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segunda-feira, 11 de junho de 2012

ZH se convenceu: não houve mensalão


"O que ocorreu, de fato, foi o súbito desnudamento de um esquema de uso de caixa 2 de campanha eleitoral..." - trecho do editorial do jornal Zero Hora (que apoiou o golpe de 1964), publicado na edição do último dia 8 de junho, sexta-feira passada (fac-símile acima).

Quem é o jornal Zero Hora? Pertence ao grupo RBS (leia-se família Sirotsky), formado por um conglomerado de rádios, tevês e jornais do Rio Grande do Sul e Santa Catarina. Trata-se de um grupo de comunicação ilegal, porque infringe a determinação legal que proíbe o monopólio de emissoras em um mesmo território. São retransmissores da programação da TV Globo no RS e SC.

É de registrar a mudança de entendimento do grupo RBS, face ao caso conhecido como "mensalão". Durante sete anos, os órgãos de comunicação deste grupo seguiram o resto da tradicional imprensa brasileira, sempre garantindo que o primeiro governo Lula havia instituído um "esquema de mensalidade a deputados" com a finalidade de garantir plena maioria na votação de projetos do interesse do bloco no poder. Hoje, o jornal ZH volta atrás e admite que houve apenas o "uso de caixa 2 de campanha eleitoral".

Até poucos dias atrás, o grupo RBS era dirigido por um filho do seu fundador, Maurício Sirotsky Sobrinho, quando este cedeu lugar a um sobrinho seu, portanto neto do fundador Maurício. De qualquer forma, parece não haver qualquer relação de causa/consequência na mudança de entendimento sobre os fatos de 2005 e que serão julgados a partir de agosto próximo pelo STF. Ao contrário, o governo do petista Tarso Genro é atacado quase que diariamente pelos órgãos da RBS. É muito comum, as editorias da RBS cobrarem de Tarso todo o contencioso de deficits sociais e de infraestrutura acumulado ao longo de décadas de governos omissos e desinteressados dos seus deveres constitucionais. Recentemente, o jornal ZH estampou como manchete a posição de último lugar do RS no quesito qualidade do ensino médio. O dado em si está correto, entretanto, não é ético e honesto cobrar de um governo que está há poucos meses na administração estadual um contencioso tão antigo.

O motivo desta prática militante e panfletário do grupo RBS é um segredo de polichinelo: a senadora Ana Amélia Lemos (ex-celetista da RBS) é a candidata preferencial deste misto de grupo midiático e partido político conservador ao Palácio Piratini na sucessão de Tarso Genro, em 2014.

O governador Tarso Genro, portanto, que se prepare, a investida demagógica e eleitoreira da RBS só tende a recrudescer.

sexta-feira, 20 de abril de 2012

Vergonhas

  Por Marcel Frison


Em artigo publicado no jornal ZH do dia 13/04/2012, o colunista David Coimbra, remetendo-se à matéria jornalística relativa ao Presídio Central, questiona o Governador Tarso Genro se ele não tem vergonha desta situação. Depois discorre com a elegância literária que lhe é peculiar sobre suas preocupações humanistas a respeito das condições precárias em que vivem os apenados no sistema prisional do RS. Segundo suas palavras: “O Estado que o senhor governa confina seres humanos em masmorras onde fezes e urina escorrem pelas paredes, onde dezenas de pessoas se amontoam em cubículos do tamanho de um banheiro, mal havendo lugar para dormir no chão, onde a sífilis, a hepatite e a AIDS são disseminadas através do estupro ...”
Interessante que os sentimentos humanitários do colunista tem memória seletiva e moral relativa. Ao deparar-se com o artigo, o leitor tem a nítida impressão de que o Central foi fundado no dia 1º de janeiro de 2011, quando Tarso assumiu o Piratini, e já foi construído com excrementos esvaindo-se pelas paredes. No dia 02/01/2011, ao chegarem os primeiros ocupantes do Presídio, inaugurou-se também, como prática cotidiana, o estupro entre os aprisionados. 
A última reforma do Presídio Central foi realizada pelo Governo Olívio, na época a SUSEPE era dirigida por Airton Michels, atual, Secretário Estadual de Segurança Pública. Aliás para rememorar, a gestão de Michels, interrompeu o ciclo de crises e revoltas nos presídios gaúchos que herdamos da era Britto. 
Aquela reforma atingiu 85% das instalações, porém com 08 anos de abandono e descaso, dos Governos Rigotto e Yeda, o trabalho realizado foi completamente perdido. 
A decadência do Central não foi a obra mais eloquente destes governos na gestão do sistema prisional. Olívio e Michels entregaram o sistema para Rigotto com um déficit de 2 mil vagas, Yeda entregou para Tarso com um déficit de 10 mil vagas. 
Esta é uma das pontas do nebuloso iceberg gerado pela inoperância de Rigotto e pela política de ajuste autodenominada Déficit Zero tão propalada por Yeda e comemorada pela mídia em geral. O Zero no saldo das contas públicas significou zero de investimentos em áreas cruciais sob responsabilidade do Estado. Este Zero estoura numa superlotação de 10 mil apenados que vivem miseravelmente nos nossos presídios. O Zero gerou as escolas de lata, a enturmação, a falta de professores e o fechamento de escolas. Quantos milhares de soldados a criminalidade ganhou com esta política? 
Seria o Governo Yeda, um governo “sem-vergonha”? O colunista não aborda esta questão, parece que ele não lembra, não sabe e não viu. 
As vergonhas do sistema prisional do RS foram, para ele, desnudadas somente agora, e atônito, estupefato, indignado encontrou imediatamente um culpado e uma solução.
O culpado aparece explícito: “Governador Tarso Genro o senhor não tem vergonha?”A solução é desenhada, digamos, de forma mais comedida: “ Tempos atrás, surgiu a proposta de privatização dos presídios. Houve todo tipo de argumentos humanitários contra a ideia. Seriam bons argumentos, se os gestores do sistema, entre eles o governador, sentissem vergonha pelo que é perpetrado contra esses homens. Se movidos por essa vergonha, os gestores do sistema agissem com urgência para impedir que o Estado continuasse a supliciar homens sob sua tutela. Como ninguém sente vergonha, nem age, o Estado tem a obrigação de desistir desta tarefa e entregá-la para quem possa cumpri-la a contento...” (grifos meus)
Ou seja, a saída é a privatização, o anacrônico discurso neoliberal volta à tona em meio as brumas de uma prosa rebuscada. 
A velha e carcomida cantilena que reduz o setor público a um pântano de ineficiência e incompetência, ante a apologia da iniciativa privada donde reluz uma eficácia infinita e se constitui como panaceia para todos os nossos males.
Na verdade uma falsa dicotomia derivada de uma análise tortuosa que abstrai o passado, desconsidera as circunstâncias e busca comparar atividades de naturezas completamente distintas, a fim de sustentar uma compreensão, meramente, ideológica. 
Tudo bem se isto não estivesse envolto numa suposta isenção, incansavelmente, reivindicada pelos veículos de comunicação do grupo em que trabalha Coimbra e constituída como uma fortaleza que justifica toda a sorte de ataques na disputa política no Rio Grande. 
Se esta compreensão ideológica não bebesse da mesma vertente que defende a criminalização dos movimentos sociais, a penalização de crianças e adolescentes, o alongamento dos períodos de reclusão, a pena de morte, o armamento da população, e pior, transforma, cotidianamente, a luta pela defesa dos direitos humanos num fantasma que opera subterraneamente a proteção de delinquentes e bandidos.
Na verdade, o ataque a Tarso não é por sua condição de Governador, como o artigo em tela pode sugerir, mas por que em grande medida sua trajetória política voltou-se a promover uma gestão sobre a segurança pública antagônica daquilo que os setores conservadores sustentam. Uma política de segurança pública voltada à prevenção, à proteção das comunidades, à repressão eficiente sobre a criminalidade e com profundo respeito aos direitos humanos.
É evidente que a situação do nosso sistema prisional é caótica, que a superação dos problemas representa um desafio gigantesco e será necessário alcançar recursos vultosos e um trabalho intenso para a sua recuperação. Um trabalho que já iniciou e ao seu tempo trará resultados consistentes. 
O que certamente não contribuirá para a solução é tornar o problema um negócio. A equação sugerida por Coimbra “...desistir desta tarefa e entregá-la para quem possa cumpri-la a contento...”não existe, salvo como uma retórica cínica. O Estado não pode abrir mão da tutela daqueles que pune. Nenhuma empresa terá a prerrogativa de restringir a liberdade ou garantir a segurança nas prisões.
Então do que estamos tratando? Não seria o sonho neoliberal, muitas vezes, acalentado pelo imaginário de filmes de ficção, de modernas e assépticas prisões sustentadas pela exploração da mão de obra lá reclusa? Sem possibilidade de escolha e sob o garrote de um proprietário. Uma “evolução” do atual “suplício medieval” para uma escravidão pós-moderna. De uma vergonha para outra, a primeira perdulária para todos, a segunda lucrativa para poucos. 
O dilema de enfrentar a criminalidade e as suas consequências, numa sociedade profundamente desigual como a nossa, nos exigirá um enorme esforço conjunto, um debate honesto e profundo, que nos ilumine o caminho para as soluções. Será necessário sim, encarar todas as nossas vergonhas.
Inclusive, na toada de David Coimbra, aquela de convivermos com setores da imprensa que tratam assuntos tão delicados e complexos com tamanha superficialidade; que demonstram ávida necessidade de atrelar-se a interesses privados; que se escondem sob o manto de uma imparcialidade autoconcedida e de seu poderio midiático para produzir factoides que lhes incrementam as vendas e são uteis na disputa ideológica a que se dedicam sem tréguas. 
 
 Marcel Frison é membro do Diretório Nacional do PT
 

segunda-feira, 3 de janeiro de 2011

Articulistas de ZH não aceitam que eleição acabou

Tive um impacto ao ler logo após a morte do ditador Pinochet um artigo escrito pelo renomado cirurgião José Camargo tecendo duras críticas à parte da população chilena por ter ido às ruas comemorar a morte do ditador. Naquela ocasião, visivelmente irritado passou um “pito” nos chilenos que “não entenderam a importância de Pinochet em ter livrado o Chile de seu uma nova Cuba”. De quebra ainda lançou farpas contra os admiradores de Fidel Castro. O que me deixou estupefato foi que naquele artigo a questão das torturas e violações dos direitos humanos não foi contemplada pelo articulista. Um médico competentíssimo em transplante de pulmões teceu inúmeras considerações sobre o suposto desenvolvimento econômico na era Pinochet. Talvez, por excesso de trabalho, ou por falta de tempo para revisar seu artigo, os milhares de leitores de Zero Hora não conseguiram saber a opinião de José Camargo sobre as bárbaries praticadas no regime ditadorial chileno.

Em 31 de dezembro de 2010, o renomado cirurgião volta à cena. Ao abordar o tema importantíssimo da educação em seu artigo de ZH demonstra visivel irritação com a popularidade de Lula. “Os políticos que, mandato após mandato, ignoram esta deprimente realidade, porque muitos deles precisam dessa legião de descerebrados como massa de manobra para serem reeleitos, serão implacavelmente julgados pela História. Nenhum país fez, ou fará, a escalada rumo ao desenvolvimento verdadeiro, sem educação! E nenhum governante pode se orgulhar indefinidamente de sua popularidade se a galeria dos aplausos estava ocupada, em sua maioria, pelas vítimas desse descaso constrangedor”

Ao discorrer sobre as agruras da escola pública, comete o pecado da generalização. “A escola pública decadente, com professores desvalorizados, recebe para educar os filhos indesejados de casais pobres, que trazem para este arremedo de ensino cérebros subdesenvolvidos pela fome da infância e cuja incapacidade primária se revela na observação dramática de que mais da metade deles chega à quarta série sem saber ler nem escrever.”

Parece que “filhos indesejados” só acontecem em familias pobres. Talvez o ilustre cirurgião desconheça a relidade que acontece em muitas escolas privadas de Porto Alegre, onde os professores são ofendidos e humilhados por filhos oriundos da classe média e alta. São fatos descritos em noticias de jornal.Seriam “filhos indesejados”?

A aprovação de mais 80% da população em relação ao presidente Lula causa um desconforto em determinados articulistas e colaboradores de ZH. Paulo Brossard, Flavio Tavares, Sergio da Costa Franco, Percival Pugina… A este grupo agora junta-se o cirurgião Camargo. Não se convenceram ainda que a eleição terminou. O terceiro turno só acontecerá em 2014.

Por Lupiscinio Pires

Via RS Urgente

segunda-feira, 27 de dezembro de 2010

O rancor da direita e o colunismo “B” de ZH

Paulo Muzell

Há uns dois meses – na reta final da campanha eleitoral – escrevi neste mesmo espaço um comentário sobre a parcialidade e o mau caratismo do PIG – Partido da Imprensa Golpista -, com destaque especial para a revista Veja, aqui nos pagos reforçada e apoiada pela mídia local, especialmente a ZH. Eles apontaram com toda força suas baterias contra Lula e Dilma. Desesperados ante a derrota eleitoral iminente e a possibilidade de não apenas quatro, mas muito provavelmente de mais oito ou até doze anos de continuidade do PT na presidência, tentaram tudo. Calúnias, dossiês falsos, supostas irregularidades fiscais, não faltou nada. Até uma metáfora de péssimo gosto foi tentada: Veja colocou na sua capa o escudo da República enroscado, ameaçado pelos tentáculos de uma perigosa lula! A democracia sob ameaça!

Pois na paz deste fim de semana natalino, quando ainda ecoam ao longe os ecos dos sinos de Belém, lemos e ouvimos os comentários do PIG sobre os últimos dias e atos da despedida do presidente Lula. Em tempos de conciliação, e apesar de se tratar do presidente mais bem sucedido, popular e querido que este país já teve, em plena despedida, os caras não se controlam. Afinal PIG é PIG, eles trabalham em tempo integral. Não têm o menor pudor de, mais uma vez, mostrar seu ressentimento, sua parcialidade, seu descompromisso com a verdade, seu rancor. É só ligar a tevê (GloboNews, por exemplo), abrir a “Falha de S. Paulo” ou folhear a ZH.

“Ele não é um estadista”, afirma um colunista dominical de ZH, habitué, espécie de editorialista B do jornal, na edição do dia 25. Nele (Lula), “a atração que exerce surge da facilidade com que diz coisas estapafúrdias como se fosse ciência ou verdade.” O colunista, que se intitula jornalista e escritor, compara Lula ao general Figueiredo: os dois se assemelhariam pela dificuldade de controlar o linguajar! Ao fazer essa esdrúxula comparação o colunista confunde “alhos com bugalhos”: ele leu, viu, ouviu, mas não entendeu nada!

Na economia – afirma ele – “o mito Lula não se sustenta em fatos, é repetição de versão triunfalista e de truques numéricos.” Citando sua “guru em economia”, a jornalista Miriam Leitão (ruim, heim?!), apresenta alguns números e dados supostamente negativos do governo Lula. Baixo crescimento do PIB em 2009 – reflexo da crise americana -, desmatamento da Amazônia, que embora reduzido no governo Lula ainda é elevado. E diz que Lula transferiu 30 bilhões/ano para os pobres (bolsa família) e dez vezes mais – 300 bilhões/ano, para ricos via pagamento dos juros da dívida pública. Ele esqueceu de dizer que a dívida pública que originou os elevado pagamento dos juros se multiplicou nos oito anos de FHC, quando tivemos uma taxa SELIC que beirou os 30% ao ano. (hoje ela é de 10,75%!) E arremata criticando os elevadíssimos gastos de propaganda do governo federal, que teriam superado um bilhão de reais em 2010.

Vovó me dizia que pior que uma mentira deslavada é uma meia verdade. Pois vamos responder as meias verdades do editorialista B de ZH. Primeiro: gastar pouco mais de um bilhão por ano em publicidade num orçamento de 900 bilhões, corresponde a 0,12% da despesa total União. Pois saibam que o (des)governo Yeda, que nesses últimos quatro anos administrou um estado falido, só em 2009 gastou mais de 200 milhões em publicidade num orçamento de apenas 18,3 bilhões de receita líquida, correspondendo a 1,1% do orçamento. Vale dizer que, proporcionalmente, Yeda gastou quase dez vezes mais em propaganda do que Lula!

Contrariamente ao que afirmaram o colunista e Miriam Leitão, justamente o forte do governo Lula – além do carisma e da simplicidade de um presidente que sempre se identificou com seu povo -, é justamente a economia. Nos oito anos de seu governo foram criados de 11 milhões de empregos no país (contra menos de 800 mil no igual período de FHC); o salário mínimo subiu de setenta e oito dólares para os atuais 300 dólares, praticamente quadruplicou. As taxas de juros para empréstimos populares consignados se reduziram em dois terços; o volume de crédito familiar subiu de 14% (final do governo FHC), para os atuais 34% do PIB. Além disso, através do PAC foram investidos 500 bilhões de reais, especialmente em infraestrutura. Foram criadas dez novas Universidades Federais e construídas mais de 200 escolas técnicas profissionalizantes. O risco Brasil baixou sensivelmente (de 2.700 pontos com FHC, para 200 com Lula) e foi paga a dívida junto ao FMI, órgão do qual o Brasil é atualmente credor. O dólar caiu de 3,00 para os atuais 1,70 reais. A indústria naval brasileira está sendo reconstruída, a maioria das estradas rodoviárias foram e estão sendo recuperadas. Há, também, vultosos investimentos realizados e programados no sistema ferroviário.

Apesar das aves de mau agouro do PIG, dos editorialistas B, C e D de ZH e de outros pasquins por este Brasil afora, o governo Lula criou bases que tornam possível construir um novo país. Que em 2011 prosseguirá sua a trajetória vitoriosa sob a firme liderança de Dilma Rousseff.


Via RS Urgente

domingo, 19 de dezembro de 2010

A comida não pode ser barata? Uma resposta cúmplice aponta a causa dessa injustiça

Por Antonio Cechin e Jacques Távora Alfonsin

“A sociedade tem de aceitar que a época da comida barata acabou.”
Assim, o presidente da Farsul resumiu sua opinião sobre o preço da comida, na edição de sexta-feira, 17, do jornal Zero Hora.

Para quem ainda passa fome no Brasil, é difícil recordar quando, no passado, a comida foi barata. Em todo o caso, tratando aquela opinião de uma necessidade vital das pessoas, como é a de se alimentar, é conveniente analisar-se o dito no que ele pode revelar sobre as causas de uma injustiça social como essa, pois, pelo jeito, não temos saída e estamos condenados a aceitá-la.

Segundo essa maneira de pensar, cabe uma comparação. Entre o possível prejuízo que a fração de empresários representada pela tal liderança possa ter na venda do indispensável à vida das pessoas, e o que essas possam sofrer por não poderem pagar o que lhes mata a fome, quem não pode sair perdendo é o dono do capital (nem sempre identificado, em tudo, com o “produtor rural”, a economia familiar que o comprove), pois, em todo o contexto explicativo da entrevista, a “comida barata” aparece como prejuízo certo desse personagem.

Como o mercado, onde esse capital se alimenta de dinheiro e não de comida, é um ente abstrato, de humor desconhecido, refletido em expressões tão grandiloqüentes quanto aleatórias do tipo “crise da economia mundial”, “excesso de demanda”, “defesa da liberdade de iniciativa econômica”, “globalização”, as causas dos perversos efeitos da previsão feita pelo presidente da Farsul geralmente ficam isentas de qualquer investigação sancionatória, inclusive do ponto de vista jurídico. A “mão invisível” (Adam Smith) dos seus ciclos econômicos de crise, exploração da natureza e das gentes, trata de imunizá-lo.

Algumas mãos visíveis de defesa desse tipo de irresponsabilidade, todavia, podem ser identificadas, como prova a afirmação categórica do ministro da agricultura, publicada na mesma edição de ZH, segundo a qual “índices de produtividade é assunto encerrado.”

Ali aparece, novamente, o porque de se encerrar esse assunto: “Quem deve definir o que, como e quando o produtor brasileiro vai produzir é o mercado, a visão que ele tem de oportunidades de negócios, perspectivas de preço, demanda do mercado interno e internacional. Não pode ser um ato autoritário, de cima para baixo, dizendo que tem de produzir com tais índices de produtividade. Não é assim que se faz”.

Entre o que a sociedade, portanto, “tem de aceitar” como diz o presidente da Farsul, e a forma como essa aceitação deve ser feita (“assunto encerrado”, “não é assim que se faz”…), como diz o ministro da Agricultura, o Estado, a democracia, os Poderes Públicos, o ordenamento jurídico não têm que dar palpite nem se meter.

A lei e o direito, assim, não têm voz nenhuma aí. Quem deve mandar sobre o que deve se produzir “é o mercado”, “as oportunidades de negócios”, as “perspectivas de preços”, somente o dinheiro, em última análise. Poucas vezes se reconheceu, com tanta clareza e pelas vozes dos seus mais fiéis representes, onde se encontra, efetivamente, o “ato autoritário, de cima para baixo”, a que faz referência o ministro da agricultura. Ele desce do mercado e é indiscutível, fatal, como ato caracteristico de toda ditadura. A/o pobre faminta/o que se submeta a esse ente-ídolo capaz de ditar o que, como, quando e quanto ele deve comer. Não é por acaso, portanto, que acabe morrendo de fome. O Estado e a democracia prossigam fingindo terem o poder de garantir a vida e a liberdade do povo pobre.

Haja fome, então, para suportar uma opressão a esse nível. Ela comprova a maior contradição presente em todo o nosso sistema econômico. Justamente quando a produção rural conquista quantidades de alimento mais do que suficientes para alimentar o povo todo, o chamado “preço de mercado” cai a níveis tão baixos, que somente a retenção dessas quantidades consegue cobrir o custo da produção, seja o real, seja o inventado por quem sabe manipular dados a favor do seu lucro. Aí o Estado deixa de ser o vilão e passa a ser a solução…

Não é preciso ser economista para compreender onde tudo isso vai dar. Esse ar de fatalidade, no qual se inspiram as opiniões das referidas lideranças, não é igual ao do clima, corriqueiramente invocado em favor das alegadas dificuldades pelas quais passam os seus liderados. Que a freqüência desse repetido queixume já alcançou status de segunda natureza, isso não dá para negar, pois não há ano em que ele não repita o seu choro.

Quanto cinismo e hipocrisia se refletem, pois, quando o respeito à lei, especialmente a da segurança nacional, é invocado com veemência, por essas lideranças, sempre que o povo necessitado de casa e comida toma em suas próprias mãos a iniciativa de proclamar que o tal respeito só vale, de fato e materialmente, em favor de minorias historicamente protegidas por uma ideologia sem outras referências que não as da propriedade e as do mercado. Se o destinatário de algumas vantagens previstas em lei é a/o pobre, elas ignoram e desprezam a lei. Essa exige, por exemplo, o cumprimento da função sal da propriedade, “em prol do bem coletivo”, das “necessidades dos cidadãos”, da “erradicação da pobreza”, de “direitos humanos fundamentais”, expressões que não faltam na Constituição Federal, no Estatuto da Terra e no Estatuto da Cidade, entre outras regras jurídicas. Aí, o seu efeito material, concreto, é igual a zero, já que o mercado, pelo menos o refletido nas opiniões publicadas pela ZH, não precisa se preocupar com isso.

O direito à alimentação, por exemplo, somente entrou expressamente na Constituição em fevereiro deste ano (Emenda 64), como se a satisfação de uma necessidade vital como essa, de tão desrespeitada no país, tivesse necessidade de se proclamar em lei, para ser reconhecida como direito. Muito antes, os tratados internacionais que o Brasil assinou, como o dos direitos econômicos, sociais e culturais de 1966, já vinculavam o nosso país, inclusive, à reforma agrária capaz de, no mínimo, atenuar as danosas conseqüências da comida cara.

Os conceitos de “soberania alimentar” e de “segurança alimentar”, capazes de dar sustentação a direitos fundamentais de todo o povo, garantindo-lhe presidir o que plantar, colher, criar e abater, sem correr o risco da fome, pela falta de acesso à terra, devem inverter os sentidos das lições ditadas pelo presidente da Farsul e pelo ministro da Agricultura. O primeiro “tem de aceitar” e o segundo não pode “encerrar assunto” que envolva direitos como os que as suas opiniões desconsideram. O “realismo econômico” da comida cara, sem outro remédio, previsto por eles, se está sendo pelo menos mitigado nos seus danosos efeitos sociais, isso não se deveu ao mercado, lá erguido à panacéia dos nossos males, mas sim aos assentamentos gerados pela reforma agrária, pelo menos os que deram certo justamente por obedecer à outra lógica que não a exclusiva do mercado. Não foi este também que presidiu a política pública de implantação do Fome Zero e do Bolsa Família.

Se existem mais brasileiros saciados, hoje, não devem isso ao mercado. Felizmente, há uma outra economia em curso, familiar, solidária, cooperativa, diferente dessa que acumula na mão de poucos o que falta na mesa de muitos. É por isso que a reforma agrária, esses assentamentos e essas políticas públicas recebem críticas tão ácidas das lideranças latifundiárias e daquelas que, no exercício do Poder Público, lhes são fiéis. “Paternalismos oficiais”, “favelas rurais” costumam aparecer sustentando essas críticas. É que o ídolo ao pé do qual elas se ajoelham, rezam e acendem velas diárias de adoração, não aceita outra forma de produção, distribuição e partilha dos bens indispensáveis à vida das pessoas que não passe pelo seu poder de exclusão, medido de acordo com a capacidade de pagar que cada uma dessas tenha alcançado.

Aquela outra economia sabe que o dinheiro não se come, nem impõe um “ter de aceitar” ou um “assunto encerrado” prepotentes e anti-democráticos como os publicados pela ZH do dia 17. Os direitos e os interesses alheios não lhe são estranhos ou, até, hostis. O que ela mais deseja é a suficiência para todas/os e não somente para um pequeno grupo. Está a serviço de uma justiça social capaz de produzir comida e mesa fartas onde ninguém se assente constrangido pela dor de saber-se estranho à comum união.


Via RS Urgente

quarta-feira, 22 de setembro de 2010

Algumas perguntas que os jornalistas isentos do RS não conseguem responder

Algumas perguntas sem resposta aqui no Rio Grande do Sul:

Liberdade de expressão ameaçada (1): quem são os jornalistas que tinham acesso privilegiado a informações do aparato de segurança do RS?

Liberdade de expressão ameaçada (2): Quanto a ZH e o Correio do Povo receberam em publicidade do Banrisul no gov, Yeda?

Liberdade de expressão ameaçada (3): por que a mídia gaúcha não dedicou uma linha ao “braço midiático da fraude no Detran”?

Liberdade de expressão ameaçada (4): quem são os jornalistas que receberam “senhas” especiais do gov. Yeda?

Os jornalistas auto-intitulados independentes e isentos do Estado não tem resposta a nenhuma das questões listadas acima. Por que será???


Do RS Urgente

segunda-feira, 16 de agosto de 2010

RS Urgente: O passado (e o presente) da imprensa

As empresas de comunicação têm o hábito de se apresentarem como porta-vozes do interesse público. Em que medida uma empresa privada, cujo objetivo central é o lucro, pode ser porta-voz do interesse público? Essas empresas participam ativamente da vida política, econômica e cultural do país, assumindo posições, fazendo escolhas, pretendendo dizer à população como ela deve ver o mundo. No caso do Brasil, a história recente de muitas dessas empresas é marcada pelo apoio a violações constitucionais, à deposição de governantes eleitos pelo voto e pela cumplicidade com crimes cometidos pela ditadura militar. Até hoje nenhuma dessas empresas julgou necessário justificar seu posicionamento durante a ditadura. Muitas delas sequer usam hoje a expressão “ditadura militar” ao se referir aquele triste período da história brasileira, preferindo falar em “regime de exceção”. Agem como se suas escolhas (de apoiar a ditadura) e os benefícios obtidos com elas fossem também expressões do “interesse público”.

Apoiar o golpe militar que derrubou o governo Jango foi uma expressão do interesse público? Ser cúmplice de uma ditadura que pisoteou a Constituição brasileira, torturou e matou é credencial para se apresentar como defensor da liberdade? O silêncio dessas empresas diante dessas perguntas já é uma resposta. O que é importante destacar é que a semente do autoritarismo, da perversidade e da violência prossegue ativa, conforme se viu neste final de semana (e se vê praticamente todos os dias). A revista Época fez o que se espera da Globo, maior empresa midiática do país e um dos pilares de sustentação da ditadura militar: resgatou a agenda da Guerra Fria e destacou na capa o “passado de Dilma”. O ovo da serpente permanece presente na sociedade brasileira. O que deveria ser tema de orgulho para uma sociedade democrática é apresentado por uma das principais revistas do país como motivo de suspeita. Os editores de Época honram assim o passado autoritário e anti-democrático de sua empresa e nos mostram que ele está vivo e atuante.

De maneira similar, aqui no Rio Grande do Sul, o jornal Zero Hora publicou um editorial apoiando a decisão do TCU de questionar as indenizações que estão sendo pagas às vítimas de perseguição e maus tratos durante a ditadura, ou “regime de exceção”, como prefere a publicação. Trata-se, segundo a RBS, de defender um “princípio da razoabilidade”. “Ninguém tem direito a indenizações perdulárias ou a aposentadorias e pensões que extrapolam critérios de prudência, ponderação e equilíbrio”, diz o texto. Prudência, ponderação, equilíbrio e razoabilidade: foram esses os valores que levaram o jornal e sua empresa a cerrarem fileiras ao lado dos militares que rasgaram a Constituição brasileira? Quanto dinheiro os proprietários da RBS ganharam com esse apoio? Não seria razoável e ponderado defender que indenizassem a sociedade brasileira pelo desserviço que prestaram à democracia?

É cansativo, mas necessário relembrar. Sempre. Como a maioria da grande mídia brasileira, a empresa gaúcha apoiou o golpe que derrubou João Goulart. O jornal Zero Hora ocupou o lugar da Última Hora, fechado pelos militares por apoiar Jango. Esse foi o batismo de nascimento de ZH: a violência contra o Estado Democrático de Direito. Três dias depois da publicação do Ato Institucional n° 5 (13 de dezembro de 1968), ZH publicou matéria sobre o assunto afirmando que “o governo federal vem recebendo a solidariedade e o apoio dos diversos setores da vida nacional”. No dia 1° de setembro de 1969, o jornal publica um editorial intitulado “A preservação dos ideais”, exaltando a “autoridade e a irreversibilidade da Revolução”. A última frase editorial fala por si:

“Os interesses nacionais devem ser preservados a qualquer preço e acima de tudo”.


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quarta-feira, 9 de junho de 2010

A falência do discurso que defende a venda de bens públicos para resolver problemas públicos

Do RS Urgente


O texto que abre a coluna de hoje de Rosane de Oliveira em Zero Hora é um bom resumo da falência do discurso que vem, na maior parte do tempo, governando o Rio Grande do Sul nas últimas décadas. A jornalista defende o projeto de venda de uma área equivalente à metade do Morro Santa Tereza, argumentando que somente em um “Estado ideal” a referida área poderia ser preservada como uma área pública, como “uma imensa área verde”, exemplifica. Como o Rio Grande do Sul não é um Estado ideal é preciso passar o terreno nos cobres. O discurso não é novo. Trata-se da mesma lógica argumentativa que justificou, por exemplo, as privatizações implementadas pelo governo Antônio Britto (PMDB). Aliás, para o campo político que governou o Estado em 12 dos últimos 16 anos, a única forma de enfrentar a “falência do Estado” é enfraquecendo ainda mais o Estado, vendendo patrimônio público, desmontando políticas sociais, implantando choques de gestão onde as primeiras vítimas são a educação, a saúde e a segurança. E, quanto mais o Estado fica enfraquecido, mais se usa o discurso da “falência do Estado” para enfraquecê-lo ainda mais.

Depois, diante dos problemas agravados por esse aprofundamento da “falência do Estado” dilui-se a responsabilidade numa história que não tem nomes nem partidos. Os problemas viram problemas de “sucessivas administrações”. Essas administrações só têm nomes e certidão de batismo quando ousam tocar outra música.

“O Rio Grande do Sul não é um Estado ideal. Não se pode mais esperar por soluções mágicas”, escreve a colunista de ZH. Essa é a disjuntiva apresentada como sendo expressão do realismo e do bom senso. Quem se opõe ao projeto da venda de metade do Morro Santa Tereza, por suspeitar que as motivações do projeto têm mais a ver com desejos imobiliários do que com qualquer outra coisa, é adepto de “soluções mágicas”. Só com a venda da área o Rio Grande do Sul encontrará solução para o atendimento de seus adolescentes infratores.

Sem vender o terreno, como financiar a reestruturação? – pergunta Rosane de Oliveira. Ou, dito de outro modo, sem vender patrimônio público como financiar políticas públicas? Esse discurso empoeirado e anacrônico vem sendo repetido monotonamente nas últimas décadas.

quarta-feira, 7 de abril de 2010

Caso Eliseu: reportagem bota o dedo na ferida



Finalmente parece que a imprensa local se livrou da tutela da polícia na cobertura do asssassinato de Eliseu Santos, secretário municipal da Saúde em Porto Alegre.

A Zero Hora desta quarta feira, 7 de abril, bota o dedo na ferida.

Numa reportagem que mobilizou cinco dos seus melhores repórteres, o jornal levanta a história e os descaminhos da empresa de segurança Reação, cujo proprietário é acusado pelo MP de ser o mandante do crime.

O que impressiona é que, com todo o histórico de irregularidades e denúncias envolvendo a empresa, que motivaram até uma sessão da Câmara de Vereadores, a Reação e seu proprietário não tenham sido incluídos nas investigações da polícia.

Fora isso, impressiona também a série de fatos escabrosos que até agora não haviam merecido a devida atenção.

Por exemplo: em 2007, a Reação era uma das 15 empresas de segurança privada denunciadas pelo Conselho de Administração de Defesa da Economia (CADE) pela formação de cartel.

As empresas combinavam os preços para disputar as licitações junto ao setor público – municipal, estadual e federal! – e isso foi provado inclusive por gravações, num processo de 18 mil páginas. As empresas foram multadas em R$ 42 milhões!

A Polícia Federal imediatamente rompeu o contrato que tinha com a Reação, para segurança de sua sede em Porto Alegre. Mas a prefeitura manteve os dois contratos, que só foram rompidos no ano passado, quando estouraram as denúncias de propina.

Nesses três anos (2007, 2008, 2009) a prefeitura pagou R$ 9,5 milhões à Reação . O contrato foi renovado apesar de pareceres jurídicos contrários.

Em seu depoimento na Câmara, em maio do ano passado, Jorge Renato de Mello, o proprietário da Reação (ou que se apresentava como proprietário, porque não está clara a situação societária da empresa) disse coisas espantosas.

Em primeiro lugar confirmou o pagamento de propina. Disse que sofria atrasos nos pagamentos, mas depois que passou a pagar suborno (R$ 10 mil inicialmente) recebia antes de qualquer credor!

Mais: que a firma que venceu a concorrência na qual a Reação perdeu o contrato apresentou documentos adulterados!

Em síntese: independente do desfecho do Caso Eliseu, está aberto o caminho para a CPI na Câmara Municipal e o que surpreende é que a base aliada tenha conseguido evitá-la até agora, dada a gravidade dos fatos.


Do Jornal Já

sexta-feira, 5 de fevereiro de 2010

Direita tem nova estratégia para tentar desmontar Dilma Rousseff


Adeus ao método Zé do Caixão

Os jornais da direita brasileira - o denominado Partido da Imprensa Golpista (PIG) - estão começando uma campanha contra a ministra Dilma Rousseff, virtual candidata do presidente Lula à presidência da Republica em 2010. Quem dá a largada é o jornal Zero Hora, de Porto Alegre, pertencente ao grupo RBS, um dos grandes beneficiários sulinos da ditadura civil-militar que assolou o País de 1964 a 1985.

A abordagem da campanha contra a única candidata da esquerda com vivas chances de vitória parte de uma estratégia oblíqua e por isso sutil e astuciosa. Trata-se de identificar a candidata Dilma como protagonista de cenários de conflito, de situações pregressas de confronto, de perturbações da ordem, de sublevação social, de motim contra o establishment, etc. A idéia é aterrar a classe média e deixar os investidores com as barbas de molho.

A série de reportagens de ZH, denominada "Os infiltrados", publicadas de domingo até ontem (3/2), tem como objetivo isso: reunir elementos objetivos e sobretudo subjetivos que apontem Dilma Rousseff como alguém com um perfil muito próximo de ser considerado como o de uma "terrorista" - na releitura ampla dada ao vocábulo por parte de Bush Jr. e o ultrapragmatismo Neoconservador com viés bélico - fonte na qual dez entre dez jornais brasileiros beberam até a embriaguez.

Em publicidade, essa velha técnica é denominada merchandising editorial (ou tie-in, no jargão norte-americano de publicidade & propaganda). Consiste em diluir o objeto da reportagem, no caso, a desconstrução da imagem da candidata lulista, em uma narrativa com muitos protagonistas, formando um painel abrangente e elucidativo de fatos obscuros ou mal contados pela história recente. O tie-in na publicidade comercial da televisão, por exemplo, é a introdução sutil de uma certa marca de carro na cena onde o mocinho persegue o bandido, ou de um refrigerante na cena doméstica da novela seriada. A força do apelo comercial está precisamente na sutileza e não na ênfase grosseira dos comerciais da publicidade comum.

A técnica da reportagem do tipo tie-in - desfocar para crivar com mais eficácia - está sendo uma das estratégicas do PIG, seus agentes e operadores. Só que ao invés de promover o seu objeto de incidência, como faz a publicidade comercial, no caso do jornalismo ideologizado do PIG, ao contrário, procura rebaixar a sua reputação e prestígio social.

Temos informações seguríssimas que a matéria de Zero Hora é apenas a primeira de outras tantas que estão sendo preparadas pela imprensa direitista brasileira. A revista Veja estaria preparando uma matéria sobre o famoso roubo do cofre do ex-governador Adhemar de Barros, de São Paulo, ocorrido em julho de 1969. A rigor, é a mesma matéria requentada da edição 1.785, de Veja, de 15 de janeiro de 2003. Só que naquela ocasião, o tom do texto era grosseiro, inquisitorial e policialesco, cenas de filme B. Com a nova estratégia tie-in, a matéria deverá ser mais extensa, na forma de um painel (pseudo) histórico, com mais personagens e um tratamento refinado e sutil ao texto.

Será mais para o cinema de Ingmar Bergman do que para o de Zé do Caixão.

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Alguém ainda terá dúvida sobre o caráter orgânico-partidário da grande imprensa brasileira? Um bloco unido, coeso, linha ideológica única, discurso afinado, militância articulada, ações coordenadas, intelectual orgânico de setores da classe média (urbana e rural), classes proprietárias, lúmpen-burguesia, do agronegócio exportador, setores bancário-financeiros, de representantes e associados dos interesses corporativos internacionais, militares com interesses econômicos e negociais, etc.

A prova evidente do caráter partidário da mídia brasuca é a flacidez dos partidos cartoriais tradicionais - PSDB, Democratas, PMDB, PPS, PTB, e outros menos votados.

Quanto mais a mídia faz-se porta-voz potente da direita, mais obsoleta e irrelevante torna a existência das aglomerações parlamentares-eleitorais, que acabam servindo só para registro legal de candidaturas junto à Justiça Eleitoral e valhacouto de lúmpens ascensionais.

Como alguém já disse, acho que foi o Stedile, os parlamentares e políticos profissionais deveriam - em vez de se identificar pelas siglas partidárias - usar jalecos ou macacões (como na Fórmula Um) com as logomarcas dos seus patrocinadores - aos quais dedicam as suas carreiras públicas como zelosos funcionários corporativos subalternos.

Do blog Diário Gauche

sábado, 23 de janeiro de 2010

Diário Gauche: ZH usa bobalhão para fazer campanha eleitoral indireta



Neutralidade da RBS só engana os abobados da enchente

A RBS tem candidato para o Piratini em 2010. O nome do candidato da RBS para o Piratini é José Fogaça (PMDB), atualmente prefeito de Porto Alegre e enrolado numa bobina de denúncias de desvio de recursos da Saúde.

Mas a RBS tem por norma não expressar claramente a sua preferência por tal ou qual candidato. Sempre opta pelo candidato mais de direita, faz campanha indireta, contribui com orientações programáticas, mas jamais abre de forma objetiva a sua preferência e aposta eleitoral. Prefere manter a farsa. Opta pelo chamado "jornalismo isento, apolítico e neutro ideologicamente". Ou seja, decide-se por uma ficção. Quer continuar enganando alguns basbaques de classe média que ainda acreditam em gnomo de jardim eleitoral.

Na edição de hoje, ZH usa a "arte" fuleira de um bobalhão para tentar desconstituir o candidato do PT ao Piratini. Hoje, é esse, amanhã, talvez seja o novo "filósofo" do IAPI, depois, o jornalista-delegado, depois, algum douto jornalista-boleiro, mais adiante, um "especialista" manjado e carimbado...

Coisas da vida.


Do Diário Gauche

terça-feira, 22 de dezembro de 2009

Deus nos livre das bondades de Yeda

As maldades do governo Yeda todo mundo já conhecia. Intransigência ante qualquer contrariedade, arrogância do primeiro escalão, especialmente da própria governadora, perseguição aos movimentos sociais que chegou ao ponto de o Estado assassinar um sem-terra, escolas de lata, corte do ponto de grevistas, balas de borracha contra os que não aceitavam o acúmulo de denúncias de corrupção, impedimento de protestos com escudos e agresões do batalhão de choque, sonegação das verbas constitucionais da saúde, sucateamento dos postos e de estradas, incompetência que fez o Estado perder 40 mihões de reais que o governo Lula destinou para os presídios gaúchos, desestruturação da Emater, tentativa de renovar os famigerados pedágios sem licitação, manutenção dos baixíssimos salários dos que já ganham pouco, destruição dos serviços públicos… Enfim, poderia-se passar três anos listando horrores da gestão tucana no Rio Grande do Sul.

Foram tantos estes horrores que Yeda bateu o recorde de rejeição nas pesquisas de opinião. Sim, a tucana conseguiu a proeza de ostentar a pior avaliação de um governante desde que as pesquisas foram iniciadas no Brasil. Yeda entrou para a história pela porta dos fundos.

Mas um resto de sanidade deve ter sobrado a algum membro do governo que fez ver às lideranças partidárias que não dava mais para ser tão mau. As consequências eleitorais, não só para o partido da governadora, mas para todos os aliados, seriam desastrosas. Até um pedido de impeachment já havia vingado e só não prosperara totalmente porque PSDB, PMDB, PTB, PP e PPS fizeram as contas e concluíram que se estava ruim com Yeda, pior seria com Paulo Feijó, o vice que ninguém governa. Decidiram, então, que a partir da unidade alcançada para barrar o impeachment seria mantida e que era tempo de contratar marketeiros para melhorar a imagem de Yeda. Ela só apareceria, como na edição de hoje de Zero Hora, com ares de quem está “de bem com a vida”. A cereja do novo bolo seria, então, a apresentação de um pacote de bondades com aumentos salariais para as categorias mais massacradas do funcionalismo, professores e brigadianos.

Assim foi feito. Estrategicamente, os projetos foram remetidos à Assembleia Legislativa sem que os principais interessados conhecessem seus detalhes. Mas bastou que as categorias tivessem acesso ao texto original das propostas para rejeitarem, de pronto, o pacote que, ao fim e ao cabo, não era de bondades, mas de maldades. A tal ponto que na sessão de hoje, quando a Assembleia deveria votar o que seria a redenção de Yeda, acabou por afundar um pouco mais a cova que o governo vem cavando para si mesmo. De tão ruins, os projetos não tiveram sequer os votos dos deputados dos partidos aliados de Yeda. Ou seja, a tese da nova fase, do novo tempo, fracassara pela terceira ou quarta vez neste governo. A saída foi retirar o pacote de pauta. Mas um dos projetos, que mexia com a vida do brigadianos, não pode ser retirado porque a votação já estava encaminhada e uma emenda do próprio governo estava em votação. Foi então que o líder do governo, deputado Pedro Westphalen, numa fala surreal, sintetizou o desastre que é a operação política da administração tucana. Constrangido, Westphalen pediu aos deputados aliados que rejeitassem a emenda e o projeto. Inacreditável! O que o líder de Yeda viu-se obrigado a pedir para que fosse rejeitado, era uma das maiores bondades que o governo propagandeara.

O líder da banacada do PT, deputado Elvino Bohn Gass, diz que nunca viu nada parecido. “O governo manda um pacote de bondades mas não consegue aprová-lo. O governo, então, propõe emendas. E no final, o próprio líder do governo pede a rejeição das emendas e retira o pacote. O que é isso senão uma prova nítida de que estamos diante do pior governo da história do Rio Grande? E estas eram as bondades de Yeda, que deus nos livre das bondades de Yeda.” (Maneco)


Postado no RS Urgente

sexta-feira, 20 de novembro de 2009

A ignorância de Marco Aurélio estampada em Zero Hora

Marco Aurélio, chargista e celetista de Zero Hora, não deveria ilustrar nem jornal de grêmio estudantil, tais as tolices que comete. Ontem, ele conseguiu bater um recorde ao fazer uma “piada” sobre, presumivelmente, o Dia da Consciência Negra. Dias após escrever que “impeachment” era uma palavra francesa, o ilustrador principal de Zero Hora estampou a figura abaixo.

É engraçado? Não, né? É poético? Não. A mão azul significaria nossa nobreza, nosso “sangue azul” ao ajudar os negros? Bem, isto seria efetivamente uma piada de humor negro. É o Grêmio ajudando o Inter? Se fosse, a mão negra deveria ser vermelha, já que a gremista é azul. Mas há mais: ao escrever Leonardo como seu parceiro, provavelmente refere-se a correto?

Abaixo, A Criação de Adão, obra que se encontra desde 1510 no teto da Capela Sistina. O autor, meu caro Marco Aurélio, é Michelangelo Buonarroti. Michelangelo, para os íntimos da cultura mais basicazinha da humanidade.


Do blog de Milton Ribeiro

sábado, 31 de outubro de 2009

Com quem fala a RBS?

Por Ayrton Centeno

Um aviso: as linhas abaixo não carregam uma resposta para a pergunta acima. Neste balcão temos perplexidades em oferta mas estamos em falta de respostas nos estoques. Este monólogo aqui, antes de virar texto, começou com a pergunta do título depois que o autor andou observando o retorno diário do leitorado de Zero Hora.

Se ZH fala mesmo é com aquela turma que fala com ela está muito mal arranjada. O tom predominante das cartas dos leitores aninhadas na página 2, algumas graciosamente enfeitadas com a foto do autor, é de uma intolerância caricatural. Lula é o grande malfeitor de suas vidas, tarefa na qual é ajudado por Chávez, Evo, Zelaya, o PT, os movimentos sociais. Enfurecem-se com as cotas raciais, a olimpíada no Rio, a bolsa-família, a copa do mundo, o Cpers, os direitos humanos, as obras do PAC, a aprovação do presidente, o Enem, a crise que virou marolinha. Parecem digitar com agulhas – enfiadas pelo MST – sob suas unhas.

O resultado é um poço de ressentimentos, uma gororoba caldeada em desinformação, mesquinhez e preconceito. Talvez isto seja irrelevante. São, afinal, os leitores exercendo seu sacrossanto direito de dizer o que pensam ao diário que lhes dá o que pensar. Mas é também a safra que o jornal dos Sirotsky colhe a cada dia. E só se colhe o que se semeia. E o problema, para ZH, começa aí. Todas as sondagens, de todos os institutos, dizem que Lula é extremamente popular. E quem o detesta ou detesta seu governo não chega aos dois dígitos, rondando os 8%. Logo, o diálogo mais harmonioso de ZH ocorre com os leitores deste perfil. Porque será que os 92% restantes não se dispõem tanto a dar seu pitaco na seção de cartas? Tem mais o que fazer? Não lêem mais o jornal? São perguntas perturbadoras para quem adota o slogan “a vida por todos os lados” e que precisa, muito, de leitores, prato predileto dos anunciantes.

Na mesma toada, um episódio singular envolvendo outro veículo do grupo deveria, ao menos, provocar pruridos nas polpas de quem se senta no trono do poder midiático. Soube que, no programa Conversas Cruzadas, da TVCom, perguntou-se aos telespectadores se se identificavam mais com políticos de direita, de centro ou de esquerda. Deu direita com 45%, seguida pelo centro com 30% e a esquerda na rabeira com 25%. É um percentual notável quando se sabe que, no Brasil, a direita é a paixão que não ousa dizer o seu nome. Está fechada por dentro no próprio bunker. Ninguém assume a direita ao ponto de partidos de direita ou centro-direita afirmarem-se “progressistas”, “democratas”, “social-democratas” ou até “socialistas”… Porém quase a metade da audiência que interagiu arrojou-se nesta audácia mesmo que anônima.

Claro que, aqui também, é uma colheita, induzida pelo esforço histórico da pauta de CC&Lasier. É, de novo, a RBS levando um papo com a patota dos 8%. É de ficar matutando o que passa pela cabeça de quem decide essas coisas na corporação. Será que acha bom? Ou desconfia que estes dois indicativos não são tão desejáveis? De qualquer jeito, a RBS não pode ignorar que desperta amores brutos. Para tirar proveito da situação poderia explorar este nicho e lucrar algum - que é o que interessa. Consta que foi Noam Chomsky quem redefiniu o negócio da imprensa na era dos mercados. Seu produto não é a venda de informações aos leitores mas a venda dos leitores aos anunciantes. Casando o útil com o desagradável, a RBS poderia persuadir seus anunciantes a vender aos seus leitores - aqueles mais interativos - antiácidos, antidepressivos, talvez escopetas.


Do RS Urgente

sábado, 28 de fevereiro de 2009

"Guerra e Paz", segundo a RBS


O jornal Zero Hora requenta hoje (mais uma vez) o tema da “guerra civil” que estaria em curso no Rio Grande do Sul, destacando vozes como as de Luciano Alabarse e Lia Luft, que pregam a necessidade de “pacificação” do Estado. Isso no momento em que cresce o isolamento político do governo Yeda Crusius (PSDB), envolvido em denúncias e investigações em todas as áreas, inclusive a criminal. O interesse de ZH pelo tema da “pacificação” é inversamente proporcional ao que dedica à memória. Vale a pena lembrar algumas das coisas que o jornal dizia nos tempos do governo Olívio Dutra, tempos onde as “pombas da paz” estavam armadas até os dentes e a segurança pública era o terreno central de luta:

“Parlamento reage ao desgoverno. Pela primeira vez, as conversas e discursos no plenário da Assembléia, que é a caixa de ressonância das angústias da população, anteciparam ontem momentos de turbulência política no Estado, pelo desgoverno, quando Olívio Dutra completa 27 meses no Piratini. A reportagem de ZH sobre a mãe e duas filhas adolescentes violentadas que poderiam ter sido socorridas pela Brigada Militar de Canoas ampliou o apoio à instauração de Comissão Parlamentar de Inquérito para investigar o caos na segurança pública. Pela primeira vez, a idéia de um processo de impeachment [a CPI não havia sequer sido aprovada] recebeu o endosso dos mais contidos e equilibrados oposicionistas”. (José Barrionuevo, Página 10, ZH, 23/03/2001)

“Poucos temas têm ocupado tanto a atenção dos cidadãos gaúchos como os relacionados à segurança pública. Historicamente encarado como exceção dentre os principais Estados brasileiros devido aos reduzidos níveis de criminalidade, o Rio Grande do Sul enfrenta hoje um paradoxo inquietante. Enquanto o crime organizado se sofistica e fortalece, os órgãos de prevenção e de repressão passam a impressão de terem sido superados pela agilidade das organizações criminosas” (ZH, 19/04/2001, Editorial)

“O sucateamento da frota da Brigada Militar e da Polícia Civil não é uma abstração criada pelos opositores do governo (Olívio) para justificar a criação de uma CPI (...). O governo do Estado está diante de um problema que exige ação imediata” (ZH, 22/03/2001, Rosane de Oliveira, editora de Política de ZH na época)

Sobre esse tema, o leitor Lupiscinio Pires recorda:

"Não se tem notícia na mídia que entre os anos de 1998 e 2002 no governo do Sr. Olívio Dutra, Luciano Alabarse tenha sugerido uma trégua da oposição e de parte da mídia aos ataques sistemáticos que aquele governo enfrentou. Igualmente não se tem notícia de algum texto da escritora Lya Luft (notória defensora do Governo Yeda) preocupada com a "guerra civil" instalada durante os 4 anos de Olivio Dutra. Naquela época, os chamados formadores de opinião e o oposição diziam que todos os males da Segurança Pública tinha um nome: José Paulo Bisol. Depois nos governos Rigoto e Yeda o problema da segurança passou a ser "estrutural" ou "uma questão nacional".

Durante a CPI da Segurança, qualquer notícia da oposição provocava um Conversas Cruzadas ou longos debates na RBS. E não se exigiam provas naqueles anos. Se os encândalos na Secretaria de Cultura tivessem ocorrido entre 1998 e 2002, certamente Luciano Alabarse e Lya Luft teriam exigido providencias de Olivio Dutra. Não foi o que ocorreu. Não resta dúvida que a proposta da Bandeira Branca no Pampa é muito interessante, pena que tenha vindo com 10 anos de atraso".


segunda-feira, 23 de fevereiro de 2009

ZH e o casal Crusius: furos e versões


Por Vivian Grossi Rauter
Não é só o governo Yeda que vive um período de desacertos. Desde a Operação Rodin e a CPI do Detran na Assembléia gaúcha que o jornal Zero Hora é constantemente "furado" por jornais e revistas do centro do país. Sem falar nas inúmeras notícias que blogs gaúchos divulgaram em primeira mão. O jornal ZH e a jornalista Rosane de Oliveira foram os últimos, por exemplo, a publicar as declarações do delegado Tubino, durante a CPI do Detran, sobre os supostos 400 mil dados por Lair Ferst para aquisição da famosa casa da senhora governadora. Tanto é que a própria Rosane de Oliveira, em seu blog, justificou as razões para o atraso da publicação da referida noticia.

Hoje (25), ZH, atinge o clímax em seu desacertos quando, em sua página 6, divulga que a "aliança do casal Crusius parece ter chegado ao fim". E afirma que a fonte é a coluna Painel da Folha de São Paulo. Na matéria, Zero Hora diz :

"O casal já morava em casas separadas - ela na residência da Vila Jardim, ele no apartamento de Petrópolis que compartilhavam até pouco depois da eleição”.

Esta informação contraria o que a jornalista Rosane de Oliveira divulgou em sua coluna há menos de 60 dias em uma nota intitulada “Porta aberta”:

"Quem convive com o casal Crusius garante que a extinção do Conselho de Comunicação, presidido até então pelo professor Carlos Augusto Crusius, não significará seu afastamento do poder. Um amigo dele e da governadora Yeda Crusius afirma que o professor está comprometido com o projeto desde o início e que não precisa do cargo para continuar opinando. Para manter a privacidade, Crusius conservou o apartamento que os dois ocupavam em Petrópolis, antes de Yeda ser eleita e comprar a casa na Vila Jardim. É lá que recebe os amigos e dedica horas e horas à leitura."

Naquela ocasião, na principal coluna política do jornal ZH, não foi divulgado que o casal morava em casas separadas. Não surpreende a Folha de São Paulo furar o jornal Zero Hora em assunto da política gaúcha; o que é surpreendente é a própria Zero Hora assumir a noticia da Folha de São Paulo "esquecendo" o que foi divulgado há pouco tempo por sua colunista política.

sexta-feira, 9 de janeiro de 2009

Do Blog RS Urgente:

Os planos de Yeda Crusius para 2009: fatos relevantes e algumas sutilezas midiáticas

Em dezembro de 2008, a revista Voto publicou uma extensa entrevista com o então secretário estadual da Fazenda, Aod Cunha. Nesta entrevista, entre outras coisas, o secretário descartou planos políticos e manifestou sua intenção de permanecer no governo até o fim para completar a política de “ajuste fiscal” do Estado. Na ocasião, fez um alerta. Segundo ele, a política do “déficit zero” não estava concluída e poderia evaporar rapidamente, caso o governo mudasse de orientação. Semanas depois dessa entrevista, Aod Cunha foi apontado pelo jornal Zero Hora como um dos destaques do ano. O secretário foi citado, não a governadora Yeda Crusius.

Inicia o ano de 2009 e, logo nos primeiros dias, a surpresa: Aod Cunha deixa o governo. Segundo a governadora, ele havia cumprido sua missão: o déficit zero. No dia seguinte à saída do secretário, Yeda Crusius diz a prefeitos do PSDB que 2009 será um ano de fartura. Todos terão dinheiro para seus municípios, anuncia. O Estado foi saneado, diz ela, e agora vai começar o período de investimentos. Quem se der ao trabalho de ler a entrevista de Aod Cunha verá que ele não concorda com isso, o que talvez ajude a explicar sua saída do governo. É a própria governadora que dá a chave de leitura: já estamos entrando num período de eleição e o tabuleiro dos cargos vai se mover. Dos cargos e das verbas. O “déficit zero” já satisfez um propósito pargmático: virou munição para o período eleitoral (precarizou ainda mais os serviços públicos do Estado, é verdade, mas como a mídia da província não fala nisso, Yeda espera ficar só com a marca positiva). A governadora é destrambelhada, mas “arrumou a casa”, dirão seus aliados. Essa é a idéia. E os cofres do Piratini serão abertos. Para os amigos da rainha, principalmente.

A operação está sendo montada. Passada a era Aod, Yeda concederá mais uma entrevista exclusiva a Zero Hora onde anunciará em primeira mão a nova fase de seu governo. O jornal do grupo RBS, aliás, vem, repetidas vezes, desempenhando a função de porta-voz das decisões de governo. Tudo em primeira mão, furando a concorrência. Nesta sexta-feira, a cena se repetiu.

A jornalista Rosane de Oliveira entrou no tradicional programa de debates esportivos, Sala de Redação, para dar o furo: a secretária de Educação, Mariza Abreu, ficará no governo. O jornalista Lauro Quadros comete uma inconfidência e conta que viu Rosane de Oliveira almoçando com Mariza Abreu no dia anterior, nas dependências da RBS. Breve silêncio, breve constrangimento.

Desde o início da semana, nas páginas do mesmo jornal, o movimento estava claro. A secretária ameaça sair, reclama da falta de apoio e aguarda os apelos para ficar. No final da semana, vem o “Dia do Fico”. Mariza Abreu permanece em função dos “clamores da sociedade”, como diz um pouco mais tarde, na mesma rádio Gaúcha, o jornalista Lasier Martins. Logo em seguida, ele entrevista o secretário adjunto de Educação de Minas Gerais para falar sobre as reformas executadas pelo governo tucano de Aécio Neves. Sutileza pouca é bobagem.

segunda-feira, 5 de janeiro de 2009

Parte 4: De fábulas e fatos

De Ayrton Centeno para RSurgente

Quem freqüenta o RS Urgente, sabe que, periodicamente, o Instituto de Pesquisas Brancaleone (IPB), cuja palestínica finalidade é atirar pedra em tanque, publica aqui um apanhado do comportamento das manchetes de capa de Zero Hora, numa aparente dissipação de tempo&trabalho para confirmar o óbvio mas que também opera como régua para medir o tamanho da obviedade.

Franciscano, o IPB tem um corpo funcional constituido apenas pelo locutor que vos fala. Seu labor não ostenta arrogância de ciência mas também procura arduamente não confrontá-la. Consiste, apenas para relembrar, em separar e catalogar as manchetes de capa de ZH. De pronto, aparta-se aquelas consideradas neutras – embora em se tratando da mídia de Pindorama e particularmente do órgão da família Sirostsky, neutralidade seja um termo mais afeiçoado à ficção do que à narrativa da vida social. São, vá lá, neutras as manchetes que destacam tragédias, festas, trânsito, meteorologia, esporte, polícia, ciência etc. Feita a peneirada, ficam somente as manchetes políticas, aquelas que mais claramente deixam ver com que turma anda o jornal e como desmente no dia-a-dia seu marketing da “vida por todos os lados” ao privilegiar somente um dos lados, a quem dedica muito mais beijos do que tapas.

Para Lula – e para todos – este 2009 de que pisamos os primeiros dias está cheio de interrogações. Mas todos sabem que 2008 foi um ano formidável para o governo central, apesar dos primeiros reflexos da crise mundial dos mercados desatada nos EUA. Sentindo-se confortáveis com a economia e percebendo o alcance das políticas sociais, as pessoas expressaram sua confiança no país e no presidente, fazendo sua popularidade bater recorde sobre recorde. Já a governadora Yeda Crusius, mesmo antes do desabar da tempestade, passou o ano em mar encapelado, atirando do tombadilho cargas e mais cargas de secretários e assessores, na tentativa de manter o barco navegando embora com o casco perfurado continuamente por novas e más notícias. Sua popularidade, invisível a olho nu, é hoje objeto de estudo da microbiologia.

Mas uma coisa é a vida e outra a sua interpretação. Desse modo, na capa de ZH, Lula, seu partido, seu governo, suas alianças e o país foram alvejados por 31% das manchetes políticas de 2008. Portanto, praticamente uma de cada três manchetes políticas do diário depreciou o presidente, seus aliados e seu governo. As manchetes positivas foram somente 14%, menos da metade das negativas. No caso de Yeda, de seu, vamos dizer, governo, de seus aliados e do Rio Grande os tiros foram de balas de mel. Aqui, as capas desfavoráveis estacionaram em 24% do total, enquanto as favoráveis chegaram a 29%.

Com isso, ZH ensina aos seus leitores que eles vivem em transe hipnótico num universo paralelo. Que aquilo que constatam nas ruas, na escola, no campo, no trabalho e no bolso não passa de uma miragem. É um encantamento que o jornal tenta quebrar a golpes incessantes de papel e tinta. Depois então, irá resgatá-los e devolvê-los ao mundo das realidades irretorquíveis, onde Lula é um pária e Yeda é uma governante sábia, justa e popular. É uma tarefa complicada já que 71% dos brasileiros pensam exatamente o oposto do jornal. E quem garimpou tal percentagem não foi o risível IBP mas institutos de pesquisas de tão nobre estirpe que ZH lhes encomenda, paga e publica os números. É duro viver assim mas é o que acontece com quem se auto-isola num planeta à parte, onde a fábula usurpa o lugar dos fatos.

Leia também as partes 1, 2 e 3 AQUI, AQUI e AQUI respectivamente.