a cobertura esportiva brasileira abandonou qualquer traço de jornalismo para se transformar num evento circense, onde a palhaçada, o clichê e o trocadilho infame substituíram a informação, ou pelo menos a tornaram um elemento periférico. Vanucci, simpático e bonachão, criou um mote (“alô você!”) para tornar leve e informal a comunicação nos programas esportivos da Globo, mas acabou por contaminar, involuntariamente, todas as gerações seguintes de jornalistas com a falsa percepção de que a reportagem esportiva é, basicamente, um encadeamento de gracinhas televisivas a serem adaptadas às demais linguagens jornalísticas, a partir do pressuposto de que o consumidor de informações de esporte é, basicamente, um retardado mental. Por diversas razões, Vanucci deixou a Globo, mas a Globo nunca mais abandonou o estilo unidunitê-salamê-minguê nas suas coberturas esportivas, povoadas por sorridentes repórteres de camisa pólo colorida. Aliás, para ser justo, não só a Globo. Todas as demais emissoras adotaram o mesmo estilo, com igual ou menor competência, dali para frente.

Passados quase 25 anos, o estilo burlesco de se cobrir esporte no Brasil passou a ser uma regra, quando não uma doutrina, apoiado na tese de que, ao contrário das demais áreas de interesse humano, esporte é apenas uma brincadeira, no fim das contas. Pode ser, quando se fala de handebol, tênis de mesa e salto ornamental, mas não de futebol. O futebol, dentro e fora do país, mobiliza imensos contingentes populacionais e está baseado num fluxo de negócios que envolve, no todo, bilhões de reais. Ao lado de seu caráter lúdico, caminha uma identidade cultural que, no nosso caso, confunde-se com a própria identidade nacional, a ponto de somente ele, o futebol, em tempos de copa, conseguir agregar à sociedade brasileira um genuíno caráter patriótico. Basta ver os carros cobertos de bandeiras no capô e de bandeirolas nas janelas. É o momento em que mesmos os ricos, sempre tão envergonhados dos maus modos da brasilidade, passam a ostentar em seus carrões importados e caminhonetes motor 10.0 esse orgulho verde-e-amarelo de ocasião. Não é pouca coisa, portanto.

Na Copa de 2006, na Alemanha, essa encenação jornalística chegou ao ápice em torno da idolatria forçada em torno da seleção brasileira penta campeã do mundo, então comandada pelo gentil Carlos Alberto Parreira. Naquela copa, a dominação da TV Globo sobre o evento e o time chegou ao paroxismo. A área de concentração da seleção tornou-se uma espécie de playground particular dos serelepes repórteres globais, lá comandados pela esfuziante Fátima Bernardes, a produzir pequenos reality shows de dentro do ônibus do escrete canarinho. Na época, os repórteres da Globo eram obrigados a entrar ao vivo com um sorriso hiperplastificado no rosto, com o qual ficavam paralisados na tela, como em uma overdose de botox, durante aqueles segundos infindáveis de atraso de sinal que separam as transmissões intercontinentais. Quatro anos antes, Fátima Bernardes havia conquistado espaço semelhante na bem sucedida seleção de Felipão. Sob os olhos fraternais do presidente da CBF, Ricardo Teixeira, foi eleita a musa dos jogadores, na Copa de 2002, no Japão. Dentro do ônibus da seleção. Alguém se lembra disso? Eu e a Globo lembramos, está aqui.

O estilo grosseiro e inflexível de Dunga desmoronou esse mundo colorido da Globo movido por reportagens engraçadinhas e bajulações explícitas confeitadas por patriotadas sincronizadas nos noticiários da emissora. Sem acesso direto, exclusivo e permanente aos jogadores e aos vestiários, a tropa de jornalistas enviada à África do Sul se viu obrigada a buscar informações de bastidores, a cavar fontes e fazer gelados plantões de espera com os demais colegas de outros veículos. Enfim, a fazer jornalismo. E isso, como se sabe, dá um trabalho danado. Esse estado de coisas, ao invés de se tornar um aprendizado, gerou uma reação rançosa e desproporcional, bem ao estilo dos meninos mimados que só jogam porque são donos da bola. Assim, o sorriso plástico dos repórteres e apresentadores se transformou em carranca e, as gracinhas, em um patético editorial.

Dunga será demitido da seleção, vença ou perca o mundial. Os interesses comerciais da TV Globo e da CBF estão, é claro, muito acima de sua rabugice fronteiriça e de sua saudável disposição de não se submeter à vontade de jornalistas acostumados a abrir caminho com um crachá na mão. Mas poderá nos deixar de herança o fim de uma era medíocre da crônica esportiva, agora defrontada com um fenômeno com o qual ela pensava não mais ter que se debater: o jornalismo.

sábado, 13 de junho de 2009

Brasília, eu vi - Blog da Petrobrás


A criação do Blog da Petrobras é um ponto de inflexão nas relações da mídia com as fontes, embora tenha sido criado em meio a um ambiente de conflito decorrente da malfadada CPI da Petrobras, no Senado Federal. Mais do que uma discussão sobre liberdade de imprensa e o direito de sigilo nas relações entre jornalistas e fontes, a criação do blog suscita uma reflexão muito mais profunda porque, a meu ver, ele será lembrado como marco histórico, no Brasil, do fim do jornalismo diário impresso tal qual o conhecemos e de todas as idiossincrasias induzidas e adquiridas nas redações brasileiras ao longo dos últimos 50 anos. Em outras palavras, a fórceps e sob bombardeio, o Blog da Petrobras decretou o fim de expedientes obsoletos e, muitas vezes, desonestos, de apuração, edição e publicação de matérias jornalísticas. Colocou o jornal de papel e sua superada pretensão informativa na mesma estante de velharias do século XX onde figuram, lado a lado, a televisão a válvula, a geladeira a querosene e o platinado.

Ao tornar visível e, por isso mesmo, vulnerável, a rotina de apuração dos jornalistas, o Blog da Petrobras quebrou um falso pacto de cooperação, denunciado curiosamente de “vazamento de informações sigilosas”, sobre o qual pairava a seguinte regra mínima: eu pergunto, mas eu escolho o que você responde, se você não gostar, mande uma carta à redação, reze para ela ser publicada (na íntegra) ou vá queixar-se ao bispo. Primeiro, não há relação de sigilo em entrevista, muito menos com relação a perguntas feitas por escrito por repórteres. Não sei da onde tiraram isso. Quando o jornalista se dispõe a fazer perguntas por e-mail, não pode esperar outra coisa senão publicidade de um registro capaz de ser compartilhado, em tese, com milhões de pessoas. Se, nesse e-mail, ele passa informações exclusivas da apuração, tem que estar disposto, também, a correr esse risco. Há, no mundo todo, um exército bem pago de assessores de imprensa sendo treinado, diuturnamente, para desmontar pautas jornalísticas, minimizá-las o impacto e, principalmente, fazer um trabalho de contra-inteligência capaz de neutralizar o poder de fogo dos repórteres. E isso não é novidade. A novidade é a internet.

Ao invés de ficar choramingando em editoriais saudosos dos tempos de antanho, os jornais deveriam, finalmente, prestar atenção ao que está acontecendo no mundo, inclusive nas salas de aula desses meninos aos quais se pretende negar o diploma de jornalismo, uma, duas, três, dez gerações à frente. Aliás, tem coisa mais obsoleta, triste e anacrônica do que os editoriais da imprensa brasileira? Aliás, o que é um editorial senão o blog mais antigo e exclusivo do mundo, pelo qual os barões da imprensa sempre expressaram suas opiniões, livres, no entanto, do incômodo das caixas de comentários? O Blog da Petrobras é justamente isso, o anti-editorial, o contraponto imediato, em tempo real, às chamadas “linhas editoriais” dos veículos de comunicação que, no fim das contas, acabam por contaminar o ofício do jornalismo, submetendo jornalistas ao oficialismo privado dos aquários das redações, cada vez mais descolados da nova realidade ditada pela internet, pela blogosfera e do impressionante e muito bem vindo controle social trazido pela interatividade on line.

Foi um editorial da Folha de S.Paulo, aquele da “Ditabranda”, que deixou no cio a serpente que pariu o Blog da Petrobras. Foi a partir daquela analogia infeliz, turbinada por ofensas gratuitas aos que dela discordaram, que a blogosfera passou oficialmente a servir de espaço livre de direito de resposta, na íntegra, dos ofendidos. O rastilho digital daquela polêmica provocou um dano permanente na credibilidade do jornal, obrigado, a seguir, a desencadear uma série de envergonhados expedientes de capitulação. O legado da discussão, no entanto, foi muito maior. Ainda que agregados de maneira informal, os blogs passaram a ser uma rede de “grilos falantes”, para usar uma expressão empregada pelo jornalista Franklin Martins, da mídia nacional, o escape por onde os rejeitados pelas seções de cartas puderam, finalmente, se exprimir livre e integralmente.

As reações “conspirativas”, neologismo cunhado pelo jornalista Luiz Carlos Azenha para unir conspiração com mídia corporativa, ao Blog da Petrobras são, em tudo, emblemáticas. E não têm nada a ver com “vazamento” das perguntas e informações enviadas por e-mail à empresa. Têm a ver com a perda de poder das redações e com a necessidade de se estabelecer outros paradigmas para o jornalismo. Isso inclui o conceito de “furo”, que a vaidade dos jornalistas transformou em coisa mais importante do que o dever de bem informar – de maneira mais ampla e correta possível – a sociedade na qual está inserido. O “furo” é bem vindo, é um diferencial bacana, gera prêmios jornalísticos, aumentos de salário e promoções, mas interessa muito mais a nós, jornalistas, do que ao respeitável público.

O jornalismo brasileiro não carece de exclusividade, mas de honestidade e transparência.

sexta-feira, 27 de fevereiro de 2009

A imprensa ignora o Brasil

Luciano Martins Costa

Já se passou mais de uma semana da divulgação, pela Fundação Getúlio Vargas, da pesquisa sobre a mobilidade social no Brasil. As conclusões são interessantes e deveriam estar inspirando debates muito mais ricos do que tem sido admitido pela imprensa sobre o nosso modelo econômico e as chances brasileiras diante da crise mundial.

Aliás, uma leitura cuidadosa do estudo autoriza a jogar no lixo muita coisa que se tem publicado ultimamente sobre macroeconomia, crise, programas de inclusão social e alguns outros temas muito em voga.

A principal constatação do trabalho da Fundação Getúlio Vargas revela que a crise financeira internacional vem atingindo com mais força as classes de renda A e B do que a classe média e os mais pobres. O indicador desse fenômeno é a mobilidade social: tomados proporcionalmente ao seu peso no total da população, os indivíduos das classes de renda privilegiadas correm mais risco de cair para uma faixa de renda inferior, enquanto os mais pobres continuam ascendendo às classes médias.

Jornalistas distraídos

A explicação oferecida pelos coordenadores do estudo é que as pessoas com renda mais alta estão mais vinculadas aos setores impactados mais fortemente pela crise, como as exportações, os setores financeiro e imobiliário. As dificuldades desses setores não afetam tanto a maioria de classe média porque são menos importantes no Brasil em termos de geração de emprego e de indicadores de renda do que em outros países.

No extremo inferior da pirâmide social, as classes D e E também estão encolhendo, com maior número de famílias ascendendo à classe C. A informação é de extrema relevância e alguns analistas estranham o fato de que a imprensa não tenha manifestado maior interesse pelo assunto.

Um dos aspectos que deveriam estar movimentando os comentadores de jornais e dos noticiários televisivos e radiofônicos é a possibilidade de estarmos assistindo a uma alteração profunda no desenho da pirâmide social do Brasil.

Trata-se de um tema fascinante até mesmo para o jornalista mais distraído, mas parece que a imprensa faz questão de ignorar a realidade brasileira.

Sociedade em mutação

O estudo da Fundação Getúlio Vargas considera que, na última década, as mudanças no modelo econômico brasileiro têm produzido um novo desenho na sociedade, o que acaba por levantar defesas contra a crise internacional.

Algumas iniciativas dos dois governos de Fernando Henrique Cardoso, provendo estabilidade aos negócios, estimulando a exportação e facilitando a criação de um sistema bancário sólido e competitivo, criaram as bases para investimentos produtivos de longo prazo e para a modernização de alguns setores, como o das telecomunicações.

Os projetos sociais de transferência de renda, criados ou ampliados nos dois governos de Luiz Inácio Lula da Silva, tiraram da miséria milhões de famílias e produziram a nova classe média que agora sustenta em grande parte a economia brasileira.

A pesquisa de mobilidade social revela os números dessa mudança de posições. Ela é importante porque pode orientar inovações nas estratégias das empresas e nas políticas públicas. Uma classe ascendente tem sempre um enorme potencial de energia criativa e de consumo.

As primeiras gerações das famílias que ascendem socialmente são um fator importante de desenvolvimento, e, conforme observam os coordenadores da pesquisa, 25% dos brasileiros se encontram nessa condição.

Pauta esquecida

A prosseguir a tendência apontada pelo estudo, teremos em algum tempo não exatamente uma pirâmide social, mas um hectaedro, com uma base e um ápice mais estreitos e uma parte central mais avantajada, formada pela maioria da classe média.

Claro que, diante desses indicadores, tornam-se importantes novos negócios dirigidos a essa nova classe média, o que já vem sendo explorado por algumas empresas. A imprensa também se beneficia desse fenômeno, pois quase todas as empresas jornalísticas têm um título popular, e esse é o nicho que mais cresce no Brasil.

Por todos esses motivos, torna-se incompreensível que a imprensa, de modo geral, tenha se esquivado de se aprofundar no tema.

Texto original do Observatório da Imprensa.