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sexta-feira, 14 de dezembro de 2012

Zé de Abreu aponta trama para Valério falar

:



Via A Justiceira de Esquerda

domingo, 9 de dezembro de 2012

Oscar Niemeyer, a Veja online e o Escaravelho


Oscar Niemeyer, a Veja online e o Escaravelho
Leonardo Boff 
Com a morte de Oscar Niemeyer aos 104 anos de idade ouviram-se vozes do mundo inteiro cheias de admiração, respeito e reverência face a sua obra genial, absolutamente inovadora e inspiradora de novas formas de leveza, simplicidade e elegância na arquitetura. Oscar Niemeyer foi e é uma pessoa que o Brasil e a humanidade podem se orgulhar.
E o fazemos por duas razões principais: a primeira, porque Oscar humildemente nunca considerou a arquitetura a coisa principal da vida; ela pertence ao campo da fantasia, da invenção e do lúdico. Para ele era um jogo das formas, jogado com a seriedade com que as crianças jogam.
A segunda, para Oscar, o principal era a vida. Ela é apenas um sopro, passageira e contraditória. Feliz para alguns mas para as grandes maiorias cruel e sem piedade. Por isso, a vida impõe uma tarefa que ele assumiu com coragem e com sérios riscos pessoais: a da transformação. E para transformar a vida e torná-la menos perversa, dizia, devemos nos dar as mãos, sermos solidários uns para com os outros, criarmos laços de afeto e de amorosidade entre todos. Numa palavra, nós humanos devemos aprender a nos tratar humanamente, sem considerar as classes, a cor da pele e o nível de sua instrução.
Isso foi que alimentou de sentido e de esperança a vida desse gênio brasileiro. Por aí se entende que escolheu o comunismo como a forma e o caminho para dar corpo a este sonho, pois, o comunismo, em seu ideário generoso, sempre se propôs a transformação social a partir das vítimas e dos mais invisíveis. Oscar Niemeyer foi um fiel militante comunista.
Mas seu comunismo era singular: no meu modo de ver, próximo dos cristãos originários pois era um comunismo ético, humanitário, solidário, doce, jocoso, alegre e leve. Foi fiel a esse sonho a vida inteira, para além de todos os avatares passados pelas várias formas de socialismo e de marxismo.
Na medida em que pudemos observar, a grande maioria da opinião pública mundial, foi unânime na celebração de sua arte e do significado humanista de sua vida. Curiosamente a revista VEJA de domingo, dedica-lhe 10 belas páginas. Outra coisa, porém, é a revista VEJA online de 7 de dezembro com um artigo do blog do jornalista Reinado Azevedo que a revista abriga.
Ele foi a voz destoante e de reles mau gosto. Até agora a VEJA não se distanciou daquele conteúdo, totalmente, contraditório àquele da edição impressa de domingo. Entende-se porque a ideologia de um é a ideologia do outro. Pouco importa que o jornalista Azevedo, de forma confusa, face às críticas vindas de todos os lados, procure se explicar. Ora se identifica com a revista, ora se distancia, mas finalmente seu blog é por ela publicado.
Notoriamente, VEJA se compraz em desfazer as figuras que melhor mostram nossa cultura e que mais penetraram na alma do povo brasileiro. Essa revista parece se envergonhar do Brasil, porque gostaria que ele fosse aquilo que não é e não quer ser: um xerox distorcido da cultura norte-americana. Ela dá a impressão de não amar os brasileiros, ao contrário expõe ao ridículo o que eles são e o que criam. Já o titulo da matéria referente a Oscar Niemeyer da autoria de Azevedo, revela seu caráter viciado e malevolente: ”Para instruir a canalha ignorante. O gênio e o idiota em imagens”. Seu texto piora mais ainda quando, se esforça, titubeante, em responder às críticas em seu blog do dia 8/12 também na VEJA online com um título que revela seu caráter despectivo e anti-democrático:”Metade gênio e metade idiota- Niemeyer na capa da VEJA com todas as honras! O que o bloco dos Sujos diz agora?” Sujo é ele que quer contaminar os outros com a própria sujeira de uma matéria tendenciosa e injusta.
O que se quer insinuar com os tipos de formulação usados? Que brasileiro não pode ser gênio; os gênios estão lá fora; se for gênio, porque lá fora assim o reconhecem, é apenas em sua terceira parte e, se melhor analisarmos, apenas numa quarta parte. Vamos e venhamos: Quem diz ser Oscar Niemeyer um idiota apenas revela que ele mesmo é um idiota consumado. Seguramente Azevedo está inscrito no número bem definido por Albert Einstein: ”conheço dois infinitos: o infinito do universo e o infinito dos idiotas; do primeiro tenho dúvidas, do segundo certeza”. O articulista nos deu a certeza que ele e a revista que o abriga possuem um lugar de honra no altar da idiotice.
O que não tolera em Oscar Niemeyer que, sendo comunista, se mostra solidário, compassivo com os que sofrem, que celebra a vida, exalta a amizade e glorifica o amor. Tais valores não cabem na ideologia capitalista de mercado, defendida por VEJA e seu albergado, que só sabe de concorrência, de “greed is good”(cobiça é coisa boa), de acumulação à custa da exploração ou da especulação, da falta de solidariedade e de justiça em nível internacional.
Mas não nos causa surpresa; a revista assim fez com Paulo Freire, Cândido Portinari, Lula, Dom Helder Câmara, Chico Buarque, Tom Jobim, João Gilberto, frei Betto, João Pedro Stédile, comigo mesmo e com tantos outros. Ela é um monumento à razão cínica. Segue desavergonhadamente a lógica hegeliana do senhor e do servo; internalizou o senhor que está lá no Norte opulento e o serve como servo submisso, condenado a viver na periferia. Por isso tanto a revista quanto o articulista revelam um completo descompromisso com a verdade daqui, da cultura brasileira.
A figura que me ocorre deste articulista e da revista semanal, em versão online, é a do escaravelho, popularmente chamado de rola-bosta. O escaravelho é um besouro que vive dos excrementos de animais herbívoros, fazendo rolinhos deles com os quais, em sua toca, se alimenta. Pois algo semelhante fez o blog de Azevedo na VEJA online: foi buscar excrementos de 60 e 70 anos atrás, deslocou-os de seu contexto (ela é hábil neste método) e lançou-os contra Oscar Niemeyer. Ela o faz com naturalidade e prazer, pois, é o meio no qual vive e se realimenta continuamente. Nada de surpreendente, portanto.
Paro por aqui. Mas quero apenas registrar minha indignação contra esta revista, em versão online, travestida de escaravelho por ter cometido um crime lesa-fama. Reproduzo igualmente dois testemunhos indignados de duas pessoas respeitáveis: Antonio Veronese, artista plástico vivendo em Paris e João Cândido Portinari, filho do genial pintor Cândido Portinari, cujas telas grandiosas estão na entrada do edifício da ONU em Nova York e cuja imagem foi desfigurada e deturpada, repetidas vezes, pela revista-escaravelho.
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Oscar Niemeyer e a imprensa tupiniquim
Antonio Veronese
Crítica mesquinha, que pune o Talento, essa ousadia imperdoável de alçar os cornos acima da manada. No Brasil, Talento, como em nenhum outro país do mundo, é indigerível por parte da imprensa, que se acocora, devorada por inveja intestina. Capitania hereditária de raivosos bufões que já classificou a voz de Pavarotti de ruído de pia entupida; a música de Tom Jobim de americanizada; João Gilberto de desafinado e Cândido Portinari de copista…

Quando morre um homem de Talento, como agora o grande Niemeyer, os raivosos bufões babam diante do espelho matinal sedentos de escárnio.
Não discuto a liberdade da imprensa. Mas a pergunta que se impõe é como um cidadão, com a dimensão internacional de Oscar Niemeyer, (sua morte foi reverenciada na primeira página de todos os grandes jornais do mundo) pode ser chamado, por um jornalista mequetrefe, num órgão de imprensa de cobertura nacional, de metade-gênio-metade idiota? Isso após sua morte, quando não é mais capaz de defender-se, e ainda que sob a desculpa covarde, de reproduzir citação de terceiros…
O consolo que me resta é que a História desinteressa-se desses espasmos da estupidez. Quem se lembra hoje dos críticos da bossa nova ou de Villa-Lobos? Ao talento, no entanto, está reservada a reverência da eternidade.
Antonio Veronese (mideart@gmail.com)

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Meu caro Antonio,
Que beleza o seu texto, um verdadeiro bálsamo para os que ainda acreditam no mundo de amanhã nascendo do espírito, da fé e do caráter dos homens de hoje!
Não é toda a imprensa, felizmente. Há também muita dignidade e valor na mídia brasileira. Mas não devemos nos surpreender com a revista semanal. Em termos de vileza, ela sempre consegue se superar. Ela terá, mais cedo ou mais tarde, o destino de todas as iniquidades: a vala comum do lixo, onde nem a história se dará o trabalho de julgá-la.
Os arquivos do Projeto Portinari guardam um sem número de artigos desta rancorosa revista, assim como de outras da mesma editora, sobre meu pai, Cândido Portinari e outros seus companheiros de geração. Sempre pérfidos, infames e covardes, como este que vem agora tentar apequenar um grande homem que para sempre enaltecerá a nossa terra e o nosso povo.
Caro amigo, é impossível ficar calado, diante de tanta indignidade.
Com o carinho e a admiração do
Professor João Candido Portinari (portinari@portinari.org.br)
*Leonardo Boff é filósofo, teólogo, escritor e comissionado da Carta da Terra.
Via SÁTIRO

quarta-feira, 21 de novembro de 2012

Gurgel, Delta e Veja entram na mira da CPI


Justiça e política estão ficando como o futebol: uma caixinha de surpresas. De uma hora para outra, pode mudar tudo.
Ao mesmo tempo em que a Justiça condenava e mandava soltar Carlinhos Cachoeira, na noite de terça-feira era divulgado o explosivo relatório final da CPI que leva o nome do contraventor, pedindo o indiciamento de 45 pessoas por envolvimento no esquema criminoso.
Na lista estão Fernando Cavendish, dono da empreiteira Delta, Policarpo Júnior, diretor da Sucursal de Brasília e redator-chefe da revista "Veja", além dos já esperados nomes de Marconi Perillo, governador tucano de Goiás, e Raul Filho, prefeito de Palmas eleito pelo PT.
A maior surpresa do relatório final da CPI do Cachoeira preparado pelo deputado Odair Cunha (PT-MG) é o pedido ao Conselho Nacional do Ministério Público para que investigue o procurador-geral da República, Roberto Gurgel, acusado de parar os trabalhos da Polícia Federal na Operação Vegas, que flagraram os contatos do contraventor com políticos.
Ao rebater as declarações de Gurgel, que alegou ter paralisado a Vegas para não prejudicar outra operação da PF, a Monte Carlo, responsável pela prisão de Carlinhos Cachoeira e que revelou as relações dele com Demóstenes Torres, senador cassado do DEM de Goiás, Odair Cunha escreveu:
"Não era possível ao Dr. Roberto Gurgel adivinhar que, mais de um ano depois que recebeu os autos da Operação Vegas, alguns promotores iriam requerer à Polícia Federal uma investigação sobre exploração de jogos de azar nesta municipalidade".
Quando a oposição já ameaçava apresentar um relatório paralelo, na reta final a CPI deu um cavalo de pau e acabou incluindo tanto a Delta de Cavendish, maior empreiteira das obras do PAC até o ano passado, como o jornalista Policarpo Júnior, que nem foi convocado para depor.
O relator acusou Policarpo por formação de quadrilha, a partir de uma série aúdios obtidos pela Polícia Federal durante as investigações. "As investigações sobre esse profissisonal nos permitem divisar que Policarpo Júnior não mantinha com Carlos Cachoeira uma vinculação que se consubstanciava apenas na relação de fonte com jornalista".
Em lugar da pizza anunciada, o relatório final que será lido hoje no plenário da CPI e deve ser votado na próxima semana, prenuncia fortes emoções nos poucos dias que faltam para terminar seus trabalhos.
Como diria Cachoeira, que já está em casa, façam suas apostas. Não me arrisco mais a fazer previsões.

terça-feira, 13 de novembro de 2012

Jean Wyllys responde mídia homofóbica: Veja que lixo!




Os argumentos de Guzzo contra o casamento igualitário seriam uma confissão pública de estupidez se não fosse uma peça de má fé e desonestidade intelectual a serviço do reacionarismo da revista Veja

Por Jean Wyllys
Eu havia prometido não responder à coluna do ex-diretor de redação de Veja, José Roberto Guzzo, para não ampliar a voz dos imbecis. Mas foram tantos os pedidos, tão sinceros, tão sentidos, que eu dominei meu asco e decidi responder.

A coluna publicada na edição desta semana do libelo da editora Abril — e que trata sobre o relacionamento dele com uma cabra e sua rejeição ao espinafre, e usa esses exemplos de sua vida pessoal como desculpa para injuriar os homossexuais — é um monumento à ignorância, ao mau gosto e ao preconceito.
Logo no início, Guzzo usa o termo “homossexualismo” e se refere à nossa orientação sexual como “estilo de vida gay”. Com relação ao primeiro, é necessário esclarecer que as orientações sexuais (seja você hétero, lésbica, gay ou bi) não são tendências ideológicas ou políticas nem doenças, de modo que não tem “ismo” nenhum. São orientações da sexualidade, por isso se fala em “homossexualidade”, “heterossexualidade” e “bissexualidade”. Não é uma opção, como alguns acreditam por falta de informação: ninguém escolhe ser homo, hétero ou bi.


O uso do sufixo “ismo”, por Guzzo, é, portanto, proposital: os homofóbicos o empregam para associar a homossexualidade à ideia de algo que pode passar de uns a outros – “contagioso” como uma doença – ou para reforçar o equívoco de que se trata de uma “opção” de vida ou de pensamento da qual se pode fazer proselitismo.
Não se trata de burrice da parte do colunista portanto, mas de má fé. Se fosse só burrice, bastaria informar a Guzzo que a orientação sexual é constitutiva da subjetividade de cada um/a e que esta não muda (Gosta-se de homem ou de mulher desde sempre e se continua gostando); e que não há um “estilo de vida gay” da mesma maneira que não há um “estilo de vida hétero”.
A má fé conjugada de desonestidade intelectual não permitiu ao colunista sequer ponderar que heterossexuais e homossexuais partilham alguns estilos de vida que nada têm a ver com suas orientações sexuais! Aliás, esse deslize lógico só não é mais constrangedor do que sua afirmação de que não se pode falar em comunidade gay e que o movimento gay não existe porque os homossexuais são distintos. E o movimento negro? E o movimento de mulheres? Todos os negros e todas as mulheres são iguais, fabricados em série?
A comunidade LGBT existe em sua dispersão, composta de indivíduos que são diferentes entre si, que têm diferentes caracteres físicos, estilos de vida, ideias, convicções religiosas ou políticas, ocupações, profissões, aspirações na vida, times de futebol e preferências artísticas, mas que partilham um sentimento de pertencer a um grupo cuja base de identificação é ser vítima da injúria, da difamação e da negação de direitos! Negar que haja uma comunidade LGBT é ignorar os fatos ou a inscrição das relações afetivas, culturais, econômicas e políticas dos LGBTs nas topografias das cidades. Mesmo com nossas diferenças, partilhamos um sentimento de identificação que se materializa em espaços e representações comuns a todos.
Desse sentimento que nasce, em muitos (mas não em todas e todos, infelizmente) a vontade de agir politicamente em nome do coletivo; é dele que nasce o movimento LGBT. O movimento negro — também oriundo de uma comunidade dispersa que, ao mesmo tempo, partilha um sentimento de pertença — existe pela mesma razão que o movimento LGBT: porque há preconceitos a serem derrubados, injustiças e violências específicas contra as quais lutar e direitos a conquistar.
A luta do movimento LGBT pelo casamento civil igualitário é semelhante à que os negros tiveram que travar nos EUA para derrubar a interdição do casamento interracial, proibido até meados do século 20. E essa proibição era justificada com argumentos muito semelhantes aos que Guzzo usa contra o casamento entre pessoas do mesmo sexo.
Afirma o colunista de Veja que nós os e as homossexuais queremos “ser tratados como uma categoria diferente de cidadãos, merecedora de mais e mais direitos”, e pouco depois ele coloca como exemplo a luta pelo casamento civil igualitário. Ora, quando nós, gays e lésbicas, lutamos pelo direito ao casamento civil, o que estamos reclamando é, justamente, não sermos mais tratados como uma categoria diferente de cidadãos, mas igual aos outros cidadãos e cidadãs, com os mesmos direitos, nem mais nem menos. É tão simples! Guzzo diz que “o casamento, por lei, é a união entre um homem e uma mulher; não pode ser outra coisa”. Ora, mas é a lei que queremos mudar! Por lei, a escravidão de negros foi legal e o voto feminino foi proibido. Mas, felizmente, a sociedade avança e as leis mudam. O casamento entre pessoas do mesmo sexo já &e acute; legal em muitos países onde antes não era. E vamos conquistar também no Brasil!
Os argumentos de Guzzo contra o casamento igualitário seriam uma confissão pública de estupidez se não fosse uma peça de má fé e desonestidade intelectual a serviço do reacionarismo da revista. Ele afirma: “Um homem também não pode se casar com uma cabra, por exemplo; pode até ter uma relação estável com ela, mas não pode se casar”. Eu não sei que tipo de relação estável o senhor Guzzo tem com a sua cabra, mas duvido que alguém possa ter, com uma cabra, o tipo de relação que é possível ter com um cabra — como Riobaldo, o cabra macho que se apaixonou por Diadorim, que ele julgava ser um homem, no romance monumental de Guimarães Rosa. O que ele, Guzzo, chama de “relacionamento” com sua cabra é uma fantasia, pois falta o intersubjetivo, a reciprocidade que, no amor e no sexo, só é possível com outro ser humano adulto: duvido que a cabra dele entenda o que ele porventura faz com ela como um “relacionamento”.
Guzzo também argumenta que “se alguém diz que não gosta de gays, ou algo parecido, não está praticando crime algum – a lei, afinal, não obriga nenhum cidadão a gostar de homossexuais, ou de espinafre, ou de seja lá o que for”. Bom, nós, os gays e lésbicas, somos como o espinafre ou como as cabras. Esse é o nível do debate que a Veja propõe aos seus leitores.
Não, senhor Guzzo, a lei não pode obrigar ninguém a “gostar” de gays, lésbicas, negros, judeus, nordestinos, travestis, imigrantes ou cristãos. E ninguém propõe que essa obrigação exista. Pode-se gostar ou não gostar de quem quiser na sua intimidade (De cabra, inclusive, caro Guzzo, por mais estranho que seu gosto me pareça!). Mas não se pode injuriar, ofender, agredir, exercer violência, privar de direitos. É disso que se trata.
O colunista, em sua desonestidade intelectual, também apela para uma comparação descabida: “Pelos últimos números disponíveis, entre 250 e 300 homossexuais foram assassinados em 2010 no Brasil. Mas, num país onde se cometem 50000 homicídios por ano, parece claro que o problema não é a violência contra os gays; é a violência contra todos”. O que Guzzo não diz, de propósito (porque se trata de enganar os incautos), é que esses 300 homossexuais foram assassinados por sua orientação sexual! Essas estatísticas não incluem os gays mortos em assaltos, tiroteios, sequestros, acidentes de carro ou pela violência do tráfico, das milícias ou da polícia.
As estatísticas se referem aos LGBTs assassinados exclusivamente por conta de sua orientação sexual e/ou identidade de gênero! Negar isso é o mesmo que negar a violência racista que só se abate sobre pessoas de pele preta, como as humilhações em operações policiais, os “convites” a se dirigirem a elevadores de serviço e as mortes em “autos de resistência”.
Qual seria a reação de todas e todos nós se Veja tivesse publicado uma coluna em que comparasse negros e negras com cabras e judeus com espinafre? Eu não espero pelo dia em que os homens e mulheres concordem, mas tenho esperança de que esteja cada vez mais perto o dia em que as pessoas lerão colunas como a de Guzzo e dirão “veja que lixo!”.

Do Pragmatismo Político

sexta-feira, 5 de outubro de 2012

Casa de Ferreiro

 Leandro Fortes*


A minha pergunta é a seguinte: Lucas Mendes escreveria isso sobre eleições no Brasil? Diria, por exemplo: “O jornal de maior circulação do país é a conservadoraFolha de S.Paulo, pró Serra”? Diria o mesmo sobre O Globo, Estadão e Veja? Ou mesmo sobre a TV Globo?

Respondo: nunca.

A honestidade intelectual utilizada por Lucas Mendes ao falar da imprensa americana e suas relações com os republicanos nos Estados Unidos não se aplica em textos, cá e lá, sobre a política brasileira. Não trata sequer de espectros ideológicos: na imprensa brasileira existem partidos de esquerda, mas nunca de direita.
E isso é um elemento claríssimo de perpetuação da indigência jornalística nacional que se protege dessa crítica, aos berros, sob a falácia permanente da defesa da liberdade de imprensa.

Leandro Fortes. Jornalista, professor e escritor, autor dos livros 'Jornalismo Investigativo', 'Cayman: o dossiê do medo' e 'Fragmentos da Grande Guerra', entre outros. Sua mais recente obra é 'Os segredos das redações'. É criador do curso de jornalismo on line do Senac-DF e professor da Escola Livre de Jornalismo. 

domingo, 23 de setembro de 2012

Roberto Jefferson: “Já já o Civita morre, depois de ter vivido uma vida apodrecida”

O esgoto da imprensa está assanhado. O julgamento do “Mensalão” e as dificuldades eleitorais do PT (que são reais, mas que não apontam para um avanço dos demo-tucanos, nem para a retomada do programa neoliberal defendido pela velha mídia) animaram, especialmente, a revista editada à beira da marginal e também os blogs que chafurdam em torno do esgoto. Esses dias, um desses blogueiros/jornalistas, de longa carreira, chegou a dizer no site da tal revista que Lula morrerá sem saber o que é ter “vergonha na cara”. Disse ainda que Lula é “uma lenda precocemente no ocaso. Daqui a algum tempo, será um asterisco nos livros de história que nunca leu.”
Está um pouco descontrolado (ou excitado) o tal blogueiro/jornalista… A revista também. Numa semana, surge a entrevista sem áudio de Marcos Valério. Na semana seguinte, a revista abre espaço para Bob Jefferson – o pai do “Mensalão”. O objetivo, sempre, é atingir Lula. A obsessão deles é Lula.
Só que Bob Jefferson não gostou de ser usado pela revista de Bob Civita, em mais um ataque a Lula. Desmentiu o teor das informações publicadas. E atacou, com notas duras contra a revista publicada às margens da marginal… Sobrou até para o dono da editora. Confira as frases de Jefferson.
                                                                    BOB CIVITA
“Não é uma pequena revista que mudará minha crença e minha convicção, assim como não consegue, por mais que tente, mudar a verdade. Afinal, ninguém é eterno. Já já o Civita morre, depois de ter vivido uma vida apodrecida”
                                                                  ”MENTIRA”
“A revistinha diz que eu teria confessado o recebimento de R$ 4 milhões para que meu partido, o PTB, “apoiasse o governo Lula”. Mentira! Mentira deslavada e das mais desonestas! O dinheiro que nunca neguei ter sido entregue ao partido, bem porque nunca neguei ou manipulei a verdade como é de praxe a revistinha fazer, não era nem nunca foi para comprar apoio. Era dinheiro para as campanhas eleitorais municipais que então se avizinhavam, como se avizinham a cada quatro anos. Mentira capenga e manca, porque o PTB, então, já era base de apoio do governo Lula e, por isso, não precisava ser vendido. Mentira manca, de tão curtas que são as pernas, porque o PTB nunca esteve à venda. E já que a “Veja” precisa corrigir suas letras, pode também explicar quais os “muitos casos de corrupção” que me atribuiu em mais uma frase desconexa da revista que só serve de ataque gratuito e mentiroso.” 
                                                                    REVISTINHA
“A revistinha suscita rancores e desrespeita a mim, que lhe recebi na minha casa por três longas horas, o STF, que não está a seu serviço ou a serviço de suas versões, e o leitor, que paga por jornalismo e leva versões baratas e distorcidas para casa.”

domingo, 12 de agosto de 2012

Quem mudou, Dilma ou Abril? Ou ambos?

 

Do 247
Dois meses atrás, por meio da revista Exame, a Editora Abril, de Roberto Civita, assumiu sua oposição à política econômica da presidente Dilma Rousseff. Condenava-se, ali, a “mão pesada” da presidente e sua tentativa de baixar na marra juros bancários, preços de energia e até de automóveis. Seria a demonstração de um capitalismo de Estado, à chinesa, marcado pelo intervencionismo na economia.
Neste fim de semana, a revista Veja assume outro extremo. Diz que, com o pacote de concessões de portos, estradas, aeroportos e ferrovias, que será anunciado na quarta-feira, com projetos de mais de R$ 50 bilhões, Dilma estará promovendo um “choque de capitalismo” no País, que atacará de frente o chamado Custo Brasil. Embora lamente que Dilma receie utilizar a palavra privatização, a revista hipotecou apoio público à presidente, por meio do editorial escrito pelo Eurípedes Alcântara.
O fato incontestável é que, em apenas dois meses, a Editora Abril “dilmou”, migrando da rejeição à adesão. Como a imprensa sempre tem razão, talvez Dilma tenha promovido o “choque de capitalismo” porque ouviu os alertas da revista Exame sobre o excesso de intervencionismo. Mas, talvez, a mudança tenha partido do próprio Roberto Civita. Em meio a um escândalo relacionado ao contraventor Carlos Cachoeira, o publisher da Abril, que está acossado e pode vir a ser convocado pela CPI da Operação Monte Carlo, assim como o jornalista Policarpo Júnior, emitiu um sinal importante ao Palácio do Planalto. Algo como: “estamos juntos, somos parceiros”.
Afinal, quem mudou: a Editora Abril, a presidente Dilma ou ambos?
  Via DoLaDoDeLá

terça-feira, 31 de julho de 2012

Jornal Nacional esconde referência a Veja em denúncia de juiz contra Andressa “Cachoeira” Mendonça

Em documento encaminhado nesta segunda-feira ao Ministério Público Federal, o juiz federal Alderico Rocha Santos, que conduz o caso Carlinhos Cachoeira, acusa a esposa do bicheiro, Andressa Mendonça, de usar um dossiê produzido por um repórter da revista Veja para ameaçá-lo. O repórter em questão é Policarpo Júnior, citado em diversas conversas telefônicas de Cachoeira, em uma ligação que já analisamos em outra postagem, e que a revista insiste em negar e os outros veículos da mídia oligárquica insistem em esconder.
Verdadeira ou não – e, dado os envolvidos, não parece mentira – a acusação completa é essa, como explicou o juiz em declaração ao portal R7: “Ela me perguntou se eu já tinha ouvido falar do Policarpo [Júnior]. Disse que ele tinha um dossiê contra mim, mas que tinha ligado pra ele, pedindo pra não divulgar enquanto ela não falasse comigo. (…) Ela pediu várias vezes para eu soltar o Cachoeira, disse que a prisão era injusta e que, se eu o liberasse, o dossiê não seria divulgado”. Mas não foi assim que o Jornal Nacional divulgou a informação.
Em matéria de dois minutos veiculada na edição de hoje do JN, o nome de Policarpo Júnior não é citado em nenhum momento, assim como não é citada a revista Veja. Até mesmo o G1 citou a referência a Policarpo e à Veja, mas o Jornal Nacional preferiu omiti-la, e o fez sem qualquer explicação plausível que não seja o silêncio deliberado, a manipulação proposital e a cumplicidade calculada com a prática de colaboração da Veja com o bicheiro.
O principal telejornal da Rede Globo, ao esconder uma parte fundamental do fato que noticia, presta um serviço à desinformação, e atua no sentido de manter a população apartada da realidade da mídia que a cerca. E não faz isso por acaso, é claro. A velha mídia reproduz o mesmo discurso e atua com as mesmas práticas. É, no fundo, uma só, ainda que esteja distribuída entre meia dúzia de conglomerados que simulam alguma concorrência. Na verdade, não há concorrência, mas trabalho conjunto pela alienação e pela manutenção de seu poder, construído através de parcerias com a Ditadura Militar, durante mais de 20 anos, e com as forças mais obscuras da elite brasileira, até hoje.
Assumir a parceria entre Cachoeira e a Veja seria admitir a podridão que cobre todo esse setor da mídia, o que significa também abrir a todos os ventos o debate sobre a mídia que temos, e, consequentemente, assumir a necessidade de mudança do modelo que a sustenta.

segunda-feira, 28 de maio de 2012

A resposta de Lula às mentiras de Gilmar Mendes e da Veja

Só mesmo a imprensa golpista para achar que tudo ficaria como está e as mentiras inventadas na "reporcagem" semanal iriam passar batidas. A nota oficial é do Instituto Cidadania:

Nota oficial sobre reportagem da revista Veja


Sobre a reportagem da revista Veja publicada nesse final de semana, que apresenta uma versão atribuída ao ministro do STF, Gilmar Mendes, sobre um encontro com o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva, no dia 26 de abril, no escritório e na presença do ex-ministro Nelson Jobim, informamos o seguinte:
1. No dia 26 de abril, o ex-presidente Lula visitou o ex-ministro Nelson Jobim em seu escritório, onde também se encontrava o ministro Gilmar Mendes. A reunião existiu, mas a versão da Veja sobre o teor da conversa é inverídica. “Meu sentimento é de indignação”, disse o ex-presidente, sobre a reportagem.
2. Luiz Inácio Lula da Silva jamais interferiu ou tentou interferir nas decisões do Supremo ou da Procuradoria Geral da República em relação a ação penal do chamado Mensalão, ou a qualquer outro assunto da alçada do Judiciário ou do Ministério Público, nos oito anos em que foi presidente da República.
3. “O procurador Antonio Fernando de Souza apresentou a denúncia do chamado Mensalão ao STF e depois disso foi reconduzido ao cargo. Eu indiquei oito ministros do Supremo e nenhum deles pode registrar qualquer pressão ou injunção minha em favor de quem quer que seja”, afirmou Lula.
4. A autonomia e independência do Judiciário e do Ministério Público sempre foram rigorosamente respeitadas nos seus dois mandatos. O comportamento do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva é o mesmo, agora que não ocupa nenhum cargo público.
Assessoria de imprensa do Instituto Lula

segunda-feira, 21 de maio de 2012

Izaías pergunta: existem ingênuos na política?


Por Izaías Almada
Minha primeira resposta à pergunta acima é dizer sim. Até para me defender de uma possível vontade de dizer não e com isso cair na generalização sobre a atividade exercida profissionalmente por milhares e milhares de vereadores, prefeitos, deputados, senadores, governadores, ministros, juízes e até presidentes da república.
Contudo, os últimos acontecimentos políticos no Brasil provocados pela operação Monte Carlo da Polícia Federal, onde se descobriu, ao que tudo indica, o ninho de um jornalismo marginal e criminoso entre nós, parecem indicar que sim: existem políticos ingênuos. Ou melhor: políticos e não só cuja ingenuidade poderá agora ser posta à prova, tendo estes a oportunidade de comprovarem a sua boa fé ou – e isso será curiosamente revelador – se usam ou usaram os seus cargos e seus mandatos ou eventuais postos de comando em determinadas situações para cometerem – sob o disfarce das leis que os protegem – crimes contra a democracia, o povo e a constituição federal brasileira.
Tomemos aqui alguns exemplos bem recentes para comprovarmos a nossa modesta tese. O caso do procurador geral da república Roberto Gurgel que, ao receber relatório da Polícia Federal da Operação Vegas sobre as contravenções do empresário bicheiro Carlinhos Cachoeira e que não levou à frente o processo. Ingenuidade ou o procurador compactuou com o crime organizado?
Vendo-se confrontado com a possibilidade de ser chamado a comparecer à CPMI Veja/Demóstenes/Cachoeira para explicar a lambança, quis dar a entender que essa possibilidade seria uma tentativa de vingança dos que estão para responder sobre o Mensalão de 2005. Acontece que o Mensalão de 2005, como lembra o jornalista Mino Carta, está por se provar. Mais que isso: existem indícios de que esse mesmo mensalão, que provocou uma grande CPI no Congresso Nacional, com enormes gastos para os cofres públicos, teria sido concebida no vente de uma operação de crime jornalístico entre o bicheiro e a revista VEJA.
O senador Demóstenes Torres, o Catão do cerrado (como é chamado pelo jornalista Paulo Henrique Amorim), homem íntegro e probo até prova em contrário está a poucas horas de depor na CPMI e ali desfazer a cachoeira de denúncias que pesam contra ele. Na sua ingenuidade, talvez, o ínclito senador Demóstenes pensou em ajudar o Brasil a se livrar de homens corruptos, tornando-se amigo do empresário Carlos Cachoeira, num claro exemplo de maquiavelismo e perspicácia política às avessas. Ou seria o contrário?
Nessa cruzada cívica, juntou-se a jornalistas experientes e também ingênuos, pois a melhor maneira de denunciar os crimes – segundo a tese desses mesmos jornalistas – é unir-se aos criminosos, nem que seja por dever de ofício. Afinal, a melhor maneira de surpreender e denunciar um crime é aliar-se ao criminoso. A tese deveria entrar no currículo das escolas como técnica de jornalismo investigativo.
A revista VEJA, exemplo da mais cristalina ética jornalística e grande defensora dos direitos de liberdade de expressão para ela e alguns coleguinhas, escreveu numa de suas últimas capas esta pequena chamada: ‘Como Demóstenes conseguiu enganar tantos em tanto tempo?’ Quanta isenção, não caro leitor? Quanto espírito crítico… Como é que essa tribuna da liberdade de imprensa, essa luz que ilumina a escuridão no país, se deixou enganar, como todos nós, por tanto tempo? Ingênuos, talvez?…
O relator da malfadada CPI do dito mensalão, senador Osmar Serraglio, outro que deve andar com a pulga atrás da orelha, também apareceu esses dias na imprensa para defender o relatório final dos trabalhos que comandou. Claro: como explicar aos seus eleitores e ao país que Caixa 2 não é pagamento de mensalidade a deputados para votarem matérias de interesse do governo? Como explicar que os vídeos com o funcionário dos correios recebendo propina e do funcionário Waldomiro Diniz foram manipulados para uso criminoso contra membros do governo Lula? Como admitir que fossem enganados por uma quadrilha comandada por um bicheiro e manipulados por interesses corporativos apoiados por jornalistas venais e inescrupulosos?
Ninguém gosta de admitir que foi ou é enganado, ainda mais por bandidos. São histórias que me fazem lembrar o velho e surrado golpe do bilhete premiado. A vítima, gananciosa ou ingênua, jamais se perdoará pelo papel ridículo que faz.
Nos exemplos acima citados, e outros poderão ser comprovados no avançar da CPMI-Demóstenes/VEJA/Cachoeira, ficamos todos com a impressão de que boa parte de nossos políticos, alguns empresários, juízes e donos dos principais meios de comunicação do país são pessoas ingênuas, crédulas nas suas próprias boas intenções e de seus pares e sócios no crime, quero dizer, no desvelo para com a nação.
Conclusão? O ingênuo Policarpo, abençoado pelo chefão, telefonou duzentas vezes ao contraventor Cachoeira para ver se ele era mesmo contraventor. Como não encontrou provas disso, defendendo-o publicamente numa outra CPI, arriscou dizer ao chefão que descobriu umas coisinhas nas conversas que poderiam limpar o país da gigantesca corrupção dos bandidos do PT. Publique-se, disse o ingênuo chefão. Televisões ingênuas e jornais ingênuos repercutiram as conversinhas do ingênuo Policarpo com o exemplar cidadão Cachoeira e o país mergulhou num mar de lama nunca dantes visto entre nós.
Olhos atentos e nada ingênuos de homens praticantes de privatarias e outras licitações ilícitas riam-se a bandeiras despregadas, antegozando a volta ao poder. Nessa altura centenas de milhares de ingênuos se deram as mãos no Legislativo, no Judiciário, na Imprensa, na sociedade em geral e, numa demonstração inequívoca de que somos uma nação que preza a democracia em todos os seus pormenores, julgamos e condenamos cidadãos antes que pudessem se defender.
Nada como o passar do tempo. Sempre haverá uma luz no final do túnel e com toda a certeza ela não provém da imprensa calhorda que debocha do ingênuo cidadão brasileiro, pois ingênuos somos nós, contribuintes e eleitores.
A verdadeira democracia não se compraz com a ação deletéria dos pusilânimes. Muito menos com a ação de uma imprensa que se nutre na seiva da mentira e da chantagem, de um Congresso acovardado e de um Judiciário manipulado por interesses criminosos.

segunda-feira, 14 de maio de 2012

Gurgel usa mensalão para se blindar

 

Por Miguel do Rosário do blog O Cafezinho

Uma coisa que os últimos anos têm ensinado à sociedade brasileira é que, numa democracia, não existem cidadãos acima da lei. Eliana Calmon, corregedora do Conselho Nacional de Justiça, surpreendeu o país pela dureza com a qual denunciou “os bandidos de toga”, referindo-se à corrupção no judiciário. Bem, procuradores também usam toga. Operações da Polícia Federal vem desbaratando quadrilhas onde operavam as mais graduadas autoridades do Estado: desembargadores, promotores, juízes, governadores, senadores, delegados, deputados. Todos aqueles cargos pomposos a quem o imaginário popular atribuía quase mítica invulnerabilidade, apareceram na imprensa como acusados por graves crimes de corrupção, foram presos, condenados ou estão vias de sê-lo.
A nossa Justiça, de fato, ainda é muito lenta e tolerante quando se trata de manter criminosos do colarinho branco atrás das grades, mas neste primeiro momento de nossa história é importante comemorarmos o fato de que eles, ao menos, estão sendo devidamente processados, seus bens têm sido bloqueados, perdem suas funções públicas e, entre os políticos, ficam desmoralizados perante seus eleitores.
Aliás, uma das consequências positivas da CPI do Cachoeira poderia ser o encaminhamento de mudanças na lei para endurecer as penas de condenados por corrupção, em especial políticos com mandato popular. Por trás do esquema Cachoeira, onde o tráfico de influência figurava como seu maior capital, há um perigosíssimo atentado à democracia.
Digo isso para avaliar a polêmica envolvendo o procurador-geral da República, Roberto Gurgel, acusado de engavetar, juntamente com sua esposa (sub-procuradora da República), o relatório da Operação Las Vegas, onde apareciam vários indícios importantes de envolvimento do senador Demóstenes Torres com o crime organizado. Eu escrevi aqui que era importante ouvir Gurgel, para que ele pudesse se explicar, visto que a sua argumentação, de que preferiu esperar a conclusão da operação Monte Carlo, desencadeada em seguida, tinha uma lógica, embora eu estranhasse o poder visionário do procurador, de saber, de antemão, que haveriam novas provas contra o senador antes mesmo de iniciada a investigação.
A sua reação descontrolada, no entanto, depõe contra ele. Gurgel jogou pra platéia, ou melhor, pra mídia, ao atribuir a “mensaleiros e protetores de mensaleiros” o esforço para trazê-lo à CPI. Gurgel agiu como o bate-carteira barato que grita “pega ladrão” no meio da muvuca justamente para poder fugir de fininho.
Ora, se Gurgel não tem culpa no cartório, que se defenda com galhardia e firmeza, mas sem perder a postura de imparcialidade que ele tem obrigação de manter. Entrar no jogo político-partidário, como ele fez, constitui uma grave infração ética de sua função. A CPI do Cachoeira produziu tensionamento; os ânimos estão exaltados; Gurgel demonstra portanto uma notável incompetência para os aspectos políticos de seu cargo ao não perceber isso e contribuir para botar fogo na fogueira. Sua estratégia, além disso, é contraproducente, gera ainda mais desconfiança sobre sua idoneidade.
Gurgel deveria entender que é perfeitamente compreensível, dentro da lógica dos trabalhos da CPI, que parlamentares quisessem ouvi-lo, após a acusação, por parte do delegado que chefiou a operação Las Vegas, de que engavetou o inquérito que lhe foi enviado. Ele pode até negar-se a ir, ou negar-se a falar, alegando restrições de ordem constitucional. Quando ele falou que não podia depor, porque isso infringiria o estatuto do MP, eu compreendi perfeitamente. Mas ele não tem o direito de produzir factóides partidários que apenas desviam, como desviaram, o foco da CPI.
Seu proselitismo oportunista, além disso, é mentiroso, visto que até parlamentares da oposição, críticos ferozes do PT, como o Randolfe Rodrigues (PSOL-AP) e Onyx Lorenzoni (DEM-RS) passaram a defender sua convocação. Não são apenas os “protetores de mensaleiros”.
*
A CPI do Cachoeira se tornou uma espécie de Caixa de Pandora, de onde saem todos os males que já acossaram a política brasileira. É um desafio acompanhar a produção industrial de novas denúncias verdadeiras, falsas, factóides, manipulações, contra-informação, cortinas de fumaça, distorções, mentiras, revelações bombásticas. A imprensa “tradicional” não é mais um filtro confiável. Ao contrário, contribui para alimentar a sensação de entropia.
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A defesa da Veja praticada pelos jornalões se dá porque todos estão envolvidos com o esquema Cachoeira, visto que todos foram pautados por reportagens publicadas na revista cuja fonte era a máfia goiana. Nem todos são criminosos, mas ajudaram a alimentar um esquema criminoso.
Pensando bem, a estratégia de Gurgel é a mesma usada ao longo dos anos por Carlinhos Cachoeira. Quer usar a mídia? Use a palavra mensalão, ou mensaleiro, faça qualquer acusação às forças governistas, mesmo que ancorada em escutas ilegais, denúncias falsas e ilações absurdas: você terá a mídia a seus pés, fotos na capa, será louvado em editoriais, e a revista Veja o transformará em paladino da ética (como fez com Demóstenes).
Como sempre haverá denúncias e casos de corrupção num aparelho estatal enorme como é o da União (enorme não por se inchado, mas porque precisa administrar um país de 8 milhões de quilômetros quadrados e 200 milhões de habitantes), basta montar – como fez Cachoeira – um aparelho de investigação paralela, que pratica grampo clandestino e manipula jornalistas e prepara armadilhas para funcionários públicos, para ter a mídia na mão. É como se um traficante da Rocinha montasse um esquema para denunciar, sistematicamente, a venda de drogas no morro do Vidigal. A polícia apareceria todo dia na mídia prendendo um bandido diferente, posando de herói, mas na verdade estaria a serviço de uma gangue rival, que cresceria na esteira do enfraquecimento do adversário.
O problema maior da máfia Cachoeira é justamente esse envolvimento com a alta política e com a mídia. Um grupo de bandidos atuava em favor da oposição, com auxílio consciente e despudorado da revista Veja. Essas alianças entre corrupção, política e mídia, na verdade, é coisa antiga. Nos EUA, há toda uma literatura sobre o tema. Eu mesmo, por coincidência, estou lendo Washington, de Gore Vidal, cujo personagem principal é um senador acossado por um mafioso, que por sua vez é aliado de um poderoso dono de jornais.
Tão ou mais importante do que responsabilizar criminalmente a revista Veja por associar-se ao crime organizado, é desvendar a trama de interesses que liga empresas de mídia, partidos políticos e uma máfia especializada em desviar dinheiro público. É justamente isso o que está acontecendo. Estamos sendo esclarecidos. A trama está sendo dia a dia desvendada. Cachoeira grampeava políticos ou funcionários públicos, às vezes até lhes preparava armadilhas, e depois chantageava autoridades exigindo-lhes que aceitassem pagar adicionais milionários de obras. Devia fazer isso também com juízes, armando flagrantes comprometedores, para lhes obrigar a emitir esta ou aquela liminar, como foi o caso da que forçou o governo do Distrito Federal a aceitar a Delta como responsável pelo serviço de lixo na região.

sábado, 5 de maio de 2012

Sem interesse pelos escândalos



Por Washington Araujo
Reproduzido da Agência Carta Maior
Tempos estranhos esses em que vivemos. Com uma imprensa sempre ávida por escândalos de corrupção, roubalheira e malfeitos, eis que temos a principal revista semanal de informações, Veja, editada pelo Grupo Abril, abordando como principal tema de capa de suas quatro últimas edições assuntos no mínimo amenos, para não dizer insossos do ponto de vista do valor-notícia, da noticiabilidade.
Desde 29 de fevereiro de 2012, quando a Polícia Federal, em conjunto com o Ministério Público Federal em Goiás e com apoio do Escritório de Inteligência da Receita Federal, deflagrou a Operação Monte Carlo, tendo por objetivo desarticular organização que explorava máquinas de caça-níqueis no estado de Goiás, o Brasil que frequenta a grande imprensa não fala de outra coisa: CPI do Cachoeira, gravações comprometedoras envolvendo o senador Demóstenes Torres, o governador goiano Marconi Perillo, a construtora Delta e uma penca de personagens menores, deputados federais, delegados de polícia, arapongas, funcionários públicos. E a cúpula da revista Veja em Brasília, especialmente o jornalista Policarpo Junior.
No rastro dos meliantes aquosos encontramos de tubarões a bagres. Confidências de alcova, palavreado de quinta categoria recheado por imagens escatológicas, tráfico de influência na modalidade “livre, leve e solta”, somas vultosas entrando em várias contas e reduzindo a pó reputações até bem pouco não apenas acima de qualquer suspeita como também incensadas como próceres da moralidade pública, formidável contraponto midiático “a tudo o que aí está”, e certeza de opinião abalizada sobre todo e qualquer assunto que afete à sociedade brasileira – da luta contra os malfeitos na máquina governamental central, federal, até a defesa sempre insustentável da quimera de uma democracia racial que jamais existiu no Brasil, mas que sempre encontrou abrigo nas principais revistas e jornais do país.
Vitrine semanal
A operação Monte Carlo é como suntuoso banquete para 700 talheres. Banquete inesperado e farto para todos os que se acreditam e autodenominam “jornalistas investigativos”. A operação consiste no cumprimento de 82 mandados judiciais, dos quais 37 mandados de busca e apreensão, além de 35 mandados de prisão e 10 ordens de condução coercitiva em cinco estados.
Não obstante a junção de tantos ingredientes e condimentos em uma mesma vasilha que se leva ao fogo, fato é que nossa principal revista semanal de informação – Veja –, decantada em verso e prosa como detentora do jornalismo de mais elevada qualidade jornalística, guardiã de tudo o que já se escreveu sobre ética, moral e bons costumes, pois bem, o carro-chefe da Editora Abril não encontrou qualquer interesse jornalístico no bojo da Monte Carlo, qualquer valor-notícia nas muitas quedas da cachoeira de crimes, ilicitudes, ilegalidades e contravenções que vêm sendo revelados à sociedade brasileira a cada dia e a cada hora. Ao menos o assunto não chegou perto de merecer uma daquelas explosivas capas da revista, sempre tão pródiga em brandir o cassetete da justiça e da moral sobe qualquer sinal de fumaça de corrupção.
Observamos, com misto de perplexidade e desencanto as quatro últimas reportagens de capa da revista Veja. São elas:
1.Edição 2264, de 11/4/2012, capa com “Os filhos da inovação”, tratando dos jovens brasileiros na “vanguarda da revolução digital”. Se optasse por levar à capa uma bela foto do Mosteiro dos Jerônimos e da Torre de Belém, em Lisboa, não faria grande diferença na vida ordenada do sistema solar;
2.Edição 2265, de 18/4/2012, capa com “Mensalão – A cortina de fumaça do PT para encobrir o maior escândalo de corrupção da história do país”. É como se por trás da cortina brilhasse a questão de fundo: “Por que abandonar nosso querido escândalo de estimação por outro que... ainda nem disse a que veio?”;
3.Edição 2266, de 25/4/2012, capa com “Do alto tudo é melhor”, tratando da relação entre altura das pessoas e sucesso na vida. Se decidisse levar à capa uma milionésima imagem do Santo Sudário talvez conseguisse maior interesse por parte de seus leitores. Ao menos, as pessoas prejudicadas verticalmente, como nos ensina os politicamente corretos a denominar as pessoas de baixa estatura, não se sentiriam minimamente ofendidas com tamanha falta de assunto, ou melhor, desfaçatez mesmo;
4.Edição 2267, de 2/5/2012, capa com “As lições das chefonas”, tratando da ascensão das mulheres na vida profissional. Essa reportagem de capa deve ter vencido por alguns míseros pontinhos o outro tema a ser alçado à sua vitrine semanal: a vida e a obra de feminista e compositora brasileira Chiquinha Gonzaga. Talvez fosse dedicado espaço para a candente letra de “Abre Alas”.
Edição imperdível
Não precisa ser doutor honoris causa de Xique-Xique, no interior baiano, para perceber que as quatro capas tentam desfazer esse clima de mal-estar e vívido constrangimento que veio a lume com a revelação de que dezenas e dezenas de ligações telefônicas legalmente gravadas tinham como dialogantes o capo Carlinhos Cachoeira e o chefe da sucursal de Veja em Brasília, Policarpo Junior. A própria revista não hesitou em ver no teor das conversas, bem pouco jornalísticas por sinal, uma nova modalidade de exercer as artes de um vibrante e dinâmico jornalismo investigativo: jornalismo-criminoso, jornalismo-ao-arrepio-da-lei.
Chegam a ser patéticas as muitas investidas da revista visando dar cores de legitimidade ao que nasceu de forma espúria, fruto de delinquência a granel, reunindo em um mesmo affair contraventor dissimulado, altas autoridades do Poder Legislativo e dublês de empresários com escroques, sob a solene inércia de baluartes de nossa grande imprensa, aquela que acredita poder debitar tudo, do lícito ao ilícito, na conta da liberdade de expressão. Não causaria estranheza se legiões de leitores da publicação ingressarem nos tribunais com ações por perdas e danos, por terem comprado como fruto de trabalho investigativo o que não passava de gravações ilegais de conversas privadas, violação do direito humano comezinho à privacidade. Em melhor português, arapongagens.
Mesmo para o leitor ingênuo, parente consanguíneo da velhinha de Taubaté, algumas questões começam a ser formuladas e passam a exigir respostas que não agridam o senso comum:
** Quem pautava quem? A revista pautava Cachoeira ou Cachoeira pautava a revista?
** Como discernir da vasta sequência de escândalos publicados, com afinco, semana a semana, quais eram reais e quais eram pré-moldados, fabricados sob medida para constranger governos, ministros, autarquias e órgãos públicos?
** Não seria o caso de se proceder a uma prova dos noves, qual seja, submeter as matérias publicadas por Veja com os áudios legalmente fornecidos pela Operação Monte Carlo, relacionando os argumentos escritos com os contextos, as falas e as estratégias criminosas abordadas na conversas do submundo de Carlinhos Cachoeira?
** Desde quando tem sido este o expediente utilizado pela revista Veja para influir na vida política e social do Brasil? Um jornalista pode ser comparado a uma autoridade policial dentro de um Estado de direito? É lídimo construir reportagens (e conspirações) de natureza política a partir de informações obtidas de forma criminosa?
** Notícias plantadas, ardilosamente publicadas e tendo como origem pessoas que se locupletam com vantagens indevidas e que fazem do crime uma profissão, merecem livre e completo acesso aos meios de comunicação em uma sociedade democrática?
** Estarão em pleno funcionamento no Brasil outras redes criminosas que conseguem pautar órgãos de comunicação para atender aos seus interesses, sempre escusos e inconfessáveis, e que ainda não foram objeto das garras da lei?
Algumas dessas questões têm tudo para compor uma edição especial – e imperdível – de qualquer revista de informação semanal que se preze. Porque existem fronteiras que não podem nem devem ser rompidas.
***
[Washington Araújo é jornalista e escritor; mantém o blog http://www.cidadaodomundo.org]

Publicado no Observatório da Imprensa

sexta-feira, 4 de maio de 2012

Trevas ao meio-dia, editorial da Carta Capital sobre a Veja, por Mino Carta

Por que a mídia nativa fecha-se em copas diante das relações entre Carlinhos Cachoeira e a revista Veja? O que a induz ao silêncio? O espírito de corpo? Não é o que acontece nos países onde o jornalismo não se confunde com o poder e em vez de servir a este serve ao seu público. Ali os órgãos midiáticos estão atentos aos deslizes deste ou daquele entre seus pares e não hesitam em denunciar a traição aos valores indispensáveis à prática do jornalismo. Trata-se de combater o mal para preservar a saúde de todos. Ou seja, a dignidade da profissão.
O Reino Unido é excelente e atualíssimo exemplo. Estabelecida com absoluta nitidez a diferença entre o sensacionalismo desvairado dos tabloides e o arraigado senso de responsabilidade da mídia tradicional, foi esta que precipitou a CPI habilitada a demolir o castelo britânico de Rupert Murdoch. Isto é, a revelar o comportamento da tropa murdoquiana com o mesmo empenho investigativo reservado à elucidação de qualquer gênero de crime. Não pode haver condão para figuras da laia do magnata midiático australiano e ele está sujeito à expulsão da ilha para o seu bunker nova-iorquino, declarado incapaz de gerir sua empresa.
O Brasil não é o Reino Unido, a gente sabe. A mídia britânica, aberta em leque, representa todas as correntes de pensamento. Aqui, terra dos herdeiros da casa-grande e da senzala, padecemos a presença maciça da mídia do pensamento único. Na hora em que vislumbram a chance, por mais remota, de algum risco, os senhores da casa-grande unem-se na mesma margem, de sorte a manter seu reduto intocado. Nada de mudanças, e que o deus da marcha da família nos abençoe. A corporação é o próprio poder, de sorte a entender liberdade de imprensa como a sua liberdade de divulgar o que bem lhe aprouver. A distorcer, a inventar, a omitir, a mentir. Neste enredo vale acentuar o desempenho da revista Veja. De puríssima marca murdoquiana.
Não que os demais não mandem às favas os princípios mais elementares do jornalismo quando lhes convém. Neste momento, haja vista, omitem a parceria Cachoeira-Policarpo Jr., diretor da sucursal de Veja em Brasília e autor de algumas das mais fantasmagóricas páginas da semanal da Editora Abril, inspiradas e adubadas pelo criminoso, quando não se entregam a alguma pena inspirada à tarefa de tomar-lhe as dores. Veja, entretanto, superou-se em uma série de situações que, em matéria de jornalismo onírico, bateram todos os recordes nacionais e levariam o espelho de Murdoch a murmurar a possibilidade da existência de alguém tão inclinado à mazela quanto ele. E até mais inclinado, quem sabe.
O jornalismo brasileiro sempre serviu à casa-grande, mesmo porque seus donos moravam e moram nela. Roberto Civita, patrão abriliano, é relativamente novo na corporação. Sua editora, fundada pelo pai Victor, nasceu em 1951 e Veja foi lançada em setembro de 1968. De todo modo, a se considerarem suas intermináveis certezas, trata-se de alguém que não se percebe como intruso, e sim como mestre desbravador, divisor de águas, pastor da grei. O sábio que ilumina o caminho. Roberto Civita não se permite dúvidas, mas um companheiro meu na Veja censurada pela ditadura o definia como inventor da lâmpada Skuromatic, aquela que produz a treva ao meio-dia.
Indiscutível é que a Veja tem assumido a dianteira na arte de ignorar princípios. A revista exibe um currículo excepcional neste campo e cabe perguntar qual seria seu momento mais torpe. Talvez aquele em que divulgou uma lista de figurões encabeçada pelo então presidente da República, Luiz Inácio Lula da Silva, apontados como donos de contas em paraísos fiscais.
Lista fornecida pelo banqueiro Daniel Dantas, especialista no assunto, conforme informação divulgada pela própria Veja. O orelhudo logo desmentiu a revista, a qual, em revide, relatou seus contatos com DD, sem deixar de declinar-lhes hora e local. A questão, como era previsível, dissolveu-se no ar do trópico. Miúda observação: Dantas conta entre seus advogados, ou contou, com Luiz Eduardo Greenhalgh e Márcio Thomaz Bastos, e este é agora defensor de Cachoeira. É o caso de dizer que nenhuma bala seria perdida?
Sim, sim, mesmo os mais eminentes criminosos merecem defesa em juízo, assim como se admite que jornalistas conversem com contraventores. Tudo depende do uso das informações recebidas. Inaceitável é o conluio. A societas sceleris. A bandidagem em comum.


segunda-feira, 16 de abril de 2012

“Veja” parece japonês perdido no mato




por Rodrigo Vianna
Meu médico recomendou dieta. E evitar estresse. Por isso, abstive-me da leitura de ”Veja” no fim-de-semana. Foi um erro. Era chance de desopilar o fígado. Até pelo humor.
Recebo dos leitores, desde sábado, trechos da “reportagem”. Na abertura de um dos parágrafos, parece haver uma metáfora colossal sobre “formigas e feromônios”. Deve ter sido obrada pelos mesmos editores que acreditaram no “Boimate” – piada de primeiro de abril publicada pela revista dos Civita, como se fosse pesquisa séria…
Mas a melhor frase estava logo na abertura: ”Josef Stalin, o ditador soviético ídolo de muitos petistas…”
Hehe.
Os feromônios da Guerra Fria atraem “Veja” até Stálin. É incontrolável. Curioso. Nos anos 90, dizia-se que os esquerdistas que seguiam falando em socialismo não percebiam um fato óbvio: “a Guerra Fria acabou”. O mantra servia pra tudo: “deixa de falar em desigualdade, a Guerra Fria acabou”; ou “não critica o capitalismo, a Guerra Fria acabou”.
Mas a Guerra Fria não acabou para a “Veja”. Stálin ainda é ditador. E ídolo dos petistas… A União Soviética serviu como fantasma durante muitos anos. Agora, a direita precisa reciclar seus fantasmas.
Em que planeta vive a turma da “Veja”. O PT pode ser criticado por muitos motivos. A frouxidão ideológica dos últimos anos é um problema muito mais sério do que o ”apego” a figuras como Stálin ou qualquer outro líder dos velhos tempos da Guerra Fria.  
Há outros trechos do texto - escrito por alguém que transita do medo à raiva, indistintamente – que nos remetem ao glorioso blog do profesor Hariovaldo (anticomunista imaginário que, na segunda década do século XXI, enxerga comunistas anda mais imaginários numa grande conspiração contra os valores ocidentais).
A “Veja” também faz humor. Sem querer. A “Veja” lembra um pouco aqueles japoneses que, anos depois de encerrada a Segunda Guerra, ainda se escondem no meio do mato, nas ilhas mais remotas do Pacífico. Acham que a guerra não acabou. Não importa o que se diga, seguirão combatendo.
Os japoneses que não acreditam no fim da guerra são figuras patéticas, dignas de pena. Mas, com a arma na mão, podem se tornar perigosos. Parece ser o caso da “Veja”. Até quando?
Bob Civita alimentou um bando de tresloucados, durante 1o ou 15 anos. E agora não sabe o que fazer com eles. Seguirão fazendo esse discurso obtuso pra assustar certa classe média. Mas até pra isso é preciso mais categoria. 
Stálin era um homem de ferro, cruel e implacável com os opositores. Teria enviado ao México um agente soviético para matar o rival Trotsky – velho bolchevique exilado pelos stalinistas. Trostsky morreu com um golpe de picareta na cabeça. Terrível.
No caso de “Veja”, a picareta não está fora, mas dentro das cabeças. Jornalistas tresloucados seguem a destruir a reputação daquela que já foi uma revista até importante para a defesa da democracia no Brasil. Isso nos anos 70.
A picaretagem e os banhos de Cachoeira levaram “Veja” para o buraco. E podem conduzir Bob Civita para o depoimento na CPI.